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Escola. Não atire!

por Luara Calvi Anic

Há mais de 25 anos, Yvonne Bezerra de Mello está ao lado de crianças vítimas de violência. Foi assim na Chacina da Candelária, em 1993, e segue sendo na escola que fundou na comunidade da Maré, no RJ

Uma ficha de telefone público era como um item de sobrevivência nos anos 90. Sabendo disso, a educadora Yvonne Bezerra de Mello costumava deixar fichas com três meninos de um grupo de 70 crianças e adolescentes que viviam pelas ruas do centro do Rio de Janeiro, perto da Igreja da Candelária. Nessa época, a carioca conhecia a maioria deles por meio de um programa educacional que ela própria havia criado em 1980, o Escola sem Portas nem Janelas. Na noite de 23 de julho de 1993, aconteceu provavelmente a maior emergência da vida desses garotos e eles usaram essas fichas para pedir socorro à tia Yvonne, como era conhecida por lá.

Eram 23h45 quando ex-policiais militares, divididos em dois carros com as placas cobertas, chegaram atirando em jovens que dormiam embaixo de uma marquise. Nessa noite, 8 meninos, com idades entre 11 e 19 anos, foram assassinados no crime conhecido como Chacina da Candelária. “Quando o primeiro me ligou, eu já saí correndo. Fui a primeira pessoa a chegar. Encontrei os meninos mortos e as outras crianças em volta berrando e correndo de um lado para o outro, sem saber o que fazer. Era muita criança pequena, com idades entre 6 e 11 anos. O que fiz foi organizá-las à minha volta, conversar com elas, e assim ficamos na mesma posição até às seis da manhã”, diz.

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“Você ter uma aula de 50 minutos é completamente fora da realidade deles. Eu ensino tudo muito mais rápido, focado e oralmente”
Yvonne Bezerra de Mello

A vida de Yvonne se mistura com sua atuação em projetos sociais, atividade que iniciou na adolescência. “Fui uma criança sem pai e isso fazia com que, desde cedo, eu me sentisse muito excluída”, diz, hoje com 72 anos. Ela sofria bullying por ter mãe desquitada e pai ausente, algo fora do padrão para o Brasil dos anos 50. “Quando passava nas ruas e via as crianças, eu dizia: ‘Puxa, elas são parecidas comigo em algumas coisas’. Sempre tive isso na minha cabeça e, com 12 anos, fui fazer o primeiro trabalho voluntário, buscando suprir essa minha carência.”

Instante decisivo

A experiência da pré-adolescência se mostraria fundamental para definir a maneira como ela olha o mundo ao seu redor, do caminho que percorreu como estudante às escolhas profissionais que fez. Aos 18 anos, conseguiu uma bolsa e ingressou na universidade Sorbonne, em Paris, para estudar filologia, linguística e interpretação simultânea. Lá, teve contato com imigrantes e viu que as crianças que vinham de áreas de conflito demonstravam maior dificuldade de aprendizado. Essa observação percorreu todas as suas pesquisas, da graduação ao doutorado, e tornou- se um conhecimento fundamental para o método pedagógico que desenvolveria mais tarde, a partir de uma pergunta que sempre a acompanhou: “Porque crianças em certos lugares do mundo aprendem menos do que as outras?”.

Uma questão como essa jamais terá apenas uma resposta, mas a principal, comum a todos, eram os diferentes tipos de trauma aos quais essas crianças eram submetidas. Yvonne percebeu as semelhanças com o que acontecia (e ainda acontece) no Brasil, com as inúmeras crianças que se espalham, completamente vulneráveis, pelas ruas.

De volta ao Rio, aos 33 anos, transformou a bagagem que trouxe da Europa e a expertise que havia conquistado em seu doutorado, sobre os problemas cognitivos de crianças em países em guerra, em um projeto de nome autoexplicativo, que começou em 1980: a Escola sem Portas nem Janelas.

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“A violência constante cria traumas que dificultam a concentração e bloqueiam a passagem da informação”
Yvonne Bezerra de Mello

Esse trabalho evoluiu até se tornar uma escola aberta chamada Coqueirinho, em 1993, embaixo do viaduto de São Cristovão, próximo ao Maracanã. Lá, Yvonne permaneceu por cinco anos, até 1998, quando um projeto habitacional do governo da época levou a população que vivia no entorno do viaduto para a Comunidade da Maré, onde, hoje, vivem cerca de 130 mil pessoas. Junto com os moradores, Yvonne  seguiu para lá, conseguiu um espaço e iniciou o projeto Uerê, ONG de atuação na defesa dos direitos da criança e do adolescente e especializada no atendimento daqueles traumatizados pela violência.

A Escola da tia Yvonne

“Aqui não entra polícia. Eles só entram em dia de operação para buscar traficante.” Quem nos explica o funcionamento da segurança pública na Maré é uma mãe que aguarda seu filho na porta do Uerê. Passam gerações e os conflitos entre traficantes e policiais nas comunidades cariocas seguem frequentes e violentos. No telhado da ONG, invisível aos pedestres, há uma mensagem aos pilotos de helicópteros da polícia. Nela, se lê: “Escola. Não atire”. Infelizmente, não há exagero; em 2016, uma aeronave passou por ali atirando e acertou o teto da ONG.

Todos os dias, Yvonne sai de sua casa, no Flamengo, às 7 horas da manhã, para dar suas aulas no Uerê. Lá, ao lado de outros 13 professores e dois assistentes – com o pessoal da cozinha e da limpeza, são 18 funcionários no projeto –, atende por ano 420 crianças com dificuldade de comunicação e aprendizado. Não há saúde mental e potencial de aprendizado que resista ao constante estado de alerta. “Essas crianças não têm problemas neurológicos, têm a inteligência intacta. A violência constante cria traumas que dificultam a concentração e  bloqueiam a passagem da informação entre a memória curta e a memória longa”, diz.

“Quando você olha para uma criança com os olhos de amor incondicional, rapidamente ela muda”
Yvonne Bezerra de Mello

No projeto, as aulas acontecem diariamente, são dinâmicas e servem como um complemento do ensino formal, com estudos de português, matemática, história, geografia, ciências, além de oficinas de música, capoeira, canto, violino e informática. São organizadas em blocos de 20 minutos, para que os alunos não percam o foco. A cada pausa os professores dão exercícios para “aquecer o cérebro”. São cálculos rápidos, aprendizados de idiomas ou mesmo uma atividade corporal para, então, seguir para o próximo assunto. “Você ter uma aula de 50 minutos é completamente fora da realidade deles. Eu ensino tudo muito mais rápido, focado e oralmente”, explica.

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O fundamental no atendimento aos pequenos que chegam ao projeto vem dessa pedagogia desenvolvida por ela e batizada de Uerê Mello. O método teve seu potencial reconhecido pela Unicef, sendo aplicado também em escolas no exterior.

Mas não é só com o que estudou que Yvonne trabalha. Ela sabe que um outro elemento faz muita diferença em sua escola: o amor. “Quando você olha para uma criança com os olhos de amor incondicional, rapidamente ela muda. Recebo crianças que chegam violentas, chutando a parede… Aí eu digo: ‘Vem cá, conversa comigo’. Você consegue resultados quando olha no olho e diz: ‘Eu entendo você’.”

 

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Créditos

Imagem principal: Mario Ladeira

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