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por Mariana Caldas
Trip #194

Nem só do suculento baião de dois se faz a arte do dono do Bar do Biu, em São Paulo

Nem só do suculento baião de dois se faz a arte do dono do Bar do Biu, em São Paulo. O chef também capricha em obras de arte em que homens e calangos vão para o mesmo cozido

– Biu, é verdade que você desenha?

Ele sorri, fingindo não entender a pergunta. Levanta da cadeira em que estava sentado, na calçada da rua Cardeal Arcoverde, e apaga o cigarro. Eu insisto. “Olha aí, Rogério”, ele fala ao filho, “ela tá querendo ver os feinhos.” Rogério imediatamente aponta para um quadro pendurado no alto da parede. Eram dois desenhos do pai, os únicos emoldurados, perdidos entre as inúmeras reportagens e prêmios gastronômicos que cobrem as paredes do Bar do Biu, famoso restaurante de comida nordestina, em Pinheiros.

“Onde eu nasci, em Goiana, um lugarzinho na divisa da Paraíba com Pernambuco, só tinha jumento, cascavel e eu”, relembra Biu, enquanto me mostra mais de 30 desenhos que estavam em uma caixa perto do freezer. Segundo filho de 16 irmãos, dos quais só cinco se criaram, Severino Gomes da Silva saiu cedo da Paraíba, passou pela Bahia e aos 21 veio para São Paulo. Hoje, 41 anos depois, ele tem seu bar/restaurante, que abriu junto com a mulher, Edi, onde servem deliciosos pratos nordestinos com carne, muita carne. Ele tem orgulho de suas criações, na cozinha e no papel. E mostra que o élan do seu trabalho pode ser representado pelo retrato que fez de seu vizinho – em um corpo de calango.

“Eu desenho todo dia um pouquinho, não sou apegado, mas guardo tudo. Até porque as pessoas do ramo me mandaram guardar”, conta, agora desenhando um autorretrato no papel da mesa. “O menino [Baixo Ribeiro] ali da Choque Cultural [galeria de arte urbana, vizinha do restaurante] levou alguns pra lá e tudo.” E você foi ver? “Nunca fui, o menino já me fala como é. Então eu vou lá ver o quê?”, simplifica. Mas garante que não é falta de interesse, só pouco tempo. “Eu admiro a criatividade de qualquer ser humano”, explica. E não descarta nenhuma possibilidade: “Não dá pra saber o dia de amanhã, vai que eu mudo de ideia... Aí vou trabalhar com mais carinho, mais perfeição. Vou procurar frequentar mais exposições, ver mais criatividade, apesar de não gostar de copiar”, diz o chef de seu reino de picanhas, bistecas e sincera expressão artística. E não me deixa ir embora antes de retratar a repórter que vos escreve – em um esbelto corpo de ovelha preta.

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