Logo Trip

FUCKING FASHION

Causou à época considerável repercussão o artigo que escrevi neste espaço sob o título FUCK THE FASHION

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

COMPARTILHE facebook share icon whatsapp share icon Twitter X share icon email share icon

Causou à época considerável repercussão o artigo que escrevi neste espaço sob o título FUCK THE FASHION. Na ocasião, enunciei uma espécie de desabafo contra um mercado que faz o que pode e o que não pode para erguer-se artificialmente à condição de arte pura e manifestação da essência do ser humano comparável à poesia, à música e à pintura.
Respeito as opiniões contrárias e recentemente tive acesso ao trabalho de um fotógrafo que me fez inclusive reavaliar de raspão minha posição. Trata-se de GREG FRIEDLER, autor do livro NAKED NEW YORK, que passou alguns anos de plantão na porta de um estúdio emprestado em Manhattan (ou Manhatã, como prefere Caetano Veloso) convidando transeuntes a subir e encarar uma experiência. GREG fotografava os mais diferentes tipos contra um fundo infinito vestindo a roupa que estavam usando na rua. Em seguida, fazia-os despirem-se totalmente e retratava seus corpos nus. Eram bêbados, professores universitários, enfermeiras, entregadores, advogados, halterofilistas, secretárias, toda sorte da chamada gente comum.
Confesso que diante da desarmonia dos corpos disformes que se revelaram, reconheci a importância estética do design de moda que pelo que se vê nas fotos empresta graça a formas desalinhadas e incômodas ao olhar.
Mesmo assim, não consegui ver o ‘fenômeno moda’ como algo além de um mercado altamente rentável e desenvolvido que usa algum design e muita papagaiada em forma de marketing para impingir consumo exacerbado.
Na TRIP, sempre tivemos muita resistência com relação a este assunto. Desde sempre, flertamos com o tema, mas de uma forma experimental e que deixava inclusive transparecer uma ponta de rejeição aos padrões daquilo que se convencionou chamar ‘Editoriais de Moda’, muito especialmente os auto-entitulados ‘conceituais’. Assim, no passado fizemos editoriais nos quais os modelos foram substituídos por serventes de pedreiro, atores de teatro iniciantes, bailarinos, surfistas profissionais ou jogadores de pólo-aquático. Era pouco. Somente substituir os personagens não bastava. Era preciso mudar o palco e o roteiro da peça para que ela fizesse sentido junto à nossa platéia.
De uns dois anos para cá, passamos a fundir jornalismo e moda na tentativa de estofar com o conteúdo do primeiro a carcaça da segunda.
A fórmula vem funcionando e jogando luz sobre um terreno antes escuro e duvidoso.
A batalha dos salva-vidas cariocas e uma jam-session entre os músicos cubanos da Buena Vista Social Club com Otto e outros brasileiros são algumas das reportagens nas quais a roupa passa a ser uma peça que combina com verdade.
Para minha surpresa, abri o Estadão durante um vôo à Bahia num Sábado cinzento e me deparei com uma reportagem de duas páginas coloridas sobre moda. Nela, a jornalista Lilian Pacce destacava o que ela mesma classificou como ‘o homem do momento’. Trata-se de Tom Ford, 36, diretor de criação da GUCCI, segundo a matéria, ‘uma grife italiana que saiu do buraco para virar um big business graças ao talento próprio’. No meio do texto, destacada em baixo de uma foto enorme a seguinte frase do próprio Ford: ‘Para a moda ter valor, ela precisa espelhar a vida real’ ou, numa tradução livre, FUCK THE FASHION.

PALAVRAS-CHAVE
COMPARTILHE facebook share icon whatsapp share icon Twitter X share icon email share icon