por Ronaldo Lemos
Trip #277

Se uma pequena parcela do trabalho acadêmico que é feito no Brasil fosse direcionada para tratar de questões com impacto, isso produziria um movimento transformador

Você já foi a uma defesa de mestrado ou doutorado? Se não foi, vale imaginar a cena: um acadêmico, que passou de dois a cinco anos (às vezes mais) escrevendo um texto, segue para apresentá-lo a uma banca avaliadora, formada por outros acadêmicos. Na sala, predomina um clima muitas vezes solene, outras vezes (artificialmente) descontraído. O aluno apresenta seu trabalho. Os membros da banca fazem perguntas. Ele responde. No final, todos saem da sala e a banca delibera sozinha se o candidato merece ser aprovado (na maioria absoluta dos casos a resposta será positiva). Todos retornam para a sala e o acadêmico é comunicado da sua aprovação. Todos celebram.

Esse ritual, que pode parecer adequado para a Idade Média, não faz sentido nenhum no mundo de hoje. Tudo isso precisa mudar. Como outras instituições, a academia está em crise. Ela está sendo atacada política e economicamente, ao mesmo tempo em que insiste em permanecer a mesma, apesar das brutais mudanças tecnológicas e de arquitetura da informação que estamos vivendo.

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Nesse contexto, o trabalho acadêmico poderia ser completamente diferente. Hoje a academia é pródiga em produzir uma enorme quantidade de trabalhos que não terão resultado nenhum sobre o mundo ou sobre a sociedade. Façamos a pergunta: quantas pessoas mais leem a maioria das teses de mestrado e doutorado defendidas no Brasil, além da própria banca que realizou sua avaliação (e às vezes nem ela)?

Tique-taque

Quantas horas de trabalho investidas por nossa elite intelectual estão sendo empregadas em atividades que não produzem nenhum impacto ou relevância prática? Por ano, o país forma cerca de 50 mil mestres e 16 mil doutores. De acordo com a Organização Internacional do Trabalho, um brasileiro trabalha cerca de 1.711 horas por ano. Se o nível de trabalho for equivalente, são 85 milhões de horas/homem anuais dos mestrandos e 27 milhões dos doutorandos. Horas valiosíssimas, já que são provenientes do segmento com maior nível educacional do país. Se um percentual, ainda que pequeno, dessas horas fosse empregado para tratar de problemas concretos do país, dos estados, das cidades, das comunidades, tanto a academia ganharia com essa interação quanto o país se beneficiaria enormemente dessa força de trabalho intelectual.

É claro que há exceções. Há acadêmicos brilhantes que produzem teses e dissertações que terão impacto profundo. Mas infelizmente não são a regra. Além disso, a questão aqui não é mais só de resultado, mas sim de processo.

O trabalho intelectual precisa mudar. Primeiro, não pode mais resultar apenas na produção de um texto encadernado em capa dura. Trabalhos acadêmicos precisam se converter em projetos, com prazos de execução, objetivos, metas e mensuração de impacto. Nesse sentido, podem ser qualquer coisa: um filme, um site, um novo produto, uma patente, uma animação, um novo artefato industrial, um processo de organização comunitária, um novo jeito de construir moradias de baixo custo, uma nova estratégia para tratamento de esgoto, um tecido mais barato ou resistente, uma nova metodologia para se administrar empresas, uma receita para proporcionar mais eficiência ao trabalho do poder judiciário ou administrar melhor o sistema penitenciário, um novo medicamento, uma nova forma de compreender uma questão e assim por diante.

Quem quiser fazer um trabalho puramente teórico em texto, poderia fazer também. Mas teria de justificar a escolha e seria avaliado por critérios bem mais rigorosos do que os que são aplicados hoje. Modelos híbridos podem também ser incentivados: uma parte do trabalho por escrito (mais curto do que o praticado hoje) e a outra, testada no mundo real.

Vale repetir: se uma pequena parcela do trabalho acadêmico que é feito no Brasil fosse direcionada para tratar de questões com impacto no país (ou no mundo), isso produziria um movimento transformador. Achou essa ideia boa? Sim ou não? Está aí um bom tema para alguém escrever um mestrado ou doutorado.

Créditos

Imagem principal: Beccy McCray

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