Que vida, hein, Chris
Blackwell

por Dani Pizetta

Trocamos uma ideia com o fundador da Island Records, figura crucial nas carreiras de artistas como Bob Marley, Grace Jones e U2

Chris Blackwell mudou o curso da música pop do século 20 ao abrir as portas da Island Records, gravadora independente que impulsionou a carreira de artistas como Bob Marley, Grace Jones, U2 e tantos outros para o mundo. Considerado uma das figuras mais intuitivas do seu tempo, o empresário foi inserido no Rock´n Roll Hall of Fame em 2001, quando já estava afastado da cena musical havia 12 anos.

A saída de cena se deu por esgotamento e hoje ele dedica seu tempo e energia à rede de hotéis que tem na Jamaica, em que deslumbra turistas com as paradisíacas águas caribenhas, privacidade e ambientes imaginativos, e ao trabalho na Oracabessa Foundation, instituição criada por ele, em 1997, com o objetivo de preservar a cultura e os recursos naturais do país.

A vontade de alguma forma contribuir com a sociedade jamaicana se deve ao afeto de quem passou a infância lá e regressou várias vezes ao longo da vida até decidir que a ilha seria sua residência definitiva. A virada de chave se deu em 1989, ano em que vendeu a Island Records para a Universal. A despedida foi obviamente uma decisão de anos, mas tranquila. 

O que melhor explica a vida tão pulsante que Chris leva tem relação direta com os valores em que acredita e não apenas com as oportunidades que teve. Trabalhando no meio desde os 22 anos e cercado por figuras de enorme influência na história da música, ele bem que poderia ter levado “la vida loca”, mas nunca entrou nessa de ego, fama e excessos.

Meu nome é Bond, James Bond

Nascido na Inglaterra e criado na Jamaica por opção da mãe, Blanche Blackwell, o menino introspectivo pouco interagia com outras crianças. Por outro lado, era cercado por adultos que certamente influenciaram seu jeito de ser e de entender a vida — Ian Fleming, autor da série 007, de James Bond, foi sem dúvida um dos principais.

A conexão entre os dois remonta ao ano de 1942, época em que o escritor atuava como comandante naval britânico e foi destacado para uma missão antinazista chamada GoldenEye, pela qual visitou a ilha pela primeira vez. Quatro anos depois, ele trocaria a cinzenta Inglaterra pela exuberante Jamaica, onde criaria o personagem que o consagrou. 

A Jamaica daquela época vivia uma vibe sexy e estimulante e a casa de Fleming, localizada em uma praia particular, era frequentada por amigos íntimos e celebridades de diferentes áreas criativas. Gente como a atriz Katharine Hepburn, o também escritor Truman Capote e o pintor Lucian Freud. Chris Blackwell, então com 9 anos, foi naturalmente inserido neste convívio pela mãe, que namorava Fleming. 

Aos 24 anos — já à frente de seu selo, o Island Records, há 2 anos — ele vivia um momento profissional decisivo. Ele foi contratado como consultor musical para a trilha do longa-metragem 007 contra o satânico Dr. No, a primeira adaptação do personagem para o cinema. E ali deslanchou.

Uma década depois, já com um estúdio em Londres, seu caminho cruza o de Bob Marley, uma figura já especial na Jamaica, mas ainda pouco conhecida fora dela. A sinergia entre os dois se traduziu em uma imediata parceria. As mensagens de paz e resistência, acompanhadas da levada relaxante e identitária, estourariam no mundo inteiro a partir do lançamento de Catch a Fire, quinto álbum de Bob, pela Island Records.

A trajetória de sucesso de sua gravadora seguiu lançando ao sucesso diversos artistas, como Grace Jones e U2. Quando encerrou suas atividades, Chris já era uma lenda, como vários de seus artistas.

Tem quarto disponível?

Quando vendeu a gravadora para se reinventar como dono de hotéis, Blackwell, de alguma forma, seguiu novamente os passos de Fleming. Em homenagem ao autor, ele nomeou seu hotel, construído justamente onde o escritor britânico morava, com o nome da missão que trouxe Fleming ao Caribe: GoldenEye.

O encontro do empresário com a Trip se deu lá, a convite do próprio hotel. Mas antes mesmo do nosso papo, pude explorar o hotel e experimentar sensações que me fizeram perceber a alma do lugar.

Em uma das noites quentes de minha estadia, andei pela praia até o restaurante, onde me sentei com alguns amigos. Aos poucos, quase todas as mesas do foram ocupadas. Um casal se aproximou e perguntou: “Estamos procurando a mesa de Grace e Chris, vocês os viram”? Nos olhamos intrigados, quando percebo que, há 10 passos da nossa mesa, estava Grace Jones. Sim, a icônica cantora e amiga de Chris, que comemorava seu aniversário com poucos amigos íntimos, porém, entre nós. Enfim, seguramos os olhares, encaminhamos o casal, mas continuamos imensamente impactados pela surpresa e pela energia que emanava da mesa ao lado. 

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Vida que segue. Eu esperava Chris para almoçar, e, não podia ser diferente, o lugar tinha vista para o mar transparente do Caribe. 

Marika Kessler, namorada de Blackwell e CEO do hotel, veio avisar que Chris estava atrasado, o que permitiu que almoçássemos juntas. Logo depois pulei para outra mesa, onde Chris veio para um longo café.

E assim, o papo fluiu.

Trip. Já li muito sobre sua trajetória, mas sinto que você parece um “poço sem fundo” de histórias fascinantes. A que se deve essa impressão?

Chris Blackwell. Eu amo música! Minha história é fruto de encontros com pessoas talentosas e das músicas que produzi ao lado delas. Meu passado se mistura com a indústria musical, mas o que é fascinante não é a indústria, e sim o impacto da música no mundo. Um mesmo som pode falar com diferentes culturas e com pessoas de diversas idades ou posições sociais. Música é uma linguagem, é um sentimento. Eu simplesmente amo saber o quão longe uma mensagem pode chegar através de um som. Adoro falar sobre música, talvez seja por isso que o papo nunca morre.

Você já fez uma busca on-line com seu nome? Não, nunca pensei nisso.

Você deveria, tem muita coisa sobre você lá. E eu adoraria saber de você se posso confiar no que li. Vamos fazer isso agora?

Um artigo publicado em um jornal jamaicano dizia “Chris Blackwell é a pessoa mais interessante do mundo”. Posso confiar? Sim, é um bom artigo (risos). 

Notei que seu iPad estava na página do New York Post, é lá que você busca informação e entretenimento? Leio vários veículos de notícias e gosto de saber sobre novos artistas e suas carreiras. Também acompanho a política no mundo. Só não leio nenhum veículo que seja pró Trump. Este homem e sua cabeça não fazem bem para a América e não fazem bem para o mundo.

Você diz que música é sua grande paixão, mas como foi abrir a Island Record, e de fato, trabalhar nesta indústria? Acho que tudo começou muito antes de abrir a gravadora. A Jamaica, lugar onde cresci e me sinto tão bem, é pura música e poesia. Desde que comecei a sentir que ritmo, percussão e música mexiam comigo e estavam na minha cabeça o tempo todo, comecei a prestar atenção no que acontecia no mercado e como os músicos e bandas conseguiam fazer sucesso. Assim, fui aprendendo com o próprio negócio. Sempre adorei trabalhar. Abri a gravadora aos 22 anos, aprendia a cada dia. Foram 30 anos de trabalho intenso até vendê-la em 1989.  Fico muito feliz em saber que o negócio que fundei está indo incrivelmente bem até hoje.

Você se considera um homem de negócios? Não sou um homem de negócios propriamente dito. Meu foco nunca foi poder ou dinheiro. Busco influenciar e impactar positivamente as pessoas ao meu redor, estimular um ambiente de confiança e respeito com todos os meus parceiros. Isso é mais importante para mim do que a busca por um bom negócio ou por reconhecimento.

Qual era sua função principal na Island Records? Abri meu primeiro estúdio na Jamaica e desde então meu papel era encontrar o caminho ideal para cada artista. Procurava potencializar de forma orgânica o talento de cada um, indo de encontro ao que o público queria, até que encontrassem seu lugar na indústria. Eu também mixei a maioria dos álbuns que gravamos na Island Records.

Poderíamos dizer que você foi um mentor para os artistas que assinaram com a sua gravadora? Eu diria que tínhamos confiança mutua. Eu os ouvia e intuitivamente sabia que caminho traçar. Dava minha opinião com base no talento versus o que o mercado consumia naquele momento. Eles aceitavam meus comentários e, outras vezes, argumentavam. E assim íamos construindo histórias baseadas em respeito e troca.

Foi assim com Bob Marley? Como as vidas de vocês se cruzaram? Sim, foi exatamente assim. Quando conheci Bob, eu já estava com meu estúdio em Londres. Era o início dos anos 70 e ele e sua banda estavam tentando entrar nas rádios de black music americanas. Mas, na época, só se ouvia jazz e R&B. Ele me procurou exatamente quando Jimmy Cliff, artista de reggae que gravava pela Island Records, resolveu assinar com outra gravadora. Se Jimmy estivesse comigo, talvez eu não tivesse recebido Bob, mas logo tudo se encaixou perfeitamente. Sugeri que Bob e sua banda se posicionassem como uma banda de rock e não de black music. Na verdade, não sugeri uma mudança de estilo, mas deveria ter um “feeling” de rock'n'roll. Incentivei-o a usar todos os elementos que os fãs de rock adoravam, como solos de guitarra, por exemplo. Ele começou a experimentar e a sentir verdade nisso. Adiantei a ele o dinheiro de que precisava para voltar à Jamaica e gravar um álbum dentro deste novo conceito. Na época, não tínhamos contrato e agi intuitivamente, para que ele pudesse se sentir livre. Meses depois, ele voltou com o álbum, assinou comigo e sua música o projetou para o mundo. Eu mixei todos os álbuns dele com exceção do último e sempre tive máximo respeito por ele. Se ele não gostava de alguma coisa, conversávamos e ajustávamos. Sinto muita saudade. Que pena que não está mais aqui. Ele era genial.

Passaram-se muitos anos e você mora definitivamente na Jamaica. Não se sente sozinho aqui? Não. Eu amo a Jamaica e não existe nenhum outro lugar no mundo em que eu gostaria de estar agora. Mas me sinto sozinho de outras formas. Tantos amigos queridos já morreram, muitos até mais jovens do que eu, e eu sinto muita falta das conversas, da troca e do quanto aprendíamos uns com os outros.

Hoje você toca uma rede hotéis. O trabalho preenche sua vida? De certa forma, sim. Eu nunca fui muito bom namorado ou marido, sabe. O trabalho sempre foi muito importante para mim. Mas através dele tive a sorte de encontrar pessoas que amo e amei muito, e que carrego para a vida. Grace Jones me apresentou minha ex-mulher, Mary, que infelizmente morreu de câncer. E hoje vivo e trabalho com minha atual namorada, Marika. Ela é incrível, criativa, dinâmica, adoro estar com ela.

Por que hotéis? Enquanto ainda tinha a gravadora, sempre que sobrava um dinheiro, eu comprava propriedades na Jamaica. Todas eram muito importantes para mim. Assim como na música, você tem que gostar dos álbuns que você lança, tem que ouvi-los e dizer “uau, isso é muito bom”. O mesmo acontece com os hotéis, eu amo cada lugar aqui e me sinto muito feliz em poder dividi-los com pessoas do mundo todo. Cada um tem sua verdade e são diferentes entre si, mas carregam um pouco de como vejo a vida.

E o que é importante para você? Agradecer. É importante agradecer a quem te ajudou a ser quem é. Eu não seria nada sem a Jamaica e por isso criei uma fundação que promove estímulo profissional aos jovens e conservação dos recursos naturais marinhos.

No que consiste este trabalho? Infelizmente a Jamaica é o país que mais sofre no mundo com a escassez de animais marinhos e corais nativos. Restaurar a integridade da baía é uma forma de garantir que exista vida e, por consequência, mais empregos. Por isso, criamos programas como o Fish Sanctuary, que determina onde e quando a pesca pode acontecer, o Coral Re-Planting, que garante a proliferação dos corais nativos, e o Sea Turtles, que convida voluntários a limparem áreas onde as tartarugas se reproduzem. Em paralelo, incentivamos o espírito de empreendedorismo jamaicano, capacitando e treinando jovens.

Tive a experiência de ficar hospedada no Goldeneye, exatamente no quarto que era de Ian Fleming. Foi surreal! O que te levou a manter o quarto e os objetos do escritor e a oferecer esta experiência tão imaginativa? Quando pensei em transformar a propriedade em um hotel, queria que fosse sobre Ian e sua sofisticação, e não sobre James Bond. Meu objetivo era dividir seu lifestyle com pessoas que apreciam o que posso oferecer. Ninguém precisa de mais um grande resort na Jamaica. Minha mãe adorava nadar na casa de Ian e foi por isso que comprei a propriedade, a pedido dela. Quem escolher o GoldenEye vai se sentir em casa e terá total privacidade, se assim preferir. Assim como era a vida de Ian Fleming na Jamaica.

Algum erro marcou sua vida nos negócios? Algo que sirva de lição para a nova geração? Não me lembro (risos). Mas possivelmente não lembro porque tudo acabou bem. Errar faz parte do processo. Por isso recomendo que sejam persistentes, mas saibam recuar e mudar a direção se algo parecer não evoluir bem.

A Jamaica teve o uso de maconha difundido através da religião Rastafari. Qual a sua opinião sobre o assunto? Eu experimentei maconha pela primeira vez depois dos 30 anos e acho que ninguém deveria experimentar até se sentir maduro e estabelecido na vida. Não deve ser uma fuga, deve ser algo que estimule sua criatividade ou te acalme. Seu corpo e mente precisam estar totalmente maduros para tal. Nada em excesso, ou precocemente, faz bem.

81 anos de uma vida bem gasta! Mais algum plano para o futuro? Estou focado em organizar um festival de reggae em Kingston em 2019. Serão 4 dias de música, em que as melhores bandas de reggae do mundo virão se apresentar. Indianas, africanas, brasileiras, americanas... Vamos identificá-las e colocá-las em um mesmo palco. Assim, teremos a total percepção de como o reggae se espalhou e ainda é forte no mundo. Trazê-los para a Jamaica será icônico, pois aqui estão suas raízes.

Créditos

Imagem principal: Goldeneye Island Outpost Images/©David Yellen/Divulgação

Agradecimentos: Selections Viagens, GoldenEye Resort e Oracabessa Foundation

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