por Luiz Alberto Mendes

Não sei o que é mais comum: acertar ou errar. Desconfio que a balança penda para os erros.

As pessoas se decepcionam quando me conhecem pessoalmente. Pelos arquétipos montados sobre quem protagonizou histórias parecidas com as minhas, é plausível que se imagine fosse eu um ser brutal, estúpido e de feições patibulares. Às vezes o choque das pessoas é tão flagrante que elas nem acreditam. Sou pequeno (1,66 m.); robusto e forte (76 kg.); estou velhinho, cabelo grisalho e comprido (64 anos); ainda estou dinâmico e vital; Visto-me de acordo com o que acho legal e que fica bem para mim. Mas não pareço bandido, assaltante, pessoa perigosa ou algo parecido. Estou há 13 anos fora da prisão e até agora a polícia não me parou uma só vez.[

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Não sou, de modo algum, aquilo que as pessoas imaginam que eu deveria ser. Não posso ser cobrado pelo passado. Pelas Leis Sociais, eu já paguei a pena que devia. E bem pago. A menos que se considerem que os 31 anos e 10 meses que fiquei preso seja pouco. Eu fui aquele que deu extensos motivos para ficar preso a vida toda. Naveguei entre procelas, às vezes naufragando, outras me afogando e, de vez em quando, mergulhando fundo em busca de remotos tesouros. Hora pra cima, hora pra baixo, fiz o que pude com o que tinha nas mãos e os arranjos que consegui fazer em minha cabeça.

Errei feio. Não que eu considere errar algo tão surpreendente assim. Não sei o que é mais comum: acertar ou errar. Desconfio que a balança penda para os erros, me parece mais comum errar do que acertar. Por favor, quem pensa diferente e tem dados, manifeste-se. Estou interessado em saber. Pelo que aprendi, depois de haver vivenciado: caso não haja erros não haverá acertos também. São os acertos que nos mostram o quanto erramos e os erros nos mostram o quanto acertamos. Tanto que já conseguimos até nos mantermos vivos e ficar velhos. Há méritos em envelhecer. Nós fizemos do mundo aqui uma selva de pedras e aço; só os mais fortes envelhecem e sobrevivem a isso lucidamente.

Embora errar ou acertar já não tem grande importância porque ficou no passado. E passado, como dizem os pós-modernos, não existe mais, acabou de acabar. Importa aprender com erros e acertos a acertar mais que errar. Se bem que quanto mais graves os erros, mais é preciso mobilizar de nossa capacidade e disposição para solucionar. E, acompanhando esse raciocínio, é ai que esta a possibilidade de se crescer e aprender mais ainda. O que a vida não perdoa, é ser consciente de que se esta errando e persistir no erro, qual se errar fosse destinação.

Quando cheguei à prisão, meu apelido era Luizinho. Eu era muito pequeno. Caso se formassem uma fila por altura, eu estaria entre os últimos. Aparentava uns 15 anos de idade. Fui perseguido e tive que matar para continuar sendo homem. Não havia pelos em meu corpo ainda, tinha boa aparência e os pederastas-estupradores me viam como um alvo. Eles esqueciam que não é o tamanho do homem que vale e sim o tamanho da briga desse homem. E justamente por ser pequeno, eles me subestimaram por um tempo e eu desenvolvi uma agressividade que supria meu tamanho; não era valentão, apenas obstinado.

Vivi parte de infância e adolescência na rua e em instituições para menores infratores. Não tive a atenção, o carinho, o cuidado e muito menos a alimentação para me desenvolver normalmente. Parei de crescer aos 35 anos de idade. Tornei-me homem, capaz de me cuidar e defender, instantaneamente, ao fugir de casa e chegar às ruas. Continuo pequeno em comparação à atual geração (meus filhos têm um palmo a mais que eu), mas ai ocorreu um fenômeno que ou é fácil entender, ou impossível.

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Ao final de minha pena começaram a me chamar de "Luizão". O interessante é que foi espontâneo. Em todos os lugares que fui, prisões e depois em liberdade, as pessoa me chamavam de "Luizão". No começo quis reclamar. Era contraditório. Quando percebi que isso que em vez de diminuir, fez com que o apelido pegasse e se esparramasse mais, me calei. Há piores apelidos para quem chama Luiz: "Lú", "Lulu" (esse é o pior), "Luizada"... Hoje respondo com naturalidade, mas sempre que posso, esclareço: meu nome é Luiz e tão somente. Luiz Mendes, quando quiserem se referir ao escritor.

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