por Carol Ito

Da Zona Leste paulistana, Erick Jay conta como conquistou o campeonato mundial de DJs e dá a letra sobre essa profissão no Brasil

“Você tem que ser ousado, conduzir a galera. O público está lá para apreender com você, também ”, explica Erick Jay, 38 anos, paulistano que saiu da Zona Leste da cidade para conquistar o campeonato de DJs mais importante do mundo.

Ele ainda era Erick "Garcia" quando decidiu trabalhar atrás das pick-ups, 18 anos atrás. Foi parceiro de nomes do rap nacional como Dexter, Xis e Kamau, além de DJ oficial do programa Manos e Minas, da TV Cultura. Em 2016, Erick se tornou o primeiro sul-americano a conquistar o título de melhor DJ do mundo no campeonato DMC World, o mais importante da área, que existe há 35 anos.

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No DMC World, os competidores têm seis minutos para fazer uma apresentação na qual são avaliados critérios como presença de palco, criatividade, tempo, ritmo e scratchs. “Lá fora o pessoal gosta de show, você tem que ser ‘folgado’, como falam. Parece um teatro”, ele conta. "Precisei treinar muito no espelho para trabalhar isso. O Brasil me ensinava a não ser assim, mas, se você é humilde demais no mundial, não ganha”.

Sem praticar com os equipamentos de última geração de seus adversários, o DJ brasileiro apostou no ritmo que traz no sangue para vencer. “Os brasileiros têm um suingue musical que os outros não têm”, ele acredita – e de suingue Erick entende. Cresceu de ouvido colado à vitrola do pai, também DJ em bailes da periferia paulistana. As influências eram Marvin Gaye, Tim Maia, James Brown e Michael Jackson, que ele faz questão de dizer que ouvia todos os dias.

No ano 2000, após ouvir um conselho do amigo DJ Zulu, Erick decidiu se profissionalizar. Quase duas décadas depois, ele ainda se ressente de que nem sempre o público entende o que significa ser bom nas pick-ups. Mas também acredita que existe algo simples e universal nessa arte: a habilidade de tocar a música certa na hora certa. “É como ter o zap na mão na última rodada do truco. Você vê a pista bombando, é muito louco”.

Jazz, samba e orquestra

Quando treina para os campeonatos, Erick toca no mínimo quatro horas por dia. Seu foco são as técnicas de scratch (as "arrastadas" do disco para frente e para trás na pick-up) e de back to back (a repetição de um trecho da música usando duas cópias do mesmo vinil). Além, como explicou, de contar com o espelho para das aquela afiada no lado performático. 

Erick pensava que vencer o mundial seria o grande objetivo de sua carreira. Mas, com o título na mão, viu que queria ir além: “Quero ser ousado, tocar em bandas inusitadas. Já fiz algumas experiências com banda de jazz, samba, orquestra, isso abriu minha mente”, ele comenta. "Quero mostrar que ser DJ é muito mais que soltar música e falar para a galera ficar com a mão para cima”. 

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Ao longo de sua carreira, Erick viu a tecnologia facilitar a vida dos DJs. As músicas passaram a ser baixadas a qualquer hora e ganharam variações e batidas quase infinitas. Alguns profissionais acabam prescindindo dos tradicionais discos de vinil, para usar equipamentos mais modernos. Erick, porém, não tira seu foco da raiz do ofício. “A tecnologia é apenas uma ferramenta. Para fazer scratch, tem que ter suingue”, explica.

“Por isso que eu falo que ser DJ é ser músico sem ter feito aula. Hoje em dia a galera não está muito preocupada com mixagem, por exemplo. Eu fico meio injuriado com isso. Mixagem é a tabuada do 2, todo DJ tem que saber”, enfatiza. 

Outro talento que ele tem explorado – bem, talvez mais seus amigos do que ele mesmo – é o humor, por meio da fanpage de Facebook Pérolas do Erick Jay. Ela foi criada pelos amigos Zeca MCA (produtor de TV) e o rapper Kamau, que queriam compartilhar as ideias meio nonsense – mas inspiradoras – de Erick. O perfil lança frases como “sem chinelo eu me sinto vazio”, ou “água com sal é pinga!”. “Às vezes tô empolgado e o que eu falo vira pérola. É muita evolução, as pessoas não compreendem”, brinca o DJ.

Para quem ainda pede música no baile, mesmo quando um dos melhores DJs do mundo toca, Erick deixa o recado: “É chato, tipo você ir no açougue e falar o jeito que tem que cortar carne, ir na padaria e falar como faz o pão”. Fica a dica.

Créditos

Imagem principal: Vinícius Colé

Vinícius Colé

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