De frente pro crime
Rap do Pequeno Príncipe Contra as Almas Sebosas usa narrativa descontínua, cores fortes e muito hip hop. Assista ao trailer do filme
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
RPPXAS parte de uma idéia original: mostrar a trajetória de dois amigos de infância que, com o objetivo de combater a violência na periferia, separaram-se em caminhos diferentes – um usou o ritmo do hip hop, o outro preferiu o ritmo das balas. O primeiro se chama Garnizé, que, além de líder comunitário, é baterista da Faces do Subúrbio, mais conhecida banda de hip hop do Recife; o segundo é o cândido Helinho, o Pequeno Príncipe, condenado a 99 anos de prisão por ter justiçado 65 bandidos [não suporto ver alma sebosa solta. Matar pra mim é como beber um copo d`água, afirma].Co-autor, com Lírio Ferreira, de O Baile Perfumado – um dos filmes mais inventivos dos anos 90 -, e aqui acompanhado por Marcelo Luna, Paulo Caldas bomba a linguagem do documentário com cores vibrantes e reportagem numa obra em que o hip hop, mais que trilha sonora, é personagem principal. A narrativa em paralelo às vezes pende excessivamente para o lado de Garnizé – o motivo, segundo o baterista, seria que trechos pesados da entrevista com o Pequeno Príncipe teriam sido limados da edição final para não causar uma explosão de violência na periferia de Recife, onde Helinho é apontado como herói. Este desequilíbrio é compensado pelo ritmo da trilha sonora, que veste Garnizé de mestre de cerimônia para outras bandas, como os Racionais MC`s. [Falando nisso, aqui vai um recado para Mano Brown e companhia: o título de mais poderoso grupo de hip hop brasileiro não necessariamente quer dizer que eles tenham que aparecer, como neste filme, sempre bicudões e mal-humorados – vide a simpatia do pessoal do Faces, que lida com os mesmos temas violentos sem cair numa caricatura forçada de gangstar.]Momentos marcantes do filme, além da troca de idéias com os Racionais, são os comoventes depoimentos da mãe do Príncipe [embora o critério jornalístico de ouvir o outro lado tenha sido prejudicado pela ausência de depoimentos das mães das vítimas], os engraçadíssimos discursos do delegado que prendeu Helinho, a visão da mídia-mundo-cão – como o radialista Joseley Cardinot [espécie de Gil Gomes pernambucano, inventor da expressão alma sebosa, usada em Pernambuco para xingar um cabra realmente muito safado], a lucidez de Garnizé e os depoimentos das próprias almas sebosas, personificadas no grupo de justiceiros Os Vingadores. Sistema penitenciário, skate, baile funk, forró, futebol e festas religiosas populares são ainda elementos importantes na narrativa – que, ousada, não conta com narrador off: o espectador é livre para interpretar o filme.Não bastasse tudo isso para apontar RPPXAS como o documentário sobre violência do ano – ao lado do acadêmico Notícias de Uma Guerra Particular, de João Salles -, só a brilhante seqüência inicial já justificaria o ingresso. No meio da favela, uma alucinante perseguição filmada em câmera subjetiva, com dois pontos de vista diferentes [perseguidores/perseguido], joga o espectador no centro do matar-ou-morrer da periferia. Cinema puro. [Ronaldo Bressane]
O documentário O RAP DO PEQUENO PRÍNCIPE CONTRA AS ALMAS SEBOSAS será lançado em circuito nacional no dia 17 de novembro.
LEIA TAMBÉM
MAIS LIDAS
-
Trip
Bruce Springsteen “mata o pai” e vai ao cinema
-
Trip
O que a cannabis pode fazer pelo Alzheimer?
-
Trip
Entrevista com Rodrigo Pimentel nas Páginas Negras
-
Trip
5 artistas que o brasileiro ama odiar
-
Trip
Um dedo de discórdia
-
Trip
A ressurreição de Grilo
-
Trip
A primeira entrevista do traficante Marcinho VP em Bangu