por Ronaldo Lemos
Trip #278

Dá pra aprender muito sobre o país com Mc Fioti e seu “Bum bum tam tam”, vídeo que ultrapassou 1 bilhão de visualizações no Youtube

Há pouco tempo, escrevi um artigo para a Folha de S.Paulo dando uma notícia importante: o Brasil, pela primeira vez, ingressava no seleto clube de países que conseguiu produzir um vídeo para o YouTube com mais de 1 bilhão de visualizações.

O feito foi realizado por um vídeo de funk. Mais especificamente, a música “Bum bum tam tam”, de autoria do MC Fioti (foto ao lado). A faixa estourou globalmente. Hoje ela é tocada repetidamente em academias, supermercados, rádios, internet e até mesmo em TVs espalhadas por lugares como Londres, Berlim, Jacarta (Indonésia), Antananarivo (Madagascar), Tel Aviv (Israel), Kuala Lumpur (Malásia) e assim por diante.

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Apesar desse sucesso estrondoso, é bastante possível que vários leitores desta coluna nunca tenham ouvido falar de MC Fioti. Vale então a pena fazer uma apresentação. Esse é o nome artístico de Leandro Aparecido Ferreira, 24 anos. Ele nasceu em Itapecerica da Serra (SP) e começou atuando no funk paulista como produtor no bairro do Capão Redondo (São Paulo). Antes, trabalhou como pedreiro, catou papelão e alumínio na rua. Como vários brasileiros, nunca conheceu o pai e foi criado pela mãe.

Made in brazil

Fioti é protagonista do maior hit musical global já produzido pelo país. Para se ter uma ideia, por ano, apenas cerca de quatro vídeos ultrapassam a barreira de 1 bilhão de visualizações. Na maioria desses casos, trata-se de vídeos produzidos principalmente nos Estados Unidos, que contam com apoio de marketing e redes de distribuição globais. A música de maior impacto nos Estados Unidos neste ano, o hit “This is America”, do rapper Childish Gambino, alcançou “apenas” 400 milhões de visualizações.

Quando alguém chega a 1 bilhão, significa sucesso global, acordos de distribuição, de licenciamento bem como receitas significativas provenientes da publicidade, que é exibida sobre o vídeo e por conta dos direitos autorais recolhidos. Esse é um clube muito fechado. Ele é ocupado por músicas como “Despacito” e “Gangnam Style”, que fizeram as pessoas dançarem em milhões de festas espalhadas pelo mundo.

Leandro conseguiu fazer parte desse clube. Quando escrevi meu artigo na Folha falando sobre isso, fiquei muito mal impressionado com os comentários que recebi de vários internautas. Boa parte deles duvidava do texto, dizendo que “nunca tinha ouvido falar em Fioti” nem nunca “tinha escutado aquela música”.

Outra parte era mais raivosa. Dizia que o Brasil deveria se envergonhar de uma música como essa ter se espalhado pelo planeta. Isso, na visão dessas pessoas, seria um sintoma da ruína educacional do país. “Como pode um lixo desse circular?”, perguntou um internauta indignado. Para esses internautas, não importa em nada que a base da música de Fioti tenha sido um sample da “Partita em lá menor para flauta solo”, de Johann Sebastian Bach, magistralmente utilizada pelo MC. Também não importa que a batida criada por ele seja claramente original e iconoclasta. Em vez de marcar o ritmo, a batida desaparece, deixando para o ouvinte a tarefa de completar as marcações na cabeça.

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Todos esses internautas raivosos não conseguiam enxergar ou ouvir nada disso. Enxergavam e ouviam apenas o próprio preconceito. O produtor de Fioti se chama Konrad Cunha Dantas, mais conhecido por Kondzilla. Konrad, que nasceu no Guarujá (SP), é dono do maior canal do YouTube do Brasil e o quarto maior do mundo com 41 milhões de seguidores. Tudo em que ele põe a mão vira ouro. Qual é seu talento? Enxergar o Brasil em toda sua energia, sem preconceitos. Ele percebeu muito cedo que o país tem uma vitalidade poderosíssima que pode sacudir o mundo. Só não enxerga isso quem não quer (ou é cegado pelo próprio preconceito). Ao fazer isso, tornou-se o maior comunicador da internet no Brasil e um dos maiores do mundo. Essa lição é preciosa. Dá para aprender muito sobre o país que vivemos com Leandro e com Konrad.

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