Ernesto, o honesto
Longa-metragem Fim da Linha traz última participação de Rubens de Falco nas telas
Por Redação
em 12 de março de 2008
Rubens de Falco, o "honesto" Deputado Ernesto
Por Cirilo Dias | Fotos Igor Pessoa/Divulgação
Boston, meados de 1919. O italiano Charles Ponzi alcança a notoriedade ao inventar um esquema fraudulento que o tornou milionário. A fraude, conhecida até hoje como “esquema de Ponzi”, consistia em vender selos postais por valores baixos, com a promessa de trocá-los por valores maiores, garantindo assim uma renda fácil e crescente, de acordo com o número de pessoas que se conseguisse convencer a comprar os selos. Brasil, meados de 2007. Um boato sobre uma chuva de dinheiro toma proporções absurdas na cidade de São Paulo e movimenta um número absurdo de valores e pessoas. Dois lugares distantes e um ponto em comum, o dinheiro.
Esse é o fio condutor de Fim da linha, primeiro longa-metragem de Gustavo Steinberg, que estreou na última sexta-feira, 7 de março, em São Paulo e Rio de Janeiro, e que já está indicado ao 37º Festival de Filmes de Roterdã (37th International Film Festival Rotterdam).
Com roteiro escrito em parceria com Guilherme Werneck (Diretor de Redação da Trip), o filme é uma “metáfora tensa e bem-humorada das dificuldades e dilemas de uma sociedade estruturada sobre a fé no poder do dinheiro”.
Apesar da estréia recente nos cinemas, Fim da linha já vêm sendo exibido em sessões especiais e em algumas faculdades. “Estamos fazendo rodadas de exibição para universitários e, nas faculdades, o filme tem sido muito bem recebido. Esse trabalho é feito por uma assessoria especial chamada Rede Brazucah e as pesquisas com estudantes têm mostrado um ótimo índice de avaliação boa e ótima”, diz Werneck.
No filme, vários personagens são descritos isoladamente, até que o dinheiro acaba unindo a todos de alguma forma. De acordo com Werneck, “intercalar as histórias de forma que elas ficassem compreensíveis, sem perder o tempo do humor, foi sem dúvida o maior desafio… mas o maior desafio mesmo foi conseguir dinheiro para a realização. Tivemos de concorrer e ganhar diversos editais para conseguir colocar o filme de pé”.
Fim da linha estreou com quatro cópias nas cidades de São Paulo (HSBC Belas Artes, Cinemark Santa Cruz, Off Price Raposo) e Rio de Janeiro (Estação Gávea), e sua permanência nas salas de cinema depende da quantidade de espectadores. Mais uma vez o dinheiro interferindo no rumo natural da história? “É assim com todos os filmes. Existe uma regra da exibição que se chama média de sala. Para ser viável, um filme precisa levar um número x de espectadores à sala de cinema durante a semana, que varia de sala para sala. Se não for atingida essa média, o exibidor troca o filme por outro. Como não há quase dinheiro para a publicidade do filme, o boca-a-boca é importante para manter essa média alta e a permanência de Fim da linha nos cinemas”, explica Guilherme Werneck.
A Trip conversou com o diretor do filme, Gustavo Steinberg, que explica um pouco essa complexa relação com o dinheiro, que permeia seu primeiro longa-metragem:
O fio condutor da trama é o golpe da Pirâmide de Ponzi? Qual o motivo?
Eu diria que o fio condutor é acima de tudo o dinheiro. Ponzi funciona mais como um aglutinador “moral” da história, já que de uma forma ou de outra todos os personagens têm um pouco de Ponzi. E não me entendam mal: isso não quer dizer que o homem é lobo do homem. Numa sociedade capitalista, todo mundo acaba tendo um pouco de Ponzi, é quase inevitável. Ponzi foi simbolicamente o inventor do esquema de pirâmide, ou seja, do sistema de enriquecimento pelo enriquecimento, sem nenhuma base real. E, no limite, a pulsão capitalista – ou pode-se até dizer o grande fetiche do capitalismo – é justamente este: a idéia de que qualquer um pode enriquecer, não é nada complicado.
Um ponto interessante na trama é como as pessoas se utilizam da confiança e fragilidade alheia para lucrar. Por exemplo, a amiga que se aproveita da outra para vender alguns vestidos, ou o jornalista que se aproveita da inocência do catador de papel para tirar vantagem. Até que ponto isso reflete em nossa sociedade?
Acho que a cena da amiga na loja é bem diferente da cena do jornalista com o catador de papel, mesmo que o resultado final seja semelhante. Na primeira, é de fato a utilização da fragilidade e até da amizade para vender vestidos, na última, trata-se mais de uma indignação com a pretensa ignorância do catador de papel, que no fim acaba revelando-se ignorância do jornalista (a de achar que o catador estava cheio de dinheiro). E é importante lembrar que, em ambas as cenas, os personagens não se resumem a uma só faceta: logo após vender o vestido, a vendedora tem um ataque histérico verdadeiro, indignando-se com o seqüestro do filho de sua amiga. O jornalista, logo após roubar o dinheiro do catador, recusa-se a pegá-lo para si porque não é o honesto. O filme e a sociedade têm isso de sobra: ironias, no sentido literal da palavra. E a saída proposta para o filme é a comédia, beirando a farsa, não para encobrir a realidade, mas para colocá-la à luz e gerar reflexão.
A pessoa mais “desonesta” do filme, o deputado Ernesto [Rubens de Falco, falecido em 22 de fevereiro deste ano], é perseguida o tempo todo por ser corrupto e fazer brotar dinheiro em seus cofres. Mas analisando friamente suas frases e ações, ele acaba sendo o sujeito mais honesto, não é?
Sim, honesto em suas atitudes, no sentido de que ele tem clareza de suas ações. Afinal, quem disse que o corrupto não é honesto, ao menos consigo mesmo?
Parafraseando o próprio Ernesto, “todo ser humano tem seu preço”?
O deputado não fala exatamente do preço ser humano. Acho que o raciocínio do deputado é um pouco mais tortuoso, ou seja, ele não pensa simplesmente que todo mundo pode ser comprado. Seria algo mais próximo da frase: “O lucro de uns só existe graças à cobiça de todos”, que aparece no filme e está claramente relacionada à história de Ponzi e do esquema de pirâmide.
A trilha sonora do filme é composta por diversos artistas nacionais de vanguarda, como PexbaA e Cidadão Instigado. Foi uma preferência por nomes brasileiros ou uma questão de custos?
Foi uma preferência. Eu, o Gui Werneck e minha mulher, a Maria, procuramos músicas que ajudassem a construir bem esse caleidoscópio que o filme constrói. PexbaA, com sua total estranheza, e Cidadão Instigado, com sua breguice altamente pop, ajudam a construir esse universo de uma certa realidade exacerbada, mas ainda assim real. É importante lembrar que a trilha também passa por muitos outros nomes efetivamente pop, como Spoon, Gogol Bordello, La Rue Ketanou, Bajofondo Tango Club, bem como Cartola, Joel do Nascimento, em momentos mais “raiz”. É uma trilha bastante variada, mas que mantém uma harmonia, o que, ao meu ver, é a cara do filme.
Quais variações do esquema de Ponzi você identificou nos últimos anos aqui no Brasil, e qual foi a que mais te revoltou?
Falando mais literalmente, o último esquema de pirâmide de que ouvi falar foi um que envolvia a compra de avestruzes em Goiânia e levou inúmeras pessoas à falência, de forma semelhante ao que aconteceu em São Paulo com o investimento em bois. De maneira mais ampla, acabamos de ver mais um episódio do esquema de pirâmide quando estourou a última bolha na bolsa de valores, dessa vez por causa do tal do subprime nos Estados Unidos, e que acabou respingando na bolsa de São Paulo. Não sei se esquemas de pirâmide me revoltam: eles são expressão tão clara do nosso estilo de sociedade e de vida que são até engraçados, de uma forma tragicômica, é claro. É lógico que no fundo eles são simplesmente tristes.
Por que uma criança comendo uma nota de R$ 50? Aliás, por que na maioria das cenas do filme foram escolhidas notas de R$ 50 e R$ 100?
Algumas razões. Primeiro, são as maiores notas que temos. O filme lida com a idéia de valor, em todos os seus aspectos, não só financeiro. Mas o valor financeiro, o dinheiro, é o MacGuffin da trama. Então, tinha que ser um valor alto, uma aposta alta o tempo inteiro, para que no momento em que o dinheiro se tornasse “placebo” o efeito fosse maior. Afinal, é só papel. Isso é algo que temos experimentado bastante com a modesta campanha de divulgação do filme, que envolve a distribuição de notas de dinheiro falso – dinheiro de um lado e propaganda do outro. Estamos distribuindo essas notas no meio do troco no cinema e é muito engraçado ver como as pessoas reagem: normalmente elas se afastam rapidamente do caixa, antes que alguém perceba. E estamos usando somente notas de R$ 50 e de R$ 100. Acho que isso não aconteceria com notas mais baixas. E o mais curioso é que colocamos vários erros nas notas, incluindo um sorriso na República, que quase ninguém percebe. Finalmente, a partir da conceituação do dinheiro, escolhemos a palheta de cor do filme, que é toda em cima dessas duas notas: uma vai de amarelo a marrom (a nota de R$ 50), a outra vai de azul a preto (a de R$ 100). Fizemos grandes raciocínios a respeito disso, inclusive na divisão de quais personagens usariam as cores da nota de R$ 50 e quais usariam cores da nota de R$ 100. Enfim, pequenos delírios nossos, mas está lá no filme.
Você recebeu alguma crítica negativa por caracterizar preto/pobre como ladrão? Afinal, ultimamente a onda do politicamente correto anda tão forte que qualquer insinuação já é motivo para barulho.
Acho que a negra surda não é exatamente ladra. Ela tenta roubar, mas nunca consegue. Ela representa um personagem completamente isolado da sociedade. Tenta interagir da forma mais veemente e simplesmente não consegue. É muito mais essa a questão do que o roubo em si. Fizemos inclusive uma homenagem a esse personagem ao colocá-lo na posição de Alexandre, o Grande, na cena do enforcamento do catador de papel.
O que você achou da indicação do filme ao Festival de Roterdã, concorrendo com nomes de peso como Onde os fracos não têm vez e Estômago?
Foi muito legal a indicação do filme. E a resposta também. Estava morrendo de medo que as piadas e o humor do filme não tivessem boa tradução para os “gringos”, mas eles lotaram as salas e riram bastante. É verdade que riram de forma diferente dos brasileiros, mas riram. As sessões do filme estiveram entre as mais concorridas do festival, o que me deixa muito contente.
Para finalizar, até que ponto a inocência humana pode ser matéria-prima para o lucro dos outros?
Não sei se entendo direito a pergunta. Mas, enfim, a resposta é: até o ponto em que houver alguém disposto a pagar. Só não sei se acredito totalmente em inocência, principalmente ligada ao lucro. As pessoas podem até ser ingênuas de cair num esquema de pirâmide, mas caem porque de alguma forma querem, certo?
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