Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Mesmo correndo o risco do lugar comum, considero o JT como minha casa. Ocupo este espaço há cerca de cinco anos, o que é tempo de sobra para examinar a seriedade de propósitos de uma publicação. Neste tempo todo, foram centenas de artigos, muitos com opiniões controvertidas e passíveis no mínimo de discussão com a direção editorial do jornal. NUNCA, repito, nunca, tive sequer uma linha do que escrevi questionada, alterada ou suprimida de forma a mudar ou amenizar as idéias que pretendia expressar. Por outras, mas principalmente por esta razão, tenho ao mesmo tempo respeito e orgulho por estar na casa.
Isto posto, passo a relatar a estranha sensação que experimentei na última Terça, não por acaso dia da Independência, ao abrir meu exemplar. Andava especialmente orgulhoso com o jornal, graças à brilhante série de reportagens, na qual as já tradicionais denúncias do JT viveram dias de glória. Falo das matérias sobre a violência da indústria do cigarro e sobre a forma brutal como ela tem silenciosamente aniquilado muito mais gente do que as piores guerras e convulsões sociais já registradas no planeta.
No próprio dia 7, havia um brilhante editorial cujo título fechava com chave de ouro e resumia bem a dramática situação revelada pelo jornal ao longo dos dias em que as citadas matérias foram sendo publicadas: ‘O GOVERNO, SÓCIO DO CÂNCER’.
O Governo, segundo o que apurou a equipe do jornal, tem na indústria do tabaco, fonte de 4,5 bilhões de reais em IPI (15,5% do total deste imposto e 1,67% do total da arrecadação de impostos no país). Vem daí, basicamente os motivos para a inércia oficial diante da devastação que esta indústria tem provocado aqui e no resto do mundo.
Tudo ia maravilhosamente bem, até que cheguei à página 6B da mesma edição.
Uma foto colorida e belíssima de uma formação rochosa em forma de arco sendo explorada por praticantes de rapel ocupava quase metade da página sob o sugestivo título ‘UMA AVENTURA NO OESTE AMERICANO’. Um texto bastante grande para os padrões do jornal, mais três outras fotos ‘radicais’, mostravam ‘jovens’ em ação durante o famigerado projeto ‘MARLBORO ADVENTURE TEAM’, uma reunião internacional de ‘aventureiros’ que a pretexto de romper limites atravessam desertos e obstáculos naturais, posando para cinegrafistas e fotógrafos que se prestam a documentar a presepada.
Conversei pessoalmente com um participante brasileiro da versão de 98 do evento. Sua opinião do ponto de vista esportivo é bem clara: ‘É uma coisa para domingueiros, feita para sair em fotos
e na TV, uma espécie de superprodução feita para as lentes’.
De forma ingênua, o JT caiu na armadilha que sobrou como recurso às companhias de cigarro para atingir adolescentes, crianças e jovens, depois de ser banida das mídias convencionais nos chamados países desenvolvidos: patrocinar eventos de esportes e música, onde o ambiente extremamente ‘formador de opinião’ e até certo ponto ingênuo, presta-se perfeitamente para reforçar a velha mentira: fumar faz você ficar mais bonito, forte, vigoroso e corajoso. ( vem aí o Free Jazz).
Com subtítulos como ‘jipes inclinados’, ‘Big Day’ e ‘Como John Wayne’, o JT fez ingênua e voluntariamente o jogo do câncer, relatando de forma apaixonada as belezas, riscos e superações da ‘aventura’ na terra de Marlboro.
A sensação quando acabei de ler foi de impotência. Mais ou menos aquilo que se sente ao voltar do fim de semana e descobrir que entrou ladrão na nossa casa.
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