Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Tudo queima por dentro, ao mesmo tempo em que é voraz. Um desespero se infiltra por entre os dedos, como um navio bêbado, desatracado em mar espesso, ao sabor das procelas. Um sentir primitivo, animal, que se desentranha das vísceras e superaquece, cristalizando os olhos. Um querer demais que cega, avassala e se esconde. Estremecendo raízes, causando uma espécie de pânico que se abre ao abismo do imemorável.
Como a terra a pressentir tempestade, enquanto perdura seca, somos nós mergulhados em pleno cio. Em pé, deitados, com as mãos em garras, transpassados por luzes e trevas, somos esse querer duro que se amolenta voluptuoso. Um fogo que jamais se recusa, repercutindo como um sino na arena dos desejos mais vorazes.
Primeiro um ar parado e quente. Uma sede, boca áspera, garganta amarrando e um engolir em seco. Um silêncio sem pensamentos, apenas essa coisa esparramada, pelo vento em turbilhão. Algo que, ao envolver, se desenvolve e é sem ser, porque está sendo além de si, além do outro, inteiramente fora do tempo. Não importa se tarde ou noite, mesmo que seja pela manhã. Somos sentidos, o mais profundamente humano que qualquer ente possa ser. No cio a natureza deságua em dilúvio torrencial, inundando de modo a desistir e largar, a molhar, como qualquer outra coisa da vida.
Há um sofrer arrastado, uma força natural que vai se abrindo em fissuras, rasgando. Tudo desaparece, nem a terra ou o ar respiram. Enfeixados, de tensão cortante, de uma glória e um abismo que se afunda. É mais um sopro quente, grandioso e efêmero a nos devastar vida afora e sentimentos adentro. Tudo parece que jamais acontecerá novamente. Mas eis que de repente, não mais que de repente, como diria o poeta, ressurge a cada dia, qual fênix, a pulsar nas veias, determinante.
Uma chuva bate fina e se avoluma, contínua, tomando a querer tudo. O ar se desmancha em exigências, a terra ressona adocicada, nua, vermelha a brilhar. É o cio a brotar vida, preenchendo espaços, infiltrando raízes ao fundo da fecundidade, tudo se torna grave como a morte, no então é vida aos borbotões, a girar em dança e perfume. Uma esperança vadia, lânguida, dentro da noite-dia cativa, enquanto tudo se esquiva.
Então tudo que era pesado e denso alivia-se em brisa, tornando-se leve e oco, esvaziado de toda pujança que sangrou dos sentidos. O que era febril, de paixão doentio, ferido de todos os gumes e pontas de estrelas em lassidão se desfaz. A cobra, que enrodilhada em botes, alonga-se em espuma e bolhas de sabão. Tudo o que era presente e somava a fundir, então, distanciou-se, perdido de nós e para nós.
Resta a doçura. Uma lágrima dividida congela-se ao chão. De volta, aceitamos nosso inferno a construir um novo céu. Quase insultados, retornamos os pés no chão e, sem ousar compreender, descansamos. Nosso prazer de parir o que somos do que nunca fomos, em terra e água fecundas. Agora, pensamos na fartura que somos, em tudo que de nós não sabemos, sequer desconfiados até que ponto não sabemos, voltamos à vida, conformados.
É muito ou é pouco. Mas sempre está além. Aprendemos, então, a nos apaixonarmos com o que poderíamos ter sido, mas, amando também aquilo que conseguimos ser.
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