Educação, garbo e
elegância

por Arthur Veríssimo
Trip #203

Arthur Veríssimo, o repórter ogro da Trip, encara um curso da milenar arte da etiqueta

Em nossa eterna busca para aprimorar os modos de nosso repórter excepcional, decidimos enviá-lo a um curso da milenar arte da etiqueta para ver se uma lição sobre o manejo de talheres e guardanapos daria um jeito no ogro da Trip

Desde a caverna do sadhu solitário no Himalaia até o palácio do sultão de Brunei, existem muitas regras, protocolos e atitudes que devemos aprender para melhorar nosso convívio social. Bons modos são aliados imprescindíveis para qualquer pessoa, local ou situação. Mas, no trânsito, em restaurantes, aeroportos, shows, no trabalho e nas ruas, notamos que os ogros e seus pares femininos infelizmente ainda dominam o cenário. Há pouquíssimos Shreks bem-educados.

Para me lapidar e melhorar a minha vida, resolvi me submeter a um curso de etiqueta, para que possamos juntos exonerar algumas falhas arraigadas. Saí em busca do melhor professor para elucidar os mistérios da conduta à mesa, do uso de talheres, da postura e do controle no exibicionismo, indo da língua solta à vestimenta apropriada.

A placa na frente da casa no Morumbi, zona sul de São Paulo, indica que ali é um local de boas maneiras. Logo na entrada fui recebido com polidez e cortesia pela professora Virgínia Gargiulo, que ensina a arte de receber e ser recebido. A anfitriã nos conduz para a ala da residência onde ministra suas aulas de lapidação social. A nossa será um resumo geral do curso que ela desenvolve em módulos de quatro horas.

Sua casa é repleta de louças, pratarias, quadros e vasos da dinastia Ming herdados da família. Seu pai, Humberto Gargiulo, foi fundador da ancestral TV Tupi, e ela teve como padrinho ninguém menos que Assis Chateaubriand – coisa de gente chique de verdade. Com braço e mão levemente estendidos, ela orienta para onde devemos ir e nos sentar. Sou aluno, repórter e convidado. Me sento no sofá e inicio perguntas vitais. Quero saber de onde vem a herança de bons modos e requinte. Ela sorri discretamente e narra sua saga. Nascida em berço de ouro, Virgínia teve em sua casa, desde a infância, uma rígida governanta prussiana. Estudou em colégio interno na Suíça por muitos anos e foi coleguinha de filhos de sheiks, sultões, grão-vizires e nababos.

A zona do perdigoto
Percebo que ela mantém certa distância no sofá. Pergunto a Virgínia qual o motivo. Com humor polido, ela diz que esse “círculo imaginário” de distância é uma das regras fundamentais nos encontros e desencontros sociais, para não sermos incomodados e surpreendidos com os perdigotos alheios. Explicando: perdigotos são nada mais que salpicos de saliva lançados por alguém ao falar. Inspirada, ela nos passa detalhes minuciosos de gafes na sociedade em que os perdigotos atuaram em profusão. As risadas são contidas, mas descontraem ambos os lados, sem perder a postura nem a compostura.

Nossa aula avança e recebo um elogio. Virgínia declara que minha postura no sofá é impecável. Fora seus alunos veteranos, ela nunca havia estado com repórter tão erectus. Fico lisonjeado. Agradeço e controlo meus perdigotos. Mas em seguida, com a bexiga prestes a explodir, pergunto do banheiro. Tomo uma ensaboada: Virgínia declara que banheiro é para se banhar e que a palavra é toalete. Fico na miúda.

Na volta do aposento sanitário, ooops toalete, sou conduzido à sala de jantar, onde os segredos do uso de taças, talheres, guardanapos e pratos me aguardam. Sento-me na cadeira indicada pela maestrina. Ela declara que o certo é o anfitrião ou a dona da casa decidir onde o convidado irá sentar. “Você não pode ir sentando em qualquer lugar, é uma gafe gravíssima. É fundamental definir os lugares antes da refeição.” Perfeitamente, Virgínia, estou aqui para aprender.

Ela prossegue: “Na mesa, Arthur, as conversas têm que ser amenas e positivas, nada de doença ou fofocar sobre vida alheia. CPI da vida dos outros é de 19ª categoria. Tudo aquilo que você fala de maledicência sobre alguém que não está presente volta com a mesma intensidade”. Concordo efusivamente. É a conhecidíssima lei do karma, de causa e efeito. Quando à mesa, o tal karma volta em forma de dor de estômago.

Na távola, recebo um leque de explicações didáticas sobre como proceder com taças, talheres e seus coadjuvantes. Durante a refeição, quando os talheres não estão sendo usados, o correto é deixar os antebraços pousados na borda da mesa, nunca, mas nunca mesmo, no colo ou debaixo da mesa; pousar apenas um dos cotovelos na borda tudo bem, mas nunca os dois. Ao fazer uma paradinha no meio da refeição para beber, trocar ideia ou usar o guardanapo, deixe os talheres dentro do prato, na diagonal, o garfo à esquerda, voltado para baixo, e a faca à direita, com o lado afiado voltado para dentro. Para o prato ser retirado, você tem que deixar os talheres na posição dos ponteiros no horário de 10h20. Complexo, não?

Ao longo da aula, vamos aprendendo como dobrar uma alface, comer pizza, destrinchar lagosta e até a supertécnica de retirar o caroço da azeitona na empadinha. No caso de canhotos como eu, o lance é esperar que o primeiro prato seja servido e então, na suavidade e sem constrangimento, trocar de lado os talheres. Sem alvoroço. No fim, peço a Virgínia alguma bibliografia. Ela me indica os livros de Cláudia Matarazzo e mostra uma obra ilustradíssima em inglês: For the Royal Table: Dining at the Palace, com cenas coruscantes dos banquetes no Palácio de Buckingham. Antes de me despedir, a pergunta definitiva: e se a pessoa sofrer de flatulência e estiver prestes a soltar um pum? Saia sutilmente e flutue até o toalete; um bom anfitrião sempre deixará no lavabo medicamentos para essas situações urgentes, ela ensina. Anotou?

O guia de boas maneiras do Arthur 

1 - Em Papua Nova Guiné, quando os aborígenes locais lhe oferecerem uma koteca (protetor peniano), nunca segure a peça com uma mão apenas, pois, segundo o chefe tribal, o que já estava mole ficará mortinho pelo resto da vida.

2 - Nunca entre numa caverna de saddhus sem ser convidado, pois basta o eremita olhar torto para você ter um ano repleto de obstáculos e pleno de urticárias.

3 - No Paquistão, e sobretudo em Peshawar, nem pense em olhar ou dar beijinho nas muçulmanas. Não é só falta de educação: você corre risco de vida.

4 - Em Bangcoc, na Tailândia, é considerado falta de decoro não tomar um coquetel afrodisíaco que tem como base o sangue da cobra, mesmo sabendo que você pode ficar despirocado.

5 - Em muitas regiões da Índia, fique esperto com a famosa mão de amiguinho. Depois de ter conhecido o sujeito há 10 min, alguns indianos já querem engatar a mãozinha e entrelaçar os dedos. Na dúvida, mãos no bolso!

6 - Se você for mulher, evite dar dois ou três beijos ao cumprimentar homens em certos lugares da Ásia. No mesmo instante, o tipo que você beijou irá grudar feito carrapato, mesmo se seu marido estiver presente.

7 - Se te oferecerem uma “sopa de Cardan” em La Paz, capital da Bolívia, é falta de educação recusá-la, mesmo sabendo que seu principal ingrediente é um vergalhão de boi cortado em fatias.

8 - Se você ver um zumbi se estatelar no chão em um festival de vodu no Haiti, levante o sujeito o quanto antes, segurando-o pelo sovaco com a mão direita. Nunca o levante com as duas mãos, ou sua vida pode ficar envoduzada.

9 - Na festa do padre Cícero, quando for arrodear a estátua do padim, nunca o faça no sentido anti-horário. Não é apenas uma baita falta de etiqueta: você corre o risco de ser esmagado pela romaria no sentido contrário.

10 - Na Groenlândia, faz parte da tradição dos esquimós oferecer a esposa para passar a noite com o visitante. Eles costumam lançar um sorriso maroto e convidar para comer um filé de foca em suas casas. Dessa etiqueta milenar, eu estou fora!

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