Maré de Esperança
O tsunami fez o planeta se comportar como um ser vivo reagindo para curar suas feridas, uma evolução que pode diminuir o número de vítimas do próximo desastre natural
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
FOTO ARQUIVO Marcos Vilas Boas
Caro Paulo,
Como te falei, fui com toda a família passar o Natal e o fim de ano em Sintra, Portugal. Foi lá que fiquei sabendo dos tsunamis. Ficamos numa casa superantiga numa aldeia chamada Penedo, no alto da serra, num lugar tão tranqüilo e silencioso que a sensação era de que o século 20 ainda não tinha começado. Exceto pela TV, pela internet e pelos celulares. Assim, foi longe de nossa casa e de nosso país que vivi a experiência de um desastre natural que fez a humanidade assustada dissolver suas divergências políticas, religiosas e comerciais e agir movida pelo sentimento que mais nos faz dignos da condição humana, a compaixão. De repente, todos os povos eram um só. De repente, a natureza e a tecnologia de comunicação uniram todos os povos do mundo em torno de um só objetivo: a vida.
Isso pode significar muito mais do que unir pessoas. Eu acredito que experiências como essas de unidade ? pela tecnologia ? e de humildade ? pela natureza ? podem ser importantes para que o ser humano acorde sua consciência e acredite na possibilidade da paz e da nossa evolução. Não me refiro à ajuda em si. Acho que tem de um tudo por trás das doações: pena, solidariedade, culpa, interesse, exibicionismo. Do ponto de vista das vítimas, não importa o que levou ao gesto, mas o gesto em si. Do meu ponto de vista, o que importa é a experiência do desastre compartilhado via comunicação, que nos uniu e fez o planeta se comportar como um ser vivo reagindo em tempo real para curar suas feridas. Era Gaia reagindo. Você sabe, Gaia é o apelido da tese de que o planeta Terra é um organismo vivo e que a humanidade é um aspecto dele e não um hóspede.
Quando vi meus filhos e seus amigos naquela pequena aldeia da serra de Sintra mandando torpedos de ajuda via celular para enviar doação para as vítimas da Indonésia, tive a constatação concreta de que a humanidade era uma das forças da natureza que se mobilizavam para resgatar o equilíbrio da vida ameaçada em uma parte do planeta. Eu acredito que, do mesmo jeito que a gente se machuca e se cura, a natureza se machuca e se cura. Eu vi cidadãos do mundo inteiro compassivamente se mobilizando e se comunicando como células se mobilizam, interagindo, produzindo circunstâncias de socorro e cura à parte doente de seu corpo (vide ?sistemas emergentes?). De novo, insisto, não era a ajuda em si nem a solidariedade que me impressionava, mas a dinâmica instalada no planeta.
Elefantes
Imaginava os animais, as plantas, as águas, assim como os humanos, reagindo para resgatar o equilíbrio afetado. Era o espetáculo da vida como sempre foi e será. Porém, com uma dife-rença. Nós, humanos, estávamos aprendendo algo mais sobre nós mesmos. E isso é evolução. Evolução é conviver com mais intimidade com a natureza e desistir dos sonhos de controle e dominação que não passam de delírios pueris de uma fase da humanidade que se acreditava separada e maior do que a própria fonte da vida.
Essa intimidade pode diminuir o número de vítimas do próximo desastre natural, talvez chegando ao número de elefantes mortos na Tailândia e no Sri Lanka, que foi zero porque os animais detectaram os tsunamis em tempo de se proteger. Para os elefantes é suficiente se salvarem. Para nós, essa intimidade é o caminho da evolução, do reconhecimento da vida como nosso maior patrimônio. Gosto de acreditar nisso. Pelo menos é um jeito mais suportável de conviver com tantas perdas. Fique com o abraço cheio de esperança do amigo,
Ricardo.
*Ricardo Guimarães, 56, presidente da Thymus Branding, acredita que o maremoto na Ásia ensinou uma importante lição à humanidade. Seu e-mail é: ricardo@guimaraes.com.br
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