por Ricardo Alexandre

Documentário sobre ex-músico do Rappa estreia hoje no circuito comercial

Marcelo Yuka no Caminho das Setas, documentário que estreia nesta sexta-feira (30) em circuito comercial, seria mais um documentário sobre música, de uma leva muito interessante de bons documentários sobre música brasileira. Mas, nesse sentido, é incômodo, porque a carreira musical de Yuka tornou-se tortuosa, fragmentada, interrompida e reconectada várias vezes, com sua saída d'O Rappa, grupo que fundou e no qual funcionava como espécie de mentor, além de letrista e compositor. Poderia ser um filme sobre um drama humano, mas o gosto amargo de ver um baterista tornado paraplégico após ser baleado no ano 2000 e depois ser expulso do grupo que criou é um pouco forte demais, mesmo para as audiências que aplaudiram o filme da jornalista paulista Daniela Broitman nos festivais e mostras onde foi exibido.

Então, o que é Marcelo Yuka no Caminho das Setas? Bem, arriscaria dizer que é um filme sobre injustiças. Sobre um artista inviabilizado comercialmente no exato momento que alcançou o sucesso popular e que, no caminho de capitalizar a imagem de mártir, foi expulso da banda que criou e cuja imagem concebeu. (As cenas em que Marcelo Falcão explica por que O Rappa demitiu Yuka já entram para a história da arte de embrulhar o estômago, léguas a frente de qualquer Jogos Mortais). As dores, as readaptações, o desconforto com as limitações físicas e artísticas, os constantes recomeços. Como Yuka sempre cantou sobre as injustiças (curioso notar que logo que voltou à música, depois do acidente, voltou-se para a “arrogância” dos Estados Unidos em “Ninguém regula a América”, em vez de voltar-se para sua própria condição), o Yuka flagrado no documentário é o meta-personagem.

Como o aspecto arquivista de Caminho das Setas pouco faria diferença em um artista dos anos 1990, o filme opta acertadamente por situações documentais do cotidiano do música – como Yuka lendo pela primeira vez as cartas que os fãs lhes escreveram durante sua internação ou o pouco esforço que o músico faz para martirizar-se ou posar de guru.

É nas humanidades (quando Yuka expõe brutalmente sua dor e, eventualmente, seus traços de desesperança, e mesmo quando seus ex-colegas d'O Rappa expõem seus valores pouco nobres) que Caminho das Setas ganha força. E faz refletir sobre as limitações de todos nós, físicas, éticas e psicológicas. É muito mais do que música, como a boa música sempre deveria ser.

 

 

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