Maquiagem para eles

por Carol Ito

Cada vez mais, homens buscam conteúdo sobre maquiagem masculina - ainda que em segredo

Os mais de 800 mil inscritos no canal do YouTube Maquiagem de Homem denunciam: muitos homens se interessam por maquiagem, sim. A página foi criada em 2014 pelo maquiador paulista Fabiano Okabayashi, que sacou a falta de conteúdo ligado à beleza masculina. "A procura aumentou muito. Os homens são famintos por conteúdo. Posto duas vezes por semana e eles querem mais", diz o youtuber. Nos vídeos, ele oferece dicas de como escolher a melhor base para o rosto, disfarçar a oleosidade da pele, retocar sobrancelhas, além de tutoriais em que ensina a usar chapinha no cabelo, fazer alongamento de bigode e preencher a barba com rímel para disfarçar falhas e fios brancos, por exemplo. "Maquiagem é uma questão de autoestima, se sentir completo, bonito, confiante. Se você tem algo estético que te atrapalha emocionalmente, a maquiagem pode ajudar", completa.

“Como a gente vai falar de igualdade de gênero se o homem não mudar também?”, questiona Mario Queiroz, doutor em comunicação e idealizador do evento Homem Brasileiro, que há cinco anos discute o comportamento masculino em diálogo com áreas como moda, design e trabalho. 

“O homem que antes só usava sabonete, xampu e desodorante passou a usar produtos de skincare e maquiagem”
Diego Costa, gerente do segmento de maquiagem d’O Boticário

A discussão feminista vem provocando os homens a repensarem a masculinidade, o que contribui para que eles se libertem de alguns tabus ligados à vaidade. É o que acredita Andreia Miròn, consultora e professora do curso de moda da faculdade Santa Marcelina, em São Paulo. “Depois que as mulheres queimaram seus sutiãs e entraram no mercado de trabalho, desconcertaram toda uma estrutura que era focada no homem há muitos séculos”, diz.

Sem transparecer

“Dossiê Brandlab: A Nova Masculinidade e os Homens Brasileiros”, estudo do Google divulgado em junho de 2018, mostra que conteúdos de maquiagem masculina passaram a ter 46% mais audiência no YouTube entre 2016 e 2017 e as visualizações desse público em assuntos ligados à beleza aumentou 44% entre 2017 e 2018.

O mercado responde à altura: ano passado, a Chanel lançou sua primeira linha de maquiagem para homens, a Boy de Chanel, com o slogan “Beleza não é uma questão de gênero, mas de estilo”. Composta por hidratante labial, base com protetor solar e uma espécie de rímel para pentear e preencher falhas nas sobrancelhas, a linha traz embalagens sóbrias e a promessa de um look natural, como mostra a campanha publicitária em que o modelo alemão Tim Schuhmacher ensina como se maquiar em seis passos.

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“Eu mesmo faço meu olho preto e tá bom. Não uso base, corretivo, essas coisas. Nada contra, só não tenho saco”
Supla, cantor

Mesmo com o crescimento, alguns assuntos considerados femininos ainda são "proibidos" fora das redes. O mesmo levantamento aponta, por exemplo, que mais de 50% dos homens preferem zoar ou não comentar quando um amigo muda algo na aparência e 49% evitam falar sobre cuidados pessoais. “Quando você é mulher, sua mãe, suas amigas te dão toques de beleza. Mas você não vai encontrar isso numa conversa entre amigos”, reflete Mario. "Um tutorial na internet é bacana porque ninguém vai saber se o homem ver, né?" Além do assunto se esconder no mundo on-line, eles preferem que a maquiagem seja discreta — não é para aparecer, apenas cobrir imperfeições e oferecer uma aparência mais jovem. Com 50 mil views, o vídeo mais acessado do canal homônimo do cearense Pedro Levis leva o título “Maquiagem masculina sem deixar transparecer?”, em que ele dá dicas de como uniformizar a pele com base, pó e corretivo. “Os homens ainda têm medo de serem rejeitados, ridicularizados. Quis mostrar que dá pra usar algo não tão carregado”, explica Pedro.

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Na contramão de quem usa maquiagem “sem dar pinta”, o roqueiro Supla aderiu aos olhos delineados desde que começou a frequentar os palcos. “Maquiagem também é uma forma de você se expressar artisticamente. Sempre achei interessante artistas que usavam, como os caras do New York Dolls e do Kiss”, conta. Apesar de se sentir confortável com o assunto, ele confessa que não tem paciência para criar visuais mais elaborados. “Eu mesmo faço meu olho preto e tá bom. Não uso base, corretivo, essas coisas. Nada contra, só não tenho saco.”

Para o maquiador e esteticista paranaense André Kemmer, que trabalha em spas há nove anos, a make masculina ainda é associada ao universo gay, embora venha conquistando cada vez mais adeptos entre os heterossexuais. “Eles procuram mais por protetores solares e antirrugas”, avalia, observando também o aumento da busca por tratamentos para calvície e botox. “O homem que antes só usava sabonete, xampu e desodorante passou a usar produtos de skincare e maquiagem”, diz Diego Costa, gerente do segmento de maquiagem d’O Boticário. A marca ainda não possui uma linha específica para homens, mas tem em seu catálogo produtos para a pele, como hidratante e protetor solar, que incluem pigmentos para disfarçar imperfeições. 

“Quando você é mulher, sua mãe, suas amigas te dão toques de beleza. Mas você não vai encontrar isso numa conversa de bar entre amigos”
Mario Queiroz, criador do evento Homem Brasileiro

“A opção pelo dermocosmético, que associa funcionalidade com estética, é como um álibi para o homem”, diz Andreia, que acredita que tanto as marcas quanto os consumidores ainda hesitam em tratar o assunto com naturalidade. “Ele quer o produto, mas não aceita propostas muito diferentes, que possam desafiar o que ele entende por masculinidade. Já a maioria das marcas não conseguem achar um meio comum para atender esse homem”, explica. Mario acredita que o conservadorismo é a raiz do problema: “A indústria brasileira é uma das mais medrosas, não arrisca.”

Idas e vindas

Se hoje o esforço é para disfarçar o uso de maquiagem, ela já foi ostentada como sinônimo de status e poder, do tempo dos faraós à monarquia dos Luíses na França (entre os séculos 13 e 16), que não só pintavam os rostos, como também usavam perucas e salto alto. “Depois que as cabeças dos Luíses foram guilhotinadas, a vaidade passou a ser vista como supérflua. Com a Era Industrial [a partir do século 18], consolidou-se uma nova ideia de homem, o produtivo”, explica Andreia.

A retomada da vaidade aparece entre os adeptos do dandismo na Europa do século 19: “Eles não usavam maquiagem, mas se diferenciavam pelas roupas e gravatas”, diz a professora, que é autora do livro Dândi: modo e moda masculina (2015). Com as duas grandes guerras do século 20, o homem “entrou de luto” em relação à própria imagem, como conta Mario. “O ideal de corpo e de beleza passa a ser associado à virilidade, aos músculos." 

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No século 21, o foco na tríade “barba, cabelo e bigode” vem acompanhado da onda de barbearias vintage, em um movimento semelhante ao dos primórdios da era industrial. “Há 200 anos, o cuidado com barbas e bigodes era uma forma de distinção para os industriais. Os processos são cíclicos”, explica a professora.

“A opção pelo dermocosmético, que associa funcionalidade com estética, é como um álibi para o homem”
Andreia Miròn, professora de moda

Ao mesmo tempo em que eles estão se abrindo mais a pensar sobre vaidade e beleza, a crítica em relação à “feminização do homem” também cresce. Com mais de 500 mil visualizações, um vídeo do canal Luiz Camargo Vlog, de 2018, explica um suposto processo de “declínio da masculinidade”, em que o homem estaria ficando “cada vez mais fraco e efeminado”. Para Mario, o jogo de ação e reação tende a continuar: “Ainda existe a ideia de que ‘menino veste azul e menina veste rosa’, mas,por outro lado, estamos ampliando as discussões sobre gênero”, diz ele, que aposta em um futuro em que não será necessário distinguir maquiagem para homens e para mulheres. “Temos uma nova geração que discute uma identidade mais fluida, sem esses limites definidos entre feminino e masculino”.

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