por Gustavo Angimahtz
Trip #247

Lama Michel Rinpoche foi identificado aos 5 anos como a reencarnação de um sacerdote budista e trocou o conforto da classe média pela simplicidade monástica

A decisão de se tornar monge budista, tomada pelo paulistano Michel Lenz Cesar Calmanowitz – 34 anos, origem judaica por parte de pai e presbiteriana por parte de mãe –, aconteceu de fato quando ele tinha 12 anos. Mas foi plantada em sua cabeça bem antes, num episódio que poderia ser descrito como um verdadeiro lance de iluminação. Ele tinha apenas 5 quando seus pais, o engenheiro Daniel Calmanowitz e a psicóloga Bel César, tiveram o primeiro contato com o budismo ao recepcionar o lama Gangchen Rinpoche em sua casa, no bairro de Perdizes, em São Paulo.

Ao colocar os olhos na criança, lama Gangchen o reconheceu como a reencarnação de Tulku, um monge tibetano da linhagem NgalSo, corrente de conhecimento que trabalha com a verdade do sofrimento, suas causas e sua cessação, adaptando os ensinamentos de buda Shakyamuni. A sensação de encontro, naquele dia, foi mútua: “Quando vi meu mestre pela primeira vez, senti amor à primeira vista. Quis ficar na casa dele, passava horas escutando seus ensinamentos e adorava”, lembra Michel – que manteve o nome de batismo a pedido de lama Gangchen, pois, em tibetano, “mi” significa “ser humano” e “chel” quer dizer cristal.

A linhagem, no budismo, é uma qualidade passada de professor a aluno, pois existe a crença de que qualquer prática de meditação ou conceito filosófico não se transforma de algo intelectual para a experiência propriamente dita se não houver transmissão direta.

Desde que conheceu o garoto, as visitas de lama Gangchen ao Brasil tornaram-se frequentes até que, aos 12 anos, lama Michel Rinpoche decidiu ir para a Índia para estudar no monastério Sera Me e abraçar sua vocação. Passada a surpresa inicial, a família aceitou a opção do menino. Num primeiro momento, o pai o acompanhou à Índia, enquanto a mãe e a irmã, Fernanda, permaneceram em São Paulo. E, alguns anos depois, Michel seguiu seu caminho sozinho. “A sensação mais forte que eu tinha em relação a isso é a de que fazia sentido”, explica. “Minha vida no Brasil era ótima, com mãe, pai, irmã, amigos, escola. Porém, tinha também a sensação de colocar a minha energia em coisas que não me levariam a lugar nenhum. Eu olhava à minha volta e os adultos só faziam reclamar. Meu mestre, não.”

Lama Michel concluiu seus estudos em Sera Me e viajou com seu mestre por diversos países, instalando-se na Itália, onde vive até hoje. Seu maior objetivo, diz, é estar bem consigo mesmo e com as pessoas à sua volta, independentemente de onde estiver e do que estiver ocorrendo no mundo. Vive em um quarto pequeno, com uma cama, um altar, muitos livros, uma janela “e um armariozinho para colocar roupas”, conforme descreve. Simplicidade que não o incomoda, uma vez que, em boa parte do tempo, Michel viaja em peregrinações para compartilhar os ensinamentos do Buda. E visita o Brasil regularmente para ver a família e ministrar palestras e meditações na Fundação Lama Gangchen para a Cultura de Paz, instituição que criou com seu mestre na capital paulista.

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Mesmo abstendo-se dos prazeres mundanos – já que o celibato é um voto feito ainda no monastério e o desapego de bens materiais, uma prática budista –, lama Michel se define como um ser humano qualquer, com defeitos e qualidades, e não um iluminado que não tenha nada a aprender. Entre seus gostos está a música erudita: dos compositores clássicos ao minimalista Philip Glass, a quem admira especialmente, mas também aprecia o jazz e a música brasileira – principalmente Caetano Veloso e Gilberto Gil. Outro traço que chama a atenção no monge brasileiro é sua familiaridade com tecnologia: ele utiliza fartamente a internet para se comunicar com seus alunos e transmite palestras por streaming ao vivo para alcançar mais pessoas.

Nesta edição da Trip que trata do tema “utopia”, perguntamos ao lama Michel sobre seus sonhos e sobre a jornada que leva do cultivo da paz interior à busca da harmonia coletiva. Ele também falou sobre temas polêmicos, como fundamentalismo, sexualidade, brigas no monastério e o momento político delicado que vive o Brasil.

Trip: O que é utopia pra você?

Lama Michel Rinpoche: Acreditar em algo que, a princípio, teríamos potencial pra atingir, mas as condições do momento não tornam possível. É aquilo que nos empurra e nos leva a desenvolver o nosso potencial. Um incentivo para fazer alguma coisa. E não a ideia de acreditar ou desejar coisas incoerentes com as reais possibilidades da experiência humana. A utopia pode e deve estar conectada com os recursos que a gente possui.

Qual é a sua utopia pessoal? Estar bem comigo mesmo e com os outros que estão à minha volta. Buscar a harmonia, independentemente de onde eu estiver, com quem eu estiver e em qual situação eu me encontrar. Em suma, é a busca de um estado interior de equilíbrio que seja independente das condições à minha volta.

O mundo à nossa volta não parece sugerir muito otimismo: guerras, intolerância, desequilíbrios ecológicos. É possível crer em algum tipo de utopia coletiva? Se olho para a sociedade como um todo, é difícil ser otimista. Porém, a partir do momento em que vejo no indivíduo o potencial para desenvolver a paz interior, fica mais fácil ser otimista. É preciso notar as transformações que acontecem de dentro para fora. Tenho uma forma de viver muito prática no dia a dia: dificilmente me coloco grandes objetivos ou me mobilizo na direção deles. Tento viver bem o cotidiano, fazendo o meu melhor. Esse é, ao contrário do que se pensa, um objetivo grande – só que com expectativa baixa e esforço constante. Para evitar decepções, é importante buscar a coerência entre os nossos objetivos e os recursos que possuímos para alcançá-los.

Diante da situação complicada que vivemos, é realista ter como objetivo salvar o planeta da ânsia humana por consumo? A única possibilidade de transformação da sociedade em que acredito é a que vem por meio do pensamento e da atitude do indivíduo. Não posso mudar a vida de ninguém, mas posso interagir com os outros, regar a semente. E, quando a gente vê que começa a germinar uma flor, a sensação de plenitude é muito boa. Somos seres influenciáveis, mesmo sem ter consciência disso. Vivemos à base das verdades em que acreditamos até que elas sejam desconstruídas e criemos outras. Hoje, nossa sociedade vive uma utopia materialista do ponto de vista da ciência que parece imutável. Nos esquecemos de que temos a liberdade de escolher algo diferente.

Controlar o aquecimento global, por exemplo, antes de uma utopia tornou-se uma urgência. O ser humano terá tempo de aprender a conviver com a natureza? A Terra sempre esteve e continua em transformação e a interação do ser humano faz parte dessa transformação. Vários aspectos são extremamente preocupantes e o aquecimento global é um deles. No entanto, não vivo na expectativa ou na paranoia de que uma grande tragédia planetária acontecerá. Se acontecer, teremos que lidar com isso. Não vou ficar “pré-sofrendo”. O que não significa que não tenhamos que cuidar da natureza da melhor maneira que podemos. Nós não possuímos a natureza, fazemos parte dela. Sem saúde ambiental, não poderemos continuar vivos. O homem não existe independente da natureza, então nunca poderá dominá-la. Isso é uma ilusão. Podemos aprender a interagir com ela e até a usá-la a nosso favor, mas nunca a dominaremos.

Você é um monge conectado com as novas tecnologias do mundo de hoje. Para muitos, elas representam uma possibilidade de libertação; para outros, afastaram o homem moderno das experiências reais. Qual é a sua visão sobre isso? Tudo está constantemente em transformação, porém modelamos a vida por meio de imagens mentais que não se transformam como as coisas. É preciso atualizar essas imagens. Quanto maior é a interação no mundo, maior é a transformação. Mas, se por um lado, o mundo globalizado aumentou a interação, por outro, a tornou superficial. E as diferenças é que são importantes. É fácil entender que uma pessoa que passa dez anos da vida fazendo a mesma coisa vai mudar e evoluir menos do que outra, por exemplo, que passe dez anos viajando. Só que, quando viajam pelo mundo, as pessoas vão aos mesmos restaurantes, fazem os mesmos programas, compram nas mesmas lojas, se hospedam em hotéis iguais – não saem da zona de conforto. Isso diminui a interação.

A globalização então não significou um avanço para a compreensão do mundo e sua transformação para melhor? Ela diminuiu muito a transformação necessária por tornar tudo mais superficial. Nesse sentido, não acho a globalização uma coisa muito positiva, porque as pessoas acabam dissolvendo a própria identidade. Vivemos em uma sociedade que não dá o tempo e o espaço necessário para que as pessoas elaborem emocionalmente aquilo que lhes acontece. Tudo é muito rápido.

A decisão de se tornar monge também surgiu de maneira muito rápida e imprevista na sua vida. Como ela aconteceu? É difícil falar de uma decisão que não foi um momento, mas um caminho. Eu sentia que minha vida não tinha sentido. A pergunta que eu me fazia era: “O que estou fazendo estudando português, inglês, matemática, estudos sociais? Para quê?”. A única resposta que consegui era que serviria para me formar, conseguir um trabalho que eu gostasse e garantir que eu ganhasse bem. Comecei a olhar à minha volta e todos os adultos, mesmo os bem-sucedidos, reclamavam. Dificilmente via alguém alegre, agradecendo pelas coisas. Foi no meu mestre, lama Gangchen, que vi uma pessoa feliz. Foi o que me levou a fazer essa escolha. Não foi o budismo, nem a filosofia, que eu mal conhecia. Foi um exemplo de vida que, pra mim, sempre foi e continua sendo um exemplo do que posso me tornar.


E como você recebeu a ideia de que era a reencarnação de um monge tibetano? Disseram que sou uma reencarnação de um mestre budista, mas nunca perguntei nada. Normalmente sou uma pessoa bastante cética. Acredito naquilo que a razão me explica ou que a experiência me mostra. Quando me falaram isso, só pensei: “Pois bem, obrigado”. Nunca tive a sensação de ser especial. Somos todos especiais, cada um de um jeito. E isso nunca foi determinante para a escolha de vida que eu fiz.

Você se considera um iluminado, um ser especial? Não. Nunca senti e não acredito que eu seja um iluminado. Sou uma pessoa com mil defeitos, como todas as outras. Claro que tenho uma forte conexão com o budismo e com meus mestres. Sou o que eu sou – e tento fazer o melhor que posso com aquilo que sou. Considero-me uma pessoa afortunada. Tive oportunidades, vivo em condições positivas, não tenho do que reclamar, só agradecer. Somos todos especiais, o importante é saber onde colocar nossa energia. Cada um tem uma capacidade maior ou menor para certas coisas. Mas não me considero alguém especial, se por especial você entende superior.

Como foram os seus primeiros dias no monastério? Fazia tanto sentido que nem sei dizer. Não me lembro de outra experiência tão forte para contar. Foi tudo muito natural. Não tinha aquilo de “será que estou fazendo a coisa certa?”. Em nenhum momento tive uma atitude de repensar a minha decisão, e isso ajudou bastante. Além disso, fui muito bem recebido.

Como era o dia a dia lá? Uma vida com muita disciplina. Acordar às 5h30, ir para a cerimônia de rezas e meditação das 6h às 7h30 – o café da manhã era servido junto com a cerimônia –, das 7h30 às 9h tínhamos memorização e, às 9h, sessão de debates até as 11h, três vezes por semana. Nos outros dias da semana eu ia receber ensinamentos. Por volta das 11h a gente almoçava, fazia a sesta e, às 14h, acordava, lia, estudava ou ia às aulas. O jantar era servido entre 17h e 17h30 e, depois, tínhamos outra sessão de debates até as 21h. A última atividade era a recitação dos textos memorizados até as 23h. Depois eu fazia a minha meditação pessoal e ia dormir por volta de 0h30. O dia livre era a terça-feira, quando podíamos descansar um pouco mais.

Vocês passavam por algum tipo de prova ou exame? Tem três tipos de exame: escrito, de debate e de memorização. Tínhamos que memorizar 50 páginas por ano – o que dava cerca de 8 linhas por dia, palavra por palavra. É um processo difícil para mim, pois memória não é algo da cultura brasileira [risos]. No exame de memorização, eu era um dos piores da sala. Já no de debate, de argumentação, eu era um dos melhores.

Em algum momento a vida no monastério não virava um marasmo? Tenho uma vida na qual interajo com muitas pessoas, então dificilmente estarei em um momento de monotonia ou em que as coisas não acontecem. Até gosto quando tenho momentos mais calmos para passar um período com poucas coisas acontecendo, porque é importante para refletir ou meditar. Aquela coisa de “E agora? O que eu faço? Para onde vou?”, não acontece comigo.

Os monges têm direito a férias? A palavra trabalho é difícil de usar para um monge. Não tiro férias porque não trabalho nem tenho horário. Minha vida é a dedicação àquilo em que acredito. Estou sempre de braços abertos para receber qualquer pessoa que queira.

Existe punição no budismo? No budismo em si, não. Existe a autorresponsabilidade, qualquer coisa que fizermos ou deixarmos de fazer, somos responsáveis tanto por ela como pelas consequências que isso trará. O monastério é uma instituição que tem regras. E, se você não as seguir, podem expulsá-lo de lá. Por exemplo, cada um tem seu turno para ajudar na cozinha. Se você não for nem pedir a alguém para substituí-lo e não tiver um motivo válido para isso, terá que ficar uma semana inteira na cozinha. E se brigar, é expulso.

Como assim? Briga entre monges? Ser humano é ser humano. Imagine 4 mil homens juntos, metade jovem. Brigas acontecem por quaisquer motivos: ciúmes, inveja, raiva, medo [risos]. Ser humano é ser humano, mesmo num monastério os problemas são os mesmos.

E você já foi punido, chegou a brigar com alguém? Não, nunca. Sempre me dei muito bem porque sempre gostei da vida monástica. Ela sempre fez muito sentido para mim, então nunca tive problemas em seguir as regras. Mas, mesmo que não fosse a favor, sempre vi a importância da disciplina. Se tirar a disciplina do monastério, ele quebra.

Tinha outros colegas da sua idade? Uma “turma do fundão”, da bagunça, como no colégio? Meus amigos sempre foram mais velhos, mas na minha classe éramos 70 alunos, desde bem novinhos até mais velhos, mas a maioria era da minha faixa etária. E claro que havia grupos com maior afinidade, os que gostam de seguir as regras e os que gostam de bagunçar [risos]. E é claro que existia um certo limite nessa bagunça, porque o monastério é como o Exército, só que com um propósito diferente. A disciplina é superimportante lá.

E qual foi a maior dificuldade que você enfrentou nesse período? A maior dificuldade foi a de ir para uma cultura completamente diferente. Aprender os códigos novos. Eu vinha de uma vida de classe média alta em São Paulo e fui morar na Índia com uma vida materialmente muito simples. O que não foi um problema, porque eu sentia que tudo se encaixava. A sensação interna era como a de estar velejando. Um fluxo constante, em que eu respeitava o tamanho do barco e o ritmo da correnteza.

Não sentia saudades de casa, da família? Nunca senti muita saudade. Gosto das pessoas, dos lugares, das coisas, mas nunca fui de ficar sofrendo e pensando: “Cadê você? Estou sentindo saudade”. Se estou num lugar, fico nesse lugar; se estou fazendo aquilo, é aquilo que estou fazendo, pronto. Sempre achei meio boba essa coisa de ficar sofrendo. Se não estou com a minha família é porque estou aqui fazendo alguma coisa de que gosto e em que acredito. Isso é bom.

Você falou que a vida no monastério é simples. Mas como um monge se sustenta? Existem várias formas. Se você viver num monastério como o que morei na Índia, não tem custo, por exemplo. E os gastos pessoais são muito pequenos. Você pode receber doações em cerimônias também. Eu tenho gastos muito pequenos. Se precisar, tenho minha família, que me ajuda. Outras pessoas também podem fazer doaçõezinhas, uma aqui, outra lá. No fim das contas, é aquele dinheirinho do dia a dia, que vai bastando para cuidar das coisas. Nunca falta e nunca sobra.

Ou seja, nem os budistas estão livres do dinheiro. Na verdade dinheiro não é algo negativo que deva ser abandonado. Depende da forma como você usa e se relaciona com o dinheiro. Temos que tomar cuidado com os extremos. Nos dias de hoje, mesmo que eu queira viver recluso numa casinha no meio da montanha e passar a vida fazendo meditação, no fim do ano tenho que pagar o IPTU [risos]. Não tem nada de errado o dinheiro fazer parte da nossa vida. É um meio que tem que ser utilizado de forma positiva.

A Fundação Lama Gangchen, em São Paulo, também vive de doações? Sim, principalmente. Mas o principal recurso são as pessoas que se dedicam como voluntárias e fazem um trabalho incrível. Se não fosse por elas, não teríamos nada, e na verdade nossos gastos acabam sendo bem baixos. Tem também as atividades pagas e, com elas, se pagam os custos do dia a dia.

Você disse que se considera uma pessoa cética. Já teve dúvidas em relação à sua fé? Diria que não. Acredito, principalmente, que existe uma diferença clara entre a espiritualidade e nosso processo de desenvolvimento interior, que é uma necessidade do ser humano. Quer dizer, existe a espiritualidade, a religião – que é o método – e a instituição religiosa, que são três coisas diferentes e separadas. É importante ter clareza disso. Pra mim, o mais importante é o caminho espiritual, pois cada um de nós irá encontrar um método que melhor se adapte à sua realidade. Me dou extremamente bem com o budismo, e quando escolhemos um caminho, temos que segui-lo de forma estável. Dentro da linhagem da qual faço parte, não importa o quanto eu tenha procurado, nunca pude encontrar defeito nos ensinamentos e nas meditações. Eles funcionam muito bem para mim.

É possível cultivar a espiritualidade sem seguir nenhuma religião? O ponto principal é o comportamento que a pessoa tem no cotidiano. Como ela age em relação à própria palavra, como lida com seu corpo e com sua mente. Se a pessoa for totalmente ateia e não seguir nenhuma religião, mas seguir princípios saudáveis de forma verdadeira, será maravilhoso. O que eu acho é que se uma pessoa se dedicar apenas à própria vida, aos bens materiais, aos prazeres e ao poder vai chegar a um momento em que não consegue mais sustentar a felicidade.

Há quem diga que a razão e a ciência bastam para o homem. Você discorda? Na verdade, hoje a religião mais moderna é a ciência. Muitas pessoas têm uma atitude quase religiosa diante da ciência. Ao mesmo tempo, muitas pessoas estão se desvinculando da forma como a espiritualidade foi levada porque ela está antiquada e não se adapta mais às necessidades dos tempos nos quais vivemos. Mas repito: o mais importante é que as pessoas tenham princípios e valores verdadeiros.

Qual é sua opinião sobre o Estado Islâmico e os fundamentalismos em geral? Em qualquer contexto onde política se mistura com religião, coisa boa não vai sair. São situações nas quais se usa a religião para manipular o poder. Não devemos julgar o islamismo em si por essas situações. Acho que o fundamentalismo está em grupos específicos que usam a religião, mas a verdadeira meta não é essa.

E os conflitos entre a China e o Tibete? Tento me abster de falar sobre política pois são situações complexas. Se você pega a visão política do Tibete do ponto de vista do governo Chinês, ela será uma. Na visão dos tibetanos refugiados, será outra. Se perguntar ao governo americano, outra ainda. As mídias oriental e ocidental também divergem totalmente. As verdades se encontram entre as verdades. Temos que tomar cuidado ao julgar uma situação para não fazer isso com base em simpatias e antipatias.

Recentemente, no Brasil, ataques a terreiros de candomblé revelaram um ressurgimento da intolerância religiosa. Qual a sua opinião sobre isso? Temos que ter respeito uns pelos outros, antes de tudo. A base de qualquer religião tem que ser o amor e o respeito. A partir do momento em que há violência, a pessoa já está pisoteando os princípios nos quais ela deveria se fundar. Nenhuma religião é dona da verdade, e, a partir do momento em que a pessoa pensa que a sua é a única verdade, torna-se algo de que eu, pessoalmente, não compartilho.

E a intolerância sexual? Acho que é dada uma importância grande demais à sexualidade das pessoas. Cada um pode escolher a forma como quer se relacionar sexualmente, o mais importante são os valores e a conduta da pessoa.

Por que o celibato é uma exigência da vida monástica? No budismo, existem três tipos de votos. O da liberação pessoal (Pratimoshka); os do Bodhisattva, o grande caminho (Mahayana); e os votos do Vajrayana. Dentro desses três, os votos da liberação pessoal são chamados monásticos – entre eles está o do celibato. Suas razões não estão ligadas ao ato sexual em si, mas a uma questão energética. Quando a pessoa faz a escolha de ter uma vida monástica, ela coloca como prioridade o caminho do desenvolvimento espiritual, do estudo, da meditação, da prática e da vida comunitárias. E a sexualidade é algo que ocupa um espaço grande na vida das pessoas. Nem todo budista faz voto de celibato, mas é sempre importante a forma como ele se relaciona com a sexualidade.

Para você não é uma privação? O que eu posso dizer é que, ao contrário do que alguns pensam, a vida monástica é alegre, cheia de atividades, preenchida por muitas coisas. Além disso, um elemento importante dela é a clareza da escolha. Quando fazemos qualquer escolha, temos a noção daquilo que se ganha e daquilo que se perde. Se essa opção é feita com clareza, naturalmente a gente lida de forma melhor tanto com aspectos bons quanto, digamos, com os não bons ou difíceis. E não percebe isso como sofrimento e muito menos sacrifício.

Qual é a sua opinião sobre a homossexualidade? Uma vez perguntaram isso ao meu mestre e ele respondeu, em inglês: “For me, homossexual is ‘home sex’. What you do in your home is your problem” [do inglês, “para mim, homossexual é ‘sexo em casa’” – fazendo um trocadilho entre a palavra “home” e o radical “homo” –, significando que, o que se faz em casa não é da conta de ninguém]. O importante é a pessoa respeitar o próximo, ter amor, ser generosa. A gente acaba dando pouca importância para coisas que são muito importantes e vice-versa.

E sobre os transgêneros? Se você quiser trocar de sexo e isso for ajudar você a ser uma pessoa respeitosa e carinhosa, com amor, sabedoria, menos raiva, inveja e ciúmes, está ótimo. Não tem problema nenhum. Esse corpo é um corpo passageiro. O importante é cuidar do que continua. O problema maior, hoje em dia, é o fato de que, cada vez mais, a interação da sociedade com o sexo se dá em torno da relação do sexo com o prazer. Acaba-se fazendo com que os relacionamentos percam a construção de algo em união, tenham uma parte que vá além do prazer. O prazer não se sustenta por muito tempo.

Por quê? O prazer é efêmero? É da natureza do desejo a insatisfação. Quanto mais tenho, mais preciso para sentir a mesma coisa. Chega a hora em que aquilo não é mais como se queria, e o desejo se manifesta como insatisfação. É preciso basear o relacionamento em ajuda mútua para que as pessoas se tornem melhores e cultivem um sentimento de amor verdadeiro. Muitas vezes é dada importância excessiva ao aspecto sexual, e, quando essa parte não se sustenta mais, o resto cai.

E o machismo, presente tanto na cultura ocidental quanto na oriental? Muitas vezes acaba se criando uma divisão entre um sexo e outro pelo fato de não se entender. O potencial de iluminação é igual para homens e mulheres. Inclusive, a mulher tem uma capacidade de intuição maior. Temos diferenças as quais devemos respeitar. Senão a gente acaba indo de um extremo a outro, e ao machismo contrapõe-se um feminismo que vai contra a própria feminilidade.

O budismo admite a prática do aborto, por exemplo? A vida é algo muito importante. Acho que é uma ação muito violenta contra uma vida e que são anos e anos de elaboração para resolver isso. É uma dor profunda, e a solução não é entre o sim ou o não, mas está na forma como nos relacionamos com o sexo. Acredito que cada caso é um caso, mas a sociedade banaliza muito o sexo e a responsabilidade que ele traz.

Qual é seu posicionamento com relação ao consumo de drogas? Conheço várias pessoas que usam drogas. Nunca cheguei a ver muito, só as mais leves. Não gosto de nada que crie dependência, seja substância ou estilo de vida, que possa tirar a clareza da mente e da escolha. O que eu tenho de mais precioso é a clareza da minha mente e essa é a última coisa que quero perder.

O que é a felicidade para você? É aquilo que todos desejamos. E algo que podemos alcançar, não que se tem ou não se tem. Está muito mais relacionada à satisfação do que ao prazer. É estar em harmonia consigo próprio e com o mundo à sua volta. Vem de dentro. Não existem condições à nossa volta para nos fazer feliz, o que existe é a possibilidade de termos equilíbrio, satisfação, sentimento de paz. Na minha vida, acabei aplicando uma regra: faça o que fizer, o importante é que isso te leve para um estado de maior harmonia consigo próprio.

Mesmo com as privações da vida monástica, você se considera feliz? Ser feliz comporta diversos aspectos, mas especialmente conviver de forma coerente com a realidade por aquilo que ela é. É isso que nos proporciona um estado de plenitude, em que nada daquilo que está em torno de nós deve ser diferente daquilo que gostaríamos. Meu objetivo é conseguir manter mais momentos de felicidade e menos momentos de conflitos.

Você gosta do Brasil? Pensa em voltar a morar aqui? Muito. Gosto demais do Brasil, mas não vou morar em lugar nenhum. Vou morar onde tiver mais o que fazer. Onde for mais necessário.

O país vive um momento político delicado, com muita raiva e acirramento. Como vê tudo isso? As mudanças que queremos ver no país devem começar na nossa própria casa e no nosso próprio comportamento. Para não ter corrupção, antes de tudo, devemos ter uma atitude correta. Como disse Mahatma Gandhi, temos que ser a mudança que queremos ver no mundo. Temos a tendência de apontar o dedo contra os outros como se eles fossem a causa de algo. Nenhuma pessoa ou grupo é a causa de todos os problemas, assim como não existe nenhuma pessoa que seja a solução.

Você vota? Deveria votar no Brasil, mas nunca tive a oportunidade de estar no momento e no lugar certo para isso. Cada voto é uma semente que a gente coloca. Querendo ou não, o governo é um reflexo do povo. Se vivêssemos em um país onde o povo como um todo tivesse atitudes coerentes e corretas, os governos não teriam a atitude que têm hoje, de tirar vantagem.

Qual é o maior problema que você vê no Brasil? Um dos grandes problemas que temos no Brasil é a disparidade social, uma divisão muito grande entre as classes, que sobrevive desde a época da escravidão. A abolição foi uma coisa mascarada, então a gente olha para a história e entende de onde vêm as dificuldades. E uma verdadeira mudança ainda pode levar muitos anos.

E o que fazer enquanto essa grande mudança não acontece? Temos que ser responsáveis como cidadãos, antes de mais nada. E não colocar a responsabilidade toda na mão dos políticos. Pôr mais energia no que fazemos na vida cotidiana e ter carinho pelo bem comum, pelas calçadas, pelas ruas.

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