por Daniel Benevides

A Trip Girl inventada pelo ilustrador Shiko deita, rola e faz a festa na sua imaginação

Valentina Buzatti mora num predinho meio escondido, em Perdizes. Tem uma coleção de vinis espetacular, como dá para ver pelas imagens. Decidimos fazer a entrevista no escuro, sem ter dado uma googlada na moça. A conversa, de uma franqueza quase desconcertante, rolou no sofá da sala. Como se fosse a coisa mais natural do mundo, a bela morena de 26 anos estava de calcinha e camiseta regata. Simpática, ofereceu um copo de Jaggermeister com gelo, bebida que aprendeu a tomar na Alemanha, nos tempos em que morava em Berlim e era DJ.

Qual seu nome verdadeiro?
Se eu disser que é Valentina, você acredita? Sei que parece nome inventado, mas é o meu mesmo, Valentina Buzatti. Minha mãe era superfã do Guido Crepax. E eu acabei ficando, também! Adooorro meu nome!

Você já foi modelo?
Não, não. Uma agência me chamou quando eu tinha 14 anos. Meu namorado na época (um escritor famoso, 30 anos mais velho, que ela, compreensivelmente não quis dizer o nome) insistiu muito pra que eu aceitasse, mas eu não quis. Queria mesmo ser arqueóloga, por causa do Indiana Jones (risos).

E acabou dando certo! Quantas pessoas podem dizer que seguiram a profissão dos sonhos de criança?
É...engraçado né? Semana passada eu estava na Palestina. Faço parte de uma equipe formada por cientistas de várias partes do mundo. Descobrimos as ruínas do que parece ser uma residência de cerca de dois mil anos. É muito emocionante!

Você disse que tinha um namorado bem mais velho, aos 14 anos...Quando perdeu a virgindade?
Ah.^^~-_-tecnicamente aos 12, com meu professor de piano...Mas descobri minha sexualidade muito cedo. Lembro de brincar (e aqui ela dá um sorriso desarmado, sem malícia) com meu corpo aos oito anos, na banheira. Lembro de um submarino amarelo... aquele dos Beatles, sabe?

Seus pais não se importavam com esses homens mais velhos na sua vida?

Bem, meu pai morreu quando eu tinha dois anos, no Afeganistão. Era fotógrafo da Reuters. Minha mãe é psicanalista, sabe como é... Mas na verdade o professor de piano era bem garoto também, muito bonitinho e precoce. Acho que não tinha nem 16. E fui eu que comecei! (risos). Com os escritor foi mais problemático, porque ele era um antigo caso da minha mãe.^^~-_-

E hoje, como anda sua vida amorosa?
Beeem confusa, mas não me importo. Eu até gosto. Passei por uma fase de me envolver com meninas. Foi muito bom, mas agora voltei a me interessar pelos homens. Era meio ondinha, né? Essa coisa de meninas lésbicas do rock alternativo...Às vezes ainda rola. Meu namorado, ou ex-namorado, não sei mais, morre de ciúmes, mas adora quando eu trago uma amiga pra casa...Mas agora ele tá em turnê na Argentina (ela se refere a Paco Martinez, vocalista dos Bastardos de Maradona, banda que faz bastante sucesso por lá)

E como foi posar para a Trip?
Bem tranqüilo. Tô acostumada a ficar sem roupa. Meus vizinhos adoram! (risos). Acho bonito meu corpo, porque não mostrar? Se pudesse, andaria nua sempre!


O CARA QUE FEZ A TRIP GIRL

Valentina é na verdade criação do ilustrador Shiko, um paraibano de mão cheia, que já fez fanzines, capas de discos independentes, storyboard para filmes publicitários, desenhos para tatuagem e tem grafites e pinturas espalhadas por toda João Pessoa. Também escultor e quadrinista, Francisco José, o Shiko, começa a ser conhecido no circuito artístico de São Paulo e Rio. Entramos em contato com a obra dele através de nossa comunidade no Flickr. Simpático, não se fez de rogado, aceitou na hora o desafio da Trip de colocar vida pela primeira vez numa Trip Girl imaginária. E que vida!

 

Segundo ele, a Trip já fazia parte de seu imaginário cotidiano quando recebeu o convite: “Quem não queria fazer uma Trip Girl? (risos). Foi do caralho, leio a Trip desde moleque e fui bastante influenciado pela maneira como a revista olha e representa a mulher – na verdade eu até uso imagens da Trip como referência para minhas ilustrações. Agora mesmo tô usando uma foto do Arthur (Veríssimo) como modelo pro Mandrake, personagem do Rubem Fonseca. Tô preparando uma versão em quadrinhos prum concurso e achei que o Arthur tinha um jeito de olhar que me lembrava o detetive do Fonseca.


Com os quadrinhos entraram na sua vida?

Desde pequeno consumo quadrinhos como água. Mas nunca fui muito de super-heróis; gostava mais de quadrinhos do tipo da revista Animal, lembra?

Gostava do erotismo do Crepax e do Manara?
Muito! Mas acho que o erotismo é uma parte indissociável dos quadrinhos, não é algo segmentado, mas está sempre presente nas histórias, junto com a violência, a reflexão...

Tinha alguma preferência?
Meu sonho era desenhar uma capa do Conan, o Bárbaro, com aquelas mulheres incríveis que ele protege, defende e sempre come (risos).

Você se baseia só em fotos ou também desenha mulheres ao vivo?
Às vezes desenho amigas, namoradas. Quase todas se reconhecem na hora. Cheguei a ter problema com um grafite. Minha namorada na época encanou que era fulaninha e eu disse, imagina, meu amor, é só o cabelo que é parecido...(risos). O curioso é que também recebo muitas fotos de quem quer se ver desenhada.

O que tem na água da Paraíba que faz com que exista tantos bons ilustradores em João Pessoa?
Aqui em João Pessoa tem uma verdadeira tradição de desenhistas, pintores e ilustradores. Tenho um amigo, o Mike Deodato, que na verdade é o Deodato Borges, que há anos desenha os heróis da Marvel. Começou deixando a Mulher Maravilha mais gostosa (risos) e depois partiu para os X-men, Hulk e todos os demais.O pai dele já era ilustrador nos anos 50. Nos 70 muita gente fazia quadrinhos engajados, superpolizados, contra a ditadura. E desde os 90 há muitos grafiteiros de talento na cidade. Inclusive estou preparando um catálogo com registros do grafite em João Pessoa.

Próximos planos?

Agora estou fazendo cenografia para o DVD de uma banda daqui, a Cabruêra, preparando uma exposição de telas e um novo álbum de quadrinhos, o Blue Note. Não sei onde minha carreira vai dar, mas até aqui a vida tá muito boa.

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