Por Redação
em 21 de setembro de 2005
A existência traz em si uma tal parafernália de decisões a tomar que nos conflitamos na tentativa de fazer as melhores escolhas. Em muitas das vezes as definições nos parecem extremamente contraditórias. E uma das áreas mais críticas é a do julgamento de valor. Por um lado, somos, moralmente, aconselhados a não julgar. Por outro, social e culturalmente, somos como que obrigados a estabelecer um tribunal interior, adaptado para julgar valores.
Sem dúvida que somos todos iguais. Tudo que há no outro, existe em nós. Em maior ou menor escala de um para o outro. É a propalada condição humana que todos partilhamos. Então, que autoridade temos nós para julgar alguém em seus atos ou personalidade, sendo ele, em alguma escala, o que somos e tendo tudo o que temos?
Há, inclusive, uma corrente de pensamento que defende o postulado de que vemos no outro apenas o que há em nós. O outro é espelho. Nele se reflete nossa vicissitude ou virtude, segundo tal radical escola. Um famoso radialista, Hélio Ribeiro, dizia que para que um homem pudesse julgar outro homem, deveria ter ao seu lado direito os código e as leis. E ao lado esquerdo um rolo de papel higiênico, a fim de jamais esquecer sua condição humana.
Por outro lado, como não julgar, se toda nossa vida é constituída de julgamentos? Acordamos decidindo se devemos ou não abrir os olhos. Se vamos levantar, para onde iremos e o que faremos em seguida. O homem, antes de qualquer coisa, é um ser que julga, que decide. Pensar é comparar por associação de idéias. Decidir entre opções variáveis e invariáveis. E, em última análise, viver é colocar em prática o resultado de nossos julgamentos. Mesmo quando procedemos pOr impulsos. Impulso é apenas julgamento precipitado.
De que modo nos relacionamos com os outros sem estabelecer critérios de afinidades, interesses, sentimentos, moral e ética? Porque, se queremos nos pautar por um comportamento moral, devemos nos aproximar dos que pensam e procedem de modo semelhante ao que queremos, ao mesmo tempo em que devemos nos afastar daqueles que possuem uma moral dissipada e corrompida.
Podemos, num outro momento, nos voltarmos a estes últimos para tentar elevá-los igualmente. Ou então, seguros em nossa posição, para nos relacionarmos. Aceitando-os como são em suas opções. Compreendendo-os capazes tanto quanto nós, dada a igualdade humana.
Se não conseguirmos desenvolver uma capacidade de julgamento bastante justa e clara sobre as pessoas e valores, seremos usados, feridos e magoados. Ao mesmo tempo podemos perder oportunidades de sermos amados e felizes com o que podem nos trazer os valores das pessoas.
Qual o critério ideal de julgamento para a coexistência inteligente? Partindo do princípio de que é preciso conhecer para julgar (o ato de conhecer também é um ato de decisão). Para julgar bem é preciso um grande esforço de nossa parte para conhecer bem, obviamente.
Uma das premissas fundamentais do conhecimento é que ele é infinito. Por mais que venhamos a saber, sempre haverá muito, infinitamente mais, a conhecer. Logo, nosso conhecimento para efeito de julgamento sempre será relativo.
Fica claro então que nosso julgamento sempre terá grande margem de possibilidade de estar errado. Inteiramente falho. Então, é preciso estar pronto a admitir nossa falha e ir sempre em busca de conhecer mais. E, desse modo, cada vez mais nos aproximar da melhor decisão, para melhor viver com os outros. Pois, indubitavelmente, na medida em que julgarmos, seremos julgados.
LEIA TAMBÉM
MAIS LIDAS
-
Trip
Bruce Springsteen “mata o pai” e vai ao cinema
-
Trip
O que a cannabis pode fazer pelo Alzheimer?
-
Trip
5 artistas que o brasileiro ama odiar
-
Trip
Entrevista com Rodrigo Pimentel nas Páginas Negras
-
Trip
A ressurreição de Grilo
-
Trip
Um dedo de discórdia
-
Trip
A primeira entrevista do traficante Marcinho VP em Bangu