por Alê Youssef
Trip #257

O Brasil tem uma das mais baixas taxas do mundo de presença feminina no Congresso Nacional. Nossos números são inferiores ao da média mundial e, pasmem, até aos do Oriente Médio

A deputada Luiza Erundina, no alto dos seus 81 anos de idade, subiu ao púlpito da Câmara dos Deputados para marcar posição com uma candidatura ética à presidência da casa, no contexto da sucessão do tenebroso Eduardo Cunha. Em seu discurso, ela cravou que sua eleição seria uma oportunidade para a Câmara corrigir uma injustiça, pois, em 192 anos de história, a instituição jamais fora comandada por uma mulher.

O manifesto de gênero de Luiza – primeira mulher prefeita da cidade de São Paulo, em 1988 – chama a atenção para uma enorme distorção da relação de poder entre homens e mulheres: o Brasil tem uma das mais baixas taxas do mundo de presença feminina no Congresso Nacional. Dados divulgados pela União Interparlamentar indicam que, de um total de 190 países, o Brasil ocupa apenas a 116a posição no ranking de representação feminina no Legislativo.

Na atual legislatura, temos 51 deputadas de um total de 513 – o equivalente a apenas 9,9%. No Senado, das 81 cadeiras, 12 são ocupadas por mulheres. As taxas brasileiras ficam abaixo da média mundial (22,1%) e, pasmem, nossos números são inferiores aos da média do Oriente Médio, que apresenta uma taxa de participação feminina de 16%. Nosso país é tão machista que o debate de gênero foi periférico no processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, por exemplo. E essa constatação é impressionante, independentemente do lado em que se esteve nessa guerra política recente.

Agora é que são elas
A ausência do feminino no centro do poder ganha proporções gigantes, de impacto profundo no tipo de sociedade que buscamos construir: os grandes temas que orientam nosso século podem estar inseridos em outras representações e novas formas de ação. Nesse sentido, há uma necessidade central da substituição de uma sociedade de homens por uma sociedade de mulheres, pois essas sempre foram as grandes vítimas da polarização que as colocava permanentemente em uma posição inferior. Conforme identifica em sua obra o sociólogo Alain Touraine, as mulheres são as protagonistas de um novo conjunto que se apresenta de “reconstrução de laços entre corpo e espírito, razão e sentimento, vida pública e vida privada, masculino e feminino”.

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Na impossibilidade de figuras como Luiza Erundina se multiplicarem, creio que precisamos urgentemente de um amplo movimento de estímulo e apoio para que representantes feministas – das mais variadas origens e vertentes políticas – candidatem-se. Não há outro jeito de equilibrar o poder e apontar para um futuro diferente desta nossa triste realidade construída majoritariamente por homens.

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