por Paulo Morelli
Trip #194

Sem ligar para a fama e as cotações do mercado, Jorge Bussab faz arte apenas pelo prazer

 

Sem ligar para a fama, as cotações do mercado e as últimas tendências, Jorge Bussab faz arte apenas pelo prazer... de fazer arte. Aos 84 anos, ele segue trabalhando todos os dias sozinho em sua casa para criar obras que façam pensar

Em uma época em que a palavra mais repetida no universo da arte é “mercado”, Jorge Bussab torna-se uma peça cada vez mais rara: um artista puro. Aos 84 anos, com sua fala suave, elegância natural e cabelos brancos penteados para trás com gel, ele trabalha solitariamente no ateliê de sua casa no Brooklin, em São Paulo, sem se preocupar com questões como fama, cotações, tendências.

Bussab começou cedo – “com 10 anos já pintava muitos paisagens, tudo muito inicial, feito no papel” – e nunca mais parou – “eu sempre trabalhei muito, às vezes em plena madrugada, porque eu tinha que dividir meu tempo com outro trabalho, vendia algodão para fiações”.

Até os 38 anos, ele não participou de nenhuma exposição – o que faria muito artista em busca do sucesso fácil desistir. Mas ele preferiu continuar se aperfeiçoando com seus dois mestres: Aldo Bonadei e Carlos Blank. “Foi uma experiência magnífica ter trabalhado com o Bonadei. Não eram aulas formais, mas ele me cobrava incessantemente. Eu precisava pintar todos os dias, pois ele achava que só assim um pintor pode ficar bom”, lembra. “Já Blank era um grande artista, mas ficou pouco conhecido porque era bem menos sociável. Quando aparecia algum jornalista para entrevistá-lo, ele o dispensava. Falava que preferia ir tomar uma cervejinha e tal.”

Para Bussab, o reconhecimento chegou aos poucos. Em 1965, fez sua primeira exposição, na Galeria Brasileira de Arte, em São Paulo. Em 1977, foi a vez da estreia internacional, com uma mostra em Córdoba, Argentina. Na cidade onde mora, suas esculturas podem ser vistas na Assembleia Legislativa (uma peça de ferro de 2m de altura chamada Erectum), a Casa de Cultura de Santo Amaro e o Sesc Ipiranga.

Suas pinturas variam bastante de temas e estilos.“Eu passei pelo figurativo. Daí fui para o expressionismo, fiquei um tempão no simbolismo e, depois, cheguei ao abstrato.” Ele também mudou de suporte recentemente. “Eu parei de trabalhar em tela, pois não cabe mais no meu ateliê e o custo é alto. Agora faço tudo no cartão.”

Além da pintura, Bussab também faz gravuras, cerâmicas e esculturas – estas últimas são em geral homens e mulheres estilizados, de ferro. Ele vem diminuindo as proporções de suas esculturas, que costumavam passar de 2m. “Fiquei proibido de pegar peso, por causa de um problema no ombro. Agora faço coisas menores”, conta. “Isso me fez ir para as joias, que não deixam de ser esculturas. Mas ainda não mostro as peças, estou só no começo.”

ARTE VIROU CHICLETE

O artista mora sozinho em sua casa de 400 m2, pois ficou viúvo há dez anos e seus três filhos saíram de casa. Por 39 anos, ele foi casado com a bibliotecária Maud. “Ela era filha de libanês como eu. Vivia falando que morreria antes de mim. Eu brigava, afinal eu era dez anos mais velho. O quarto dela era do lado do meu ateliê. Quando ela vinha me visitar, eu pouco dava bola. A gente não dá valor quando tem as coisas, né?”


Nos jardins de sua casa, há várias de suas esculturas; nas paredes, centenas de obras suas, de Bonadei, Blank e outros artistas. Ele já não produz a própria tinta, mas guarda em seu ateliê, como lembrança, os produtos usados nessa tarefa. São garrafas com aguarrás, gasolina, vaselina pura, álcool 96o, óxido de ferro, óleo de linhaça, óleo de motor e pigmentos azul, vermelho e amarelo. Ele se diz preocupado com a segurança em São Paulo e lamenta ter sido preciso levantar um muro em sua casa depois de três assaltos. “A entrada ficou parecendo uma prisão, mas foi o jeito de morar sossegado.”

Bussab não frequenta o circuito das artes. Nem a Bienal de São Paulo ele pretende visitar. “Já sei que é muito fraca mesmo só vendo nos jornais. Muita coisa hoje em dia é lixo, enganação. Uma vez eu estava no museu Guggenheim e vi uma instalação. Num dos cantos tinha uns 300 kg de chiclete. É, meu chapa... a arte virou chiclete. E por que muitos críticos elogiam? Porque eles são iguais aos artistas. Uma enganação também. A boa arte é aquela que te faz pensar.” Para Bussab, artista mesmo é Van Gogh – que vendeu só um quadro em vida e também nunca se preocupou demais com a fama.

 

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