por Lucas Pretti
Trip #238

Longa ucraniano A Gangue choca sem nenhuma fala, mas com linguagem universal: a violência

Quase todo filme de minoria oprimida cai em algum tipo de bom-mocismo ou redenção — e talvez por inverter essa premissa o filme de estreia do diretor ucraniano Myroslav Slaboshpytskiy tenha levado o Grande Prêmio da Semana da Crítica em Cannes. Os surdos que formam A gangue (Plemya, 2014, 132 min.) não só barbarizam entre si e com o mundo, como também tiranizam quem em tese deveria ser poupado. 

Sergey é um garoto surdo chegando a um colégio interno especializado em alunos como ele. Para sobreviver à lógica violenta dos colegas, entra para uma gangue no comando de uma rede criminosa. Escolha entre o cardápio de cenas chocantes: assassinato hediondo, aborto, prostituição infantil, tortura. E agora imagine tudo isso sem legendas e sem nenhuma fala. 

O filme também foi tão festejado em Cannes e teve quatro exibições na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo porque inovou ao ser todo com personagens surdos que se comunicam apenas com linguagem de sinais. Portanto, a estrela do filme é a experiência de vê-lo — 20 minutos depois, o espectador esquece que diálogos são necessários. Sobressaem o desenho sonoro e de câmera: som e imagem, a linguagem cinematográfica em si. Cinéfilos amam.

Fazer tudo isso com final feliz, música alegrinha e mensagem motivacional seria mais óbvio. Ao contrário, o plano-sequência que finaliza o longa consegue ser mais pesado do que a cena em que Sergey humilha um colega com síndrome de Down. 

A sessão de estreia de A gangue em São Paulo arrancou sustos da plateia, que se contorceu na cadeira em algumas cenas. Críticos saíram da sala se perguntando se este seria o mais violento do ano ou se superaria Irreversível (França, 2002) e Miss Violence (Grécia, 2013), outros dois totens da barbárie humana. Talvez sim, por não usar uma palavra. Selvageria e bestialidade são universais.

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