FAGOCITOSE CULTURAL
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Não exagera quem costuma dizer que um dia viajando vale mais que seis meses parado. Ainda não inventaram método mais eficiente e rápido para quem deseja, ao mesmo tempo, adquirir conhecimento e evoluir pessoalmente na direção do amadurecimento. Se a fórmula é verdadeira e se aplica até às mais simples e banais viagens de fim de semana, eleva-se a potênciais imaginários quando o deslocamento é para o outro lado da bola na direção do oriente. Transportar-se para este pedaço da Terra não é só submeter-se a fusos horários de 11 ou 12 horas. É, isto sim, voltar no tempo dentro da própria cabeça e experimentar de novo sensações de jardim de infância e pré-primário. Voltar ao tempo em que a única certeza era a dúvida. Para todo o lado que se aponte o olhar, algo novo para ser visto, observado, apreendido. As pessoas têm outra cor, forma, semblante, vestem-se, alimentam-se, tocam-se e olham para você de formas tão novas e próprias que encantam o espírito.
Que a Ásia é a nova força econômica da galáxia, todos já disseram. O que importa observar é de que forma o impacto desta pujança absurda se reflete sobre seus povos, cuja sabedoria acumulada ao longo dos milênios os tornou, ao mesmo tempo, tão humilde e tão superiores.
Cidades como Bangkok, na Tailândia, ou Ubud, na Indonésia, vivem, cada uma a seu modo, momentos cheios de semelhanças. Uma espécie de adolescência urbana, quando contornos se alteram sem parar, ruas e edifícios surgem, corpos tomando novas formas, obras por todo os lados, tecnologias de ontem trombando de frente com crenças de muito antes de Cristo, monges budistas posando para fotos ao lado do totem de Ronald McDonald. Esta é por sinal, uma referência interessante para quem quer entender de que forma se dá a fusão deste processo de fagocitose cultural. Quando a rede de fast food americana, McDonald’s, começou a comprar imóveis na Europa, para plantar suas primeiras lojas no velho mundo, houve uma das mais sérias reações de rejeição imagináveis. Artigos em jornais, manifestações de repúdio, sessões de congresso, projetos de lei, brigas entre partidos. Na Itália, até hoje há pouquíssimas lojas e a rede custou muito a romper barreiras na França. No Oriente, a reação foi outra: nenhuma. Ao contrário, as lojas surgiram e se instalaram, muita gente as freqüenta cedendo aos apelos quase irresistíveis da gordura saborosa mas, não se teve notícias de qualquer manifestação de alguém que temesse a destruição das culturas e dos costumes pela força capitalista.
Seria pretenção demais em minha segunda viagem a este lado do mundo, tentar entender e explicar as razões e os sentidos do que acontece hoje na Ásia. Mesmo assim, posso tentar relatar o que vejo. Me parece que o budismo tem muitíssimo a ver com a serenidade e alegria explícitas tão fáceis de observar no rosto das pessoas que tenho visto na Tailândia e na Indonésia. É esta religião que ensina desde cedo o desprendimento das coisas materiais, da vaidade, os pequenos prazeres da simplicidade, a vida por aqui como algo passageiro, transitório e, por isso tudo, a humildade como única e principal virtude, a força que eleva o espírito à condição de enfrentar os congestionamentos de 14 horas de Bangkok, a poluição do ar em níveis quase insuportáveis e que confina McDonald’s, Armanis e Chanels à sua própria insignificância.
Se os monges de outros templos provavam auto conhecimento e espiritualização caminhando sobre brasas ou flagelando-se com lâminas afiadas e camas de pregos, cabe aos seus sucessores de hoje conseguir proezas ainda menos compreensíveis aos nossos incrédulos olhos ocidentais arredondados: manter a serenidade e o stress próximo de zero, numa cerimônia de cremação cheia de rituais místicos num templo vizinho a uma engordurada loja do Kentucky Fried Chiken.
Pelo que se observa, os espíritos têm desencarnado sem dificuldade e não se tem notícias de nenhum deles flagrado na fila do Dunkin Donuts.
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