Bortolotto versão revisada

por Ariane Abdallah
Trip #185

Depois de quatro tiros, o dramaturgo confessa que foi mais fácil beber do que escrever

Ele levou quatro tiros na mesma praça que ajudou a tornar um polo cultural, no centro de São Paulo. Dois meses depois, o dramaturgo Mário Bortolotto confessa: “estava preguiçoso, achando bonito ser um bêbado querido. É mais fácil encher a cara do que escrever”

Quando viu aqueles quatro moleques entrarem no bar às cinco e meia da manhã, Mário, apesar do efeito de uma garrafa de whisky na cabeça, pensou: “Vai dar merda”.

A atriz Fernanda D’Umbra, que foi casada com o dramaturgo, havia chegado 2 min antes dos assaltantes. Ela conversava com outra atriz quando sentiu o revólver na cabeça. Obedeceu à ordem da gangue e foi para o chão. Na confusão, ouviu o vozeirão de Mário. Tentou evitar: “Não reage...”. A frase foi interrompida pelo primeiro dos quatro tiros que atingiram o dramaturgo – um no pescoço, dois no tórax e um no braço de raspão. O assaltante descarregava a arma do chão. Mário o havia derrubado na porrada e gritara: “Atira, filho da puta!”.

Em seguida, era ele quem estava no chão, jorrando sangue. Balbuciava “eu vou morrer”, enquanto Fernanda afastava as pessoas que gritavam ao redor, segurava seu rosto e falava baixinho: “Vai nada, um monte de gente sobrevive a tiro”. Com a ajuda do músico Fábio Brum, ela colocou Mário no Corsa da polícia e foram para a Santa Casa de Misericórdia.

“Os médicos falaram que, se demorasse mais 10 min, eu teria morrido”, lembra ele, com uns 10 kg a menos, o braço esquerdo numa tipoia e a cicatriz do ombro à mostra. Um mês depois do coma de dois dias, duas cirurgias – uma delas de nove horas – e da recuperação que uma das médicas da Santa Casa chamou de milagre, o dramaturgo Mário Bortolotto, 47 anos, recebe Trip em sua quitinete, no centro da cidade. Foi então sua primeira entrevista após o incidente de 5 de dezembro de 2009, no Espaço Parlapatões, na praça Roosevelt – lugar que ajudou a transformar em polo cultural nos últimos anos.

O que aconteceu naquela noite?
Eu estava bêbado, não lembro muita coisa. Mas a gente estava no bar, entraram uns caras, intimaram. Um deles deu uns empurrões na Guta e na Manu [as atrizes Guta Ruiz e Maria Manoela]. Mandou deitar no chão, e me neguei. Ele me deu uma coronhada na cabeça. Aí enfrentei ele. Lembro de ter levado os tiros e caído. Ouvi o [ilustrador] Carcarah, que também levou três tiros na perna, gritando: “Acertaram o Mário!”. Aí só lembro quando acordei no hospital.

“Ele mandou deitar no chão, e me neguei. me deu uma coronhada. Aí enfrentei ele. Lembro de ter levado os tiros e caído”

Você se arrepende de ter reagido?
Não me arrependo de ter discutido. Porque deitar no chão servilmente não faz meu estilo, ia sentir vergonha. Mas, se estivesse sóbrio, fatalmente teria tentado conversar. Não teria agredido o cara. Já tive essa atitude com um monte de bandido. Mas, como estava bêbado, estou aqui, tentando me recuperar. Uma pena, né? Ao mesmo tempo, tenho que ficar feliz porque vou voltar a fazer tudo o que fazia antes.

Muita gente relaciona o nome do seu blog, Atire no Dramaturgo, e o teor violento de suas peças com o que aconteceu
O nome do blog é homenagem ao livro de David Goodis, Atire no pianista. E vai continuar assim. Nas minhas peças, falo sobre o que estou vendo, vejo o mundo de maneira cruel. Se o mundo não fosse cruel, o cara não teria me dado quatro tiros. O mundo não é uma novela do Manoel Carlos. Não tenho medo da violência, nem quando enfrentei o cara no bar nem na frente do computador.

Mário tem intimidade com a violência. Nascido e criado em Londrina (PR), ele, que é o segundo de três filhos, passou a infância vendo o pai chegar bêbado e bater em dona Maria, sua mãe. Até que, aos 18 anos, mudou o script e, numa dessas situações, foi para cima do pai. O derrubou com uma chave de braço. Seu José não falou nada na hora. Não era de conversar com a família, só com os amigos. “Se troquei cinco palavras durante a vida inteira com meu pai, foi muito”, lembra o dramaturgo, que, dois dias depois, via TV no sofá quando sentiu o cano do 38 em sua cabeça.

– Se você tentar fazer isso comigo outra vez, acabo com você – ameaçou seu José.

– Pai, não quero fazer isso. Mas, se machucar minha mãe, eu vou fazer.

Embora se esforce para controlar, Mário reconhece ter herdado a violência do pai – e da mãe, “que também dava umas surras violentas. Uma vez quebrou um rodo nas costas do meu irmão, porque ele chegou tarde”.

Você considera seus textos violentos?
Devo ter cinco peças violentas pra caralho. Mas a maioria é existencialista, melancólica, sobre pessoas solitárias, que se perderam. Ao mesmo tempo, sempre o que fica, no fim, é que as pessoas podem virar a mesa. Mesmo as mais violentas têm uma esperança do tipo: “Não precisava ter acontecido nada disso”.

Você acha que não precisava ter acontecido nada disso com você?
A praça [Roosevelt, em São Paulo] ficou muito perigosa. Assaltar teatro é o último grau. Quer assaltar, assalta banco, joalheira.

Vocês do Cemitério de Automóveis (grupo fundado por Mário há 27 anos), Os Satyros e o grupo Parlapatões ajudaram a revitalizar a praça, e justamente lá você foi atingido...
Pois é, sempre foi ideia da gente transformá-la num polo cultural, mas a lei do silêncio vai fodendo, porque obriga os bares a baixar a porta à uma da manhã. Mas não fecham, então o bar vira uma arapuca, ninguém sabe o que acontece do lado de dentro. Recentemente um amigo meu foi assaltado lá e outro moleque foi esfaqueado. Um cara dos Jardins que quer assistir a uma peça lá fala: “Não vou, é onde atiraram no Mário”. Foi uma batalha de seis anos para transformar a praça num lugar em que as pessoas não tivessem medo de ir e esse trabalho está ruindo. A partir de agora, vou tomar mais cuidado. Se vai baixar a porta, vou sair dali. Sempre fui um cara cuidadoso. Se tiver dois caminhos, e um deles for mais longo e mais seguro, vou por ele.

Pensa em transformar isso em dramaturgia?
Não. Podem entrar reflexões sobre isso nos próximos trabalhos. Mas jamais vou escrever um texto com um personagem que foi baleado.

O pai de Mário morreu de atrofia cerebral em 1992, por causa do excesso de álcool. Mesmo assim, o dramaturgo bebe desde os 12 anos quase todo dia. Mas não se considera alcoólatra.

O que mudou na sua vida?
Nada, porque acredito nas mesmas coisas. Não vou me converter, virar santo nem bom rapaz. Mas estou repensando a vida. Não gosto de confusão, não saber o que fiz ou como cheguei em casa. E isso estava se repetindo, principalmente no último ano, pela bebida. Sou calmo, aparto muito mais briga do que brigo. Decidi parar com o whisky porque ele me tira do prumo. Vou tomar só cerveja, que, para um cara que tomou whisky por 30 anos, é água. Mas esse era um movimento que já vinha acontecendo.

Como assim “um movimento que já vinha acontecendo”?
Eu estava almejando me transformar num cara mais profissional. Queria voltar a ter aquele amor que tinha pelo meu trabalho. Nos últimos três anos, quando dava oito da noite, ia pro bar beber e ficava até dez da manhã. Acordava às três da tarde, tentava escrever, mas minha cabeça estava ruim. Sempre escrevi sóbrio. Já cheguei a escrever sete peças num ano. E nesses três últimos anos fiz só Uma pilha de pratos na cozinha, que foi encomendada. Ficou bacana porque sei fazer isso. Como todos os últimos trabalhos, foram na base do talento puro. Faço isso há 30 anos. Mas estava sem alma, era sempre mais um trabalho que eu tinha que acabar logo pra ir beber. Eu estava preguiçoso. É muito mais fácil encher a cara do que escrever. Estava um bunda-mole, achando bonito ser um bêbado querido. Todo mundo vinha: “O Mário é um grande autor, Mário é o cara”. O Mário não era o cara. Estavam falando de um cara que já existiu, agora eu era esse chato que bebe até de manhã. Eu não estava me admirando mais.

Tentou mudar de atitude antes do assalto?
Eu chegava no bar e pedia uma água. Queria ficar sóbrio, ir embora cedo. Mas acontecia muito de um amigo pagar um whisky. Então eu bebia outro e outro e quando via tava no turbilhão de novo. Estava chata essa vida. Agora vou aproveitar minha vida de uma forma mais positiva.

“Oito da noite ia pro bar beber e ficava até dez da manhã. Acordava três da tarde, tentava escrever, mas a cabeça tava ruim”

Você está com saudade de beber?
Não tenho a menor vontade de ir pro bar. Bicho, fazer o que lá? Vou ter que explicar para todos como foi, o que estou sentindo...

No hospital, Mário recebeu a visita do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, e do governador do Estado, José Serra. Quando saiu, não se sentiu apto a reconhecer seu agressor. Agora, sentado na poltrona onde passa a maior parte do tempo, reclama de dor nas costas, desacostumado à postura ereta que os ferimentos exigem. Apesar da cicatriz horizontal que atravessa o peito, das duas balas alojadas no corpo e das placas de titânio que agora fazem parte do braço esquerdo, o mais difícil é ter paciência com a mão, que perdeu temporariamente a agilidade com o impacto. Acostumado a digitar com os dez dedos sem olhar para o teclado, anda “catando milho”. Na hora de dormir, resmunga por ter que ficar de barriga para cima e só pegar no sono lá pelas oito da manhã, mesmo quando toma Rivotril.

Vez por outra, a entrevista é interrompida por Isabela, sua filha com a ex-mulher, a atriz londrinense Christine Vianna. Aos 18 anos, a garota foi para São Paulo assim que soube do incidente e controla horários e remédios do pai. “Achei que ele fosse morrer”, conta ela. “Nunca havia me preocupado, achava que era impossível acontecer alguma coisa com ele”, confessa. Na hora das refeições, pai e filha vão a restaurantes próximos, já que a quitinete não tem fogão. Conversam pouco. “Parece que a gente se conhece tanto que nem precisa falar”, resume Mário, que fica com a voz embargada quando o assunto é a filha.

“Minha filha cresceu de uma maneira de que me orgulho, sabe o que quer, é um mulherão. tudo sozinha. Sempre me achei um pai de bosta”

Você fica emocionado quando fala da sua filha. Por quê?
É... Eu nunca planejei. Ela foi intrusa, “vou nascer e pronto”. Quando ela nasceu, morava na casa da avó, eu a via pouco. Teve um momento que morei com ela e a Chris, em Londrina, um pouco antes de vir para São Paulo [em 1996]. Foi o único momento família da minha vida. Durou uns cinco meses [pausa]. Tenho saudade dessa época. A Isabela devia ter uns 4 anos. Eu saía com ela de mão dada na rua, buscava na escolinha. Ela tinha que falar para os professores: “Ele é meu pai”, porque achavam que era um cara que sequestra criança [risos]. Logo depois vim pra São Paulo e comecei a pirar de novo. Depois eu a via nas férias. Mas ela foi crescendo de uma maneira de que me orgulho muito. Ela sabe o que quer, é um mulherão. E foi tudo sozinha, né? Hoje não consigo conceber minha vida sem ela. Sempre me achei um pai de bosta, mas hoje acho que devia ter tido mais uns três...

Ainda dá tempo...
O foda são as mães [risos].

Você tem vontade de casar de novo?
Cada dia acredito menos em casamento, em pessoas vivendo juntas. Eu vejo muito mau exemplo. Vejo pessoas que dizem que se amam e estão sempre traindo, vejo muita frivolidade, briguinha à toa, egoísmo. Tenho receio. Não que às vezes eu não pense. Não sei se casar, mas conviver com uma mulher, dividir coisas, falar: “Essa é minha mulher”. É bacana isso. Não sei se consigo. Mas tenho inveja de quem consegue.

Nos últimos tempos, você contou, no blog, que ficava bêbado e ligava para mulheres de madrugada...
Fiz muito isso. Ficava bêbado e ligava para mulheres que gostavam que eu ligasse. Às vezes até estavam dormindo, acordavam para me ouvir. Era uma época que eu estava bêbado carente. Vem da coisa de não estar me preenchendo mais essa vida no bar, com muita gente perto. Ao mesmo tempo que é meio patético, acho poético um cara estar triste, sozinho, de madrugada, ligar pra uma mulher de que ele gosta.

Quando Mário abriu os olhos na UTI, onde ficou 13 dias, sua filha estava perto da cama e o viu derramar uma lágrima. Mas a primeira coisa que o dramaturgo lembra ter visto foi o sorriso da mãe dela, Christine, sua ex-mulher. Em seguida, viu a irmã mais nova, Eliane, que mora em Londrina, e o irmão, Joselito. A partir daí, o dramaturgo não parou de receber visita dos amigos, que montaram até uma escala para fazer rodízio.

O que você sentiu quando viu que estava vivo?
Pensei: “Pô, estou aqui ainda”. Quando vi que estava todo entubado, senti muita angústia. As enfermeiras tentavam falar comigo e eu não conseguia responder porque estava com um tubo na boca. Dois dias depois, quando tiraram, foi uma felicidade inexplicável. Já era alguma coisa.

Mário atribui o mérito de ter salvado sua vida à Fernanda D’Umbra e ao Fábio Brum, seu companheiro da banda Saco de Ratos Blues, em que o dramaturgo é vocalista. Ela estava em São José do Rio Preto (SP), sua cidade natal, quando os médicos começaram a dar boas notícias. De volta a São Paulo, foi visitar Mário em casa. “Eu falei: ‘Levanta, me dá um abraço’. Na hora que ele ficou de pé, chorei tudo o que não tinha chorado desde aquela noite”, conta ela.

Mas, se não tivesse aberto os olhos, o dramaturgo teria deixado uma obra vasta e muitas histórias. Era coroinha da igreja desde os 8 anos. Embora nunca tenha pensado seriamente em ser padre, entrou para o seminário, em Ourinhos (SP), aos 12. Viu naquela decisão a possibilidade de sair de casa. Ficou lá cinco anos, quando descobriu o talento para escrever nos Sábados Literários, em que fazia apresentações de música e teatro. No último ano do ensino médio, foi convidado a se retirar do seminário por “não ser boa influência aos colegas”.

Mário tem mais de 50 peças e dois romances escritos – e está decidido a completar o terceiro neste ano. Em 2000, ganhou um prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte pelo conjunto da obra e o Shell de melhor autor por Nossa vida não vale um Chevrolet. Em 2008, participou das filmagens de Augustas, de Francisco Cesar Filho, e, este ano, estreia no longa Luz das trevas, de Helena Ignez. No dia do assalto, acabara de assistir à montagem de Brutal, de sua autoria. Ainda vai dirigir a peça Música para ninar dinossauros em março, no festival de Curitiba; no mesmo mês, estreia como ator em Êxtase, espetáculo de Mauro Dias Batista, no Centro Cultural Banco do Brasil (SP); e, em abril, começa a rodar Nove crônicas para um coração aos berros, filme de Gustavo Galvão.

Você se sente grato por ter sobrevivido?
Me sinto, claro. Sinto gratidão pelos médicos que me salvaram, pela Fernanda e pelo Fábio Brum, por todos os meus amigos que rezaram por mim e até por quem não me conhece, mas rezou também. E sou grato a Deus por ter me ajudado a sobreviver. Mas muita gente me escreveu reclamando que não agradeci a Deus no blog. Eu sou católico, mas não vou transformar o que aconteceu numa plataforma de pregação.

Quando você ainda estava na UTI, o escritor Marcelo Rubens Paiva se referiu a você como o “Rei da Ralé”, no blog dele. O que acha de ser porta-voz de um grupo?
Não quero virar mártir nem porta-voz de nada. Sou só um cara que vive de acordo com seus princípios e que pode morrer porque tem princípios. O moleque que mandou eu deitar no chão atacou princípios meus. Levei os tiros e fiquei dois dias sem existir. Agora estou aqui, porra, vamos ver o que posso fazer a partir disso. O que sei é que estava me faltando tempo, agora vai me sobrar.

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