por Bruna Bittencourt

Com um olhar humanista para a cidade, mostra Poder e Sufocamento reúne diferentes gerações da fotografia brasileira no MIS, em São Paulo

Poder é uma foto de Carlos Vergara, de 1976, em que três negros têm a palavra pintada no peito em meio ao bloco carnavalesco Cacique de Ramos. Para dar nome à mostra que abre dia 15 de agosto no Museu da Imagem e do Som de São Paulo, ela faz par com uma das imagens do premiado ensaio Sufocamento (2014), em que Pedro David registrou espécies nativas que sobreviveram em meio a uma área de reflorestamento com eucaliptos, em Minas Gerais.

Intitulada Poder e sufocamento, a exposição reúne diferentes gerações da fotografia brasileira, como os dois já citados, para apresentar um recorte da coleção iniciada há oito anos pela fundação que leva o nome de Marcos Amaro, 32 anos, empresário e herdeiro da TAM. A curadoria foi feita por Isabel Amado, sócia da Galeria da Gávea, no Rio de Janeiro.

Isabel selecionou 22 imagens do acervo, bastante conhecido dela, que vem acompanhando desde o início a formação da coleção. Em 2009, ela criou junto com Amaro a Galeria de Rua, um projeto que promovia a inclusão de moradores de rua por meio da fotografia e que resultou em duas exposições. "Marcos tinha uma preocupação humanista como todo jovem de 20 e poucos anos. E toda coleção de arte tem a cara do seu dono", lembra a curadora. A partir daí, o empresário foi reunindo o trabalho de artistas contemporâneos que dialogam com essa questão.

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O olhar de Isabel para a mostra também chama a atenção para a preocupação que a coleção tem com as questões da cidade de São Paulo, da metrópole, de sua ocupação e transformação. "Essa reflexão na fotografia passa necessariamente pelo ensaio e pelo fotojornalismo", afirma. Daí, explica ela, a presença de obras de Marlene Bergamo, Tuca Vieira e Nelson Kon – este último, é "fotógrafo, arquiteto e um dos maiores conhecedores da cidade de São Paulo", acredita a curadora.

Ela atribui à relação de Amaro com a aviação o olhar para as imagens de vistas aéreas. "Ao invés de se olhar de dentro, vê-se de fora, ou melhor, de cima e o todo." Um bom exemplo desse ângulo na coleção é Paraisópolis (2004), de Tuca Vieira, que registra do alto a comunidade no bairro do Morumbi, em São Paulo, e seu vizinho, um prédio de luxo com quadra de tênis e piscina na varanda de cada apartamento. “Minha maior intenção é demonstrar a potência do acervo fotográfico deflagrando espaços que tentam oprimir e diminuir a liberdade do indivíduo”, explica Amaro.

Do outro lado do mundo, um políptico da série Plethora (2015), de Julio Bittencourt, que reúne os hóspedes de um hotel-cápsula em Tóquio, em que os cômodos só têm espaço para abrigar uma cama. "É o poder do capitalismo e, ao mesmo tempo, o sufocamento que ele proporciona", comenta Isabel.

Créditos

Imagem principal: Tuca Vieira/Divulgação

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