por Ronaldo Bressane

Sérgio Sant’Anna gosta de dar umas voltinhas pelo mundo antes de se enfurnar nos livros. Recém-chegado de Praga, ele conta suas experiências entre Europa e EUA

Mais mineiro dos escritores cariocas, vivendo há 30 anos isolado em seu amado bairro dos Laranjeiras, Sérgio Sant'Anna gosta de dar umas voltinhas pelo mundo antes de se enfurnar nos livros. Recém-chegado de Praga, ele conta suas experiências entre Europa e EUA.

Maio de 68 em Paris

“Na primeira viagem sozinho pra Europa, eu tinha 19. Só fiz merda. Cheguei a Amsterdã e logo fui a um cabaré, saí com uma mulher que em um mês torrou meu dinheiro, aquela desgraçada ordinária... Só tinha dinheiro da passagem de volta. E eu passei os outros dias só na base do café-da-manhã num hotelzinho que meu pai já tinha pago. Em Roma aluguei uma lambreta, passei oito dias desorientado. Não pensava em ser escritor, mas já tinha a idéia, quem sabe um dia... Gastei bastante em livros, e conheci muitos outros viajantes solitários. Nessa época sem turismo, só quem viajava solo eram os beatniks. Voltei a Paris cinco anos depois, com a Marisa e o André [também escritor, autor de Sexo e Amizade], que fez 3 anos em Paris. Como sou formado em direito, tinha um apêndice da minha bolsa que era no Instituto de Ciências Políticas. Quando me inscrevi como auditor livre, vi que só tinha de ir ao instituto para me mostrar. Fiquei oito meses lá, só lendo, indo a teatro, cinema... Quando acabava o ano letivo, deu o Maio de 68, que desorganizou a universidade. Foi uma rebelião anarquista: hoje, acho que o maior saldo foi a liberdade existencial, inclusive contra o comunismo internacional, um troço careta, fechado, opressor. Minha geração foi imbecil, acreditava no marxismo. Eu me sentia mal, porque estava engajado num grupo que lia muito para aceitar aquela baboseira ideológica como verdade. No meu íntimo, do mesmo jeito que não podia aceitar a verdade católica que me ensinaram, não podia aceitar os princípios dogmáticos marxistas.”

O metrônomo de Praga

“Eu gostei muito de Praga, e estava lá com um objetivo que também era bacana [Sant’Anna passou um mês na República Tcheca a convite do projeto Amores Expressos como preparação para um romance]. Mas eu não estava escrevendo nada como um trabalho: estava flanando, vendo o que me interessava. Como não tenho câmera nem laptop, trouxe um monte de anotações, pegando tudo o que era panfletinho que me interessava, desde prostituta até propaganda... Conheci uma Praga kitsch, do Museu de Cera, do Museu das Máquinas Sexuais. É uma das cidades mais bonitas do mundo, e uma das mais deliciosas para conhecer a pé. Eu tinha ido lá pouco antes do Maio de 68, bem na época da Primavera de Praga. Estávamos eu, a Marisa, minha mulher, e meu filho André. Compramos uns fantoches e eu improvisava histórias na hora para o André. Ele não conta, mas foi aí que aprendeu tudo. Só que agora prefere histórias pornográficas [risos]... Naquela época era tudo precário, sem infra. Tinha pouco táxi, e também poucos turistas, o que era uma vantagem. Meses depois, os russos entrariam lá com os tanques... Hoje há uma coisa muito bonita em Praga: no lugar da estátua do Stálin, fizeram um grande metrônomo, que simboliza a passagem do tempo.”

Pega-pega no metrô londrino

“Foi a viagem em que mais aprendi na vida. Fiz 12 anos na Europa. Meu pai foi fazer pós na London School of Economics, aí a família se mudou. Meu pai era um viajante compulsivo, levava os filhos para ver tudo,mar, Cambridge, Oxford, conhecemos a Inglaterra inteira, depois fomos pra França, ficamos seis meses em Paris e antes de voltar para o Brasil a gente foi para Holanda, Bélgica, Alemanha, Áustria, Itália, Espanha. Eu e meu irmão [o também escritor Ivan Sant’Anna, autor de Caixa Preta] fazíamos uma bagunça... Meu pai era liberal, soltava os filhos na rua, deixava a gente sair sozinho. Era o pós-guerra, em 1953 Londres, que era a maior cidade do mundo, ainda tinha racionamento de comida, quarteirões inteiros bombardeados, na Alemanha, você via os alemães... a gente é treinado a considerá-los os bandidos, né?, e você os via morando em escombros, no inverno, em montões de lixo... Crianças aprendem mais rápido, e a gente matava aula só pra ficar passeando: apostava corrida, cada um ia por um caminho pra ver quem chegava primeiro. Minha memória é muito fresca daquela época. Lembro de todas as estações de metrô, as rotas... Posso esquecer coisas recentes, mas não o que me aconteceu aos 12 anos em Londres, assim como não esqueço a escalação do Fluminense de 1951!”

Muito fumo em IOWA

“O golpe final para me descolar da esquerda foi quando fui a Iowa, nos EUA, no Programa Internacional de Escritores. Lá convivi com escritores de países socialistas: sempre mandavam dois, porque um vigiava o outro [risos]. Também muitos do Japão, Indonésia, Filipinas. E eu era um dos mais novos, porque era política da Fundação Ford. Os Estados Unidos eram um país fascinante, muito fumo e rock, dentro de uma cidade universitária americana você respirava liberdade. Artisticamente, o país vivia grande efervescência. E estava lá dando um curso o Bob Wilson, um dos melhores escritores de teatro, era jovem nessa época. O teatro de Wilson mudou a minha cabeça totalmente. Se eu tivesse ficado em Minas, cairia numa literatura perigosamente intimista. Ainda sou um cara reflexivo, mas com uma abertura do exterior.”

30 dias em branco

“Praga não é grande, lá só andei a pé, em quatro dias estava safo. Fiquei só e foi ótimo, porque você é obrigado a falar uma língua estrangeira. E nesse programa você tem o objetivo de criar uma história, assim minha imaginação funcionava o tempo todo, sem preocupação. Fui ver teatro de sombras, de marionetes. E muita coisa de Kafka... Tem um novo Museu Kafka. As coisas do Kafka, a casa onde nasceu, o bar, não são como eram. O café Arcos, que o Kafka freqüentava, é interessante, mas quando ele bebia lá era um bar vagabundo. Hoje é um lugar clean. O bacana é que nesse novo museu utilizam meios modernos de expressão, como instalações, projeções, tem um filme numa praia toda deformada, música, frases dele, fotos das mulheres dele, manuscritos. Tem uma instalação sobre O castelo, um corredor em que você ouve coisas como “You are a stranger, you are nothing”, e de repente brota um castelo do chão, passam pessoas pulando, rastejando, fugindo. Engraçado que o turista médio é um idiota: não vai ao museu do Kafka, e, se os turistas japoneses entrassem, você não veria mais nada. Deve haver uma incompatibilidade entre japoneses e Kafka... Podia ser um princípio de literatura comparada [risos]. E, apesar de Kafka não ser uma coisa alegre, turística, camiseta e souvenir com retrato dele tem aos montes. Havia lá também uma exposição do Andy Warhol, e falei para uma amiga tcheca: foi o Warhol quem anunciou – no futuro, o Kafka ia virar camiseta... Para o romance que escrevo, a princípio pensei em usar as mulheres de Kafka. Voltei de Praga cheio de idéias. Vou precisar de bem mais de um ano para escrever... pra escrever um conto, até quatro meses é pouco. Não vai ser uma história de amor monogâmica, vão ter umas bruxas, umas coisas bizarras com bonecos, vai ser muito ligado a erotismo. E olha que fiquei absolutamente na minha, ascético: 30 dias em branco! [risos]”

Créditos

Imagem principal: Arquivo pessoal

Fotos: Arquivo pessoal

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