por Guilherme Werneck

Ao chegar a seu quinto ano, Novas Frequências mapeia os cantos mais obscuros da música experimental, promovendo intimidade entre público e artistas.

Antes mesmo de embarcar para o Rio para passar quatro dias à mercê das vaigens sonoras de um dos melhores e mais exploratórios line-ups do ano, eu tinha uma dúvida: como um festival tão cabeçudo quanto o Novas Frequências, com música tão difícil de digerir, podia se relacionar com a cidade? Com essa coisa solta e leve, meio o amor o sorriso e a flor, que permanece no imaginário de um Rio solar, essa calçada de Copacabana nos anos 60. Com gente estranha de diversas áreas e gerações, como Tyondai Braxton, Phil Niblock, Thomas Ankersmit, Pierre Bastian e  Bemônio, o Novas Frquência pedia um clima mais soturno, mais rascante, ou, pra equiparar os clichês, a São Paulo da garoa, noturna e cosmopolita.

Acontece que as coisas não são mais assim. Festivais ultramodernos como o Novas Frequências rolam em diferentes lugares no mundo e atraem um público razoavelmente homogêneo, afinal em Berlin, São Paulo ou Kuala Lampur é sempre um punhado de gente curiosa, com cabeça aberta para descobrir novas experiências sonoras, que acaba circulando pelos shows. Gente que mesmo em cidades diferentes está conectada pela internet, fala mais ou menos uma mesma língua.

Batendo um papo sobre essa questão com o curador do festival, Chico Dub, ele me mostra mais um lado. No Rio, o festival se transforma em uma das principais atrações do ano, principalmente para quem gosta de música nova. "Aqui um Festival como o Novas Frequências vira um dos eventos do ano e o público vem", explica. 

Esta última edição do Novas Frequências marca o quinto aniversário do festival. "O tema é Racap. Fizemos um balanço das últimas edições. O quinto ano é um marco para festivais que estão se estabelecendo, é quando eles começam a realmente a encontrar seu lugar no circuito", comenta Chico.

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No caso do Novas Frequências, isso se traduz em abraçar diferentes vertentes: do show de luzes e ruídos do Quiet Ensamble ao  minimalismo mais clássico de um octagenário como Phil Nibilock, da poesia do Acavernus até a improvisão eletrônica de Tyondai Braxton, em sua encarnacão pós-Battles. E também abre espaço para a polinização cruzada, promovendo encontros superinteressantes, como o da banda paulistana Hurtmold com o mineiro Paulo Santos, do grupo Uakiti, como o trio de dark ambient Bemônio fazendo ao vivo a trilha sonora para o filme de terror polonês "Madre Joana dos Anjos", de Jerzy Kawalerowicz, ou a instalção de Tunga, que recebeu sete performances de artistas diferentes em cada dia do festival. 

Todas as apresentações que vi foram memoráveis, desafiadoras. Saía atordoado dos shows. Fossem os que explodissem em cores e imagens, fossem aqueles que jogavam as pessoas no breu e açoitavam os ouvidos. Em alguns momentos, como na apresentação do Phil Niblock com Thomas Ankersmit, o visual que misturava vários filmes de flores em close e de grãos de areia em movimento deixava a experiência totalmente lisérgica. 

Outro ponto interessante sobre o Novas Frequências é como ele se apropria do espaço urbano. Neste ano, o festival ocupou o Rio com as performances no ateliê de Tunga na Barra, com filmes e discussões na Audio Rebel, com shows grandes no Sesc Ginástico e shows mais intimistas no Oi Furuto, um show na Maison de France, um workshop/apresentação na Casa Rio e a festa no Cais da Imperatriz.

Essa dinâmica de cruzar a cidade de um lugar pro outro era bem divertida para quem estava no Rio só para ver o festival. Com os horários justos entre uma apresentação e outra, o metrô era o jeito mais fácil de se locomover e era divertido apontar quem estaria indo para os mesmos shows que você. Quase sempre dava para sacar. Até porque, depois do segundo dia de shows no Oi Ipanema, já dava pra ver que o público variava pouco e que quase todo mundo se conhecia. Uma marca desse festival, que também acontece com outros festivais parecidos no mundo, é que os próprios artistas engrossavam o público, se misturavam, e estavam sempre disponíveis para conversas.

Dos dias em que estive festival, a maior mistura público rolou na festa. E aí vi como estar no Rio faz a diferença pro Novas Frequências. O Cais da Imperatriz lotou, e a festa bombou, por mais que boa parte do que tenha sido tocado esteja bem distante do som de uma pista convencional. Lembrei do Novas Frquências em SP em 2012, com o Actress destruindo e meia dúzia de pessoas dançando. No Rio foi o oposto,  balada forte. Sozinho, meio deslocado pela timidez e por ser bastante paulistano, vi boa parte da festa do canto, até que o Bug começou a tocar e me joguei no baixão perturbador e passei o resto da noite na pista, blissed-out.

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