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Cotidiano – 2ªparte

A rotina entre as grades

Por Redação

em 29 de setembro de 2005

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Cerca de 11 horas da manhã, quem trabalhava volta para o pátio e todos que estão no pátio são recolhidos para suas celas. É a tranca do almoço. No xadrez, televisão e rádios são aumentados de volume e os companheiros começam a conversar.

Quem saiu para trabalhar volta com as novidades da prisão. Quem tem droga; quanto está o preço; quem brigou com quem; o futebol, essa paixão desesperada do preso; conversas sobre facções criminosas; recados de amigos; as novidades clandestinas são repassadas para quem interessa. Difícil ler, estudar ou qualquer atividade intelectual quando estão todos na cela. Também não há o menor incentivo ou interesse. A ignorância do preso parece algo planejado periculosamente.

Logo em seguida as portas são abertas. O pátio é novamente povoado e quem trabalha segue para seu destino. Sair do pátio é uma alegria, mas encarar os guardas na galeria, humilhando, ameaçando, querendo revistar pelado e quase sempre querendo prejudicar, é duro. A guerra entre os guardas e os presos aos poucos vai se diluindo. O guarda parece mais com o preso agora. Geralmente vem da mesma classe social, tem a mesma idade e o guarda pode até ter familiares e colegas de infância aprisionados.

O preso é sempre alguém que se esconde de raios e trovões, como quem tivesse sobre sua cabeça uma tempestade constante. Vive a certeza de que escapar da prisão significa liberdade. Jamais se esgota de sonhar com a vida que imagina na rua. Está defasado no tempo e no espaço e tenta arrancar aos pedaços o que a vida lhe permite. Não importa a dor, a alma em ferida, a luz apagada de cada janela. Importa o sonho, o anseio de ser feliz. Acredita que todo o problema é que está preso. Ao sair, tudo se resolverá. Vive a planejar e replanejar seu futuro.

Na maioria das prisões, o xadrez fica fechado quando os companheiros saem para a recreação ou trabalho. Quem quer ler ou estudar, essa é a hora. Fica dentro do xadrez com quase ninguém, ou sai e caça um canto para conseguir estar só e se concentrar na leitura.

Às 16 ou 17 horas. Passa a tranca geral. Todos são recolhidos e o guarda faz a contagem. Logo em seguida troca o plantão e é feita uma nova contagem. Dizem que o preso só faz falta nessa hora. Começa a vida na cela. Dentro de cada xadrez existe uma política de poder e domínio, que varia de xadrez para xadrez. Alguns têm por regra deixar as luzes a meia-luz com abajures improvisados de folhas de revistas. Claro que somente em prisões que isso é permitido. Ninguém lê, escreve ou estuda.

Cada xadrez tem um tipo de convivência e é dominado por um tipo de política. Há celas em que todos somam uma família. As pessoas vão se escolhendo ou se reencontrando. Claro, com as divergências próprias de uma família. Tudo é dividido com igualdade, é obvio que os que oferecem mais sempre hão de receber as melhores partes. O homem é assim em toda parte do mundo.

Se alguém de fora desrespeitar um membro, mexeu em vespeiro. Todos atacam em conjunto. Se algum membro "vacilar", cometer imprudências que firam o conjunto de regras não escritas que rege a moral dentro das prisões, chamado de "proceder", o grupo tenta amenizar as conseqüências. Não podendo compactuar com o erro, sob pena de ser tirado por conivente, tenta preservar a vida do parceiro infelicitado.

Há xadrezes em que o individualismo impera. É cada um por si e salve-se quem puder. Cada qual é dono de suas coisas e não tem obrigações para com ninguém. É viver e deixar viver. Geralmente essas celas são de grande rotatividade. Ninguém mora muito tempo por ali. São desrespeitados e em qualquer situação de dúvida fora do xadrez perderão sempre porque não possuem união.

E, como não poderia deixar de ser, existe o xadrez que faz o meio-termo, quase sempre a grande maioria. Existem regras; formam um grupo que busca ser coeso em casos de crises com grupos de fora; dividem comestíveis, confortos, drogas, roupas e outras coisas na medida da necessidade, mas tão-somente e ninguém se preocupa muito com ninguém. Sempre há grupetos dominantes e não é difícil ocorrerem guerras internas que resultam em mortes, inclusive.

Os destinos são frágeis. Cavalos de fogo patejam, desafiando a escuridão, aquele é um mundo opressor em que a mentira, a desonestidade, a sordidez são meios de defesa. Genet desdobra-se em imagens perfeitas para tentar explicar.

Quase todos os xadrezes assistem às novelas da Globo. A televisão é caso à parte. Sendo possível apenas uma televisão em cada cela, a programação deve ser única para todos os residentes de cada cela. Os programas policiais são os mais assistidos. Em seguida o Jornal Nacional e as novelas. Depois os filmes para aqueles que trocam o dia pela noite. Assistem a filmes na tevê a noite inteira e dormem de dia. Geralmente são pessoas que sofrem de insônia ou que simplesmente querem se alienarem da prisão, não saem da cela para nada. Descem da cama somente para comer e para as necessidades fisiológicas.

O grupo dominante do xadrez decide a programação. O dono do aparelho tem opinião determinante. Esse é o momento em que o preso que trabalha tem para ler, estudar, escrever para os familiares (escrever cartas é algo de extrema importância. Sendo o único meio de comunicação do preso com o mundo exterior, afora as visitas que nem todos presos têm. É escrevendo que muitos, senão quase todos, mantêm laços familiares e conseguem novos contatos com pessoas do mundo exterior.), fazer algum artesanato para vender ou apenas presentear parentes. Difícil a concentração, mas provei para mim mesmo que é perfeitamente possível.

Na última prisão em que estive, morávamos em 12 presos por cela, e eu estudei, li, escrevi um livro novo e reescrevi dois livros já escritos; isso em dois anos. Era muito difícil, mas eu sentava em uma cadeira de plástico, de posse de caneta e papel, e me correspondia com o mundo. No Setor de Educação, escrevia em meu computador. Sofri muito para aprender a me concentrar e trabalhar, apesar dos caras, do barulho, da bagunça que faziam. Pura persistência e vontade. Sequer percebi quando já estava conseguindo escrever e ler normalmente, apesar de toda aquela vida estuante ao redor. Jamais desisti, somente disso sei com certeza.

As luzes quase sempre se apagam às 22 horas. Mais da metade do xadrez já está dormindo. O sono é o refúgio do presidiário. No sonho ele viaja em novelos de galáxias e astros brilhantes. Então, dormir é uma dádiva que todo preso deseja desfrutar. Esse é chamado de momento do silêncio. Quem conversava alto, abaixa o tom; a televisão e os rádios diminuem o volume. É o momento da reflexão.

Os chamados "come quieto", cortinas que individualizam a cama e dá certa privacidade ao ocupante, são puxados. Cada qual se isola em sua "moradia". Os pensamentos se alongam, pontudos. A vazia tristeza de cada um. Geralmente é a hora da oração, de pensar na mãe, nos filhos, na esposa, mexer nas fotos cansadas de tanto olhar e se derreter em saudades. Atado a seu tronco, o escravo da dor dá seu último suspiro triste e dorme como guerreiro exausto.

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