Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Passagem de ano. Noite quente, parada, mormaço pegajoso. Ao longe, queimam fogos. Clarões repentinos iluminam o céu cinzento e sem estrelas. No Carandirú, o ar está pesado. Difícil de ser respirado. Raiva e frustração misturam-se a lágrimas contidas na garganta. Meios sorrisos quebravam-se como vidro em queda livre.
Sete mil almas pensam e carregam o ar de uma doce, quase nostálgica tristeza. Tudo é insuportável, mas é preciso suportar. No silêncio retesado pelo elástico dos nervos, sobressai o som das botas do guarda armado na muralha. Um grito corta o ar parado e a apatia reinante:
– Coxinha, Coxinha!!! Chama o preso.
– Que é, ladrão, já vai começar? Responde, de saco cheio, o policial militar.
– Coxinha, tua mulher, aquela vagabunda, está dando para o Ricardão, enquanto você ganha o sustento dos dois aí…
– E a tua, ladrão, tá fodendo com todo mundo da rua!
Aquela insólida discussão quebrava a tensão, dissolvendo a monotonia. Muitos presos saem à janela, outros apenas direcionam os ouvidos. Todos atentos, agora:
– Ô Coxinha, tua mulher deve estar gastando teu décimo terceiro, fazendo a maior festa para aquele cara que você sustenta sem saber!
Todos riem. O tédio encharcava de tristeza da pele aos ossos. Até insignificantes sorrisos aquecem as almas enrodilhadas.
– Ô ladrão, de manhã, depois do plantão, vou passar em tua casa para tomar café com a comadre…
Um ‘huuumm…’ registra censura geral ao soldado; tudo não passa de uma brincadeira, mesmo que tão idiota.
– Quando chegar em sua casa, vê se te lembra de fazer aquele barulho combinado, para o Ricardão sair antes de você entrar!
E o bate-boca se arrasta pela noite adentro. Críticas são atiradas das janelas gradeadas. Gargalhadas acompanham as tiradas, ecoando entre os pavilhões. Tudo é falso, por dentro todos trazem seus fantasmas.
Na madrugada, talvez por esgotamento da criatividade, quiçá pelo cansaço, ou mesmo pela desmotivação, acabam entrando em um acordo:
– É ladrão, estamos ambos fodidos e sós aqui nessa noite vadia, enquanto todos festejam. A vida é uma merda mesmo!
– Liga não, seu guarda. Daqui a pouco cê sai e vai comemorar com os seus. Eu tô aqui, mas o ano que vem também saio, daí vou poder também. Vou dormir. Dá um beijo na nossa lá por mim.
Os primeiros raios de sol raspam o horizonte, anunciando um novo dia, um novo ano.
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