Analise Quase Existencial dos Outros
OS OUTROS
Uma pequena sementinha cresce. Transforma-se em uma planta, depois em árvore. Quando plenamente desenvolvida, essa árvore dá flores e frutos. Realiza sua substância e atinge sua finalidade. Antes desse processo paulatino, a semente precisa sair de si mesma para desenvolver o código genético da árvore.
Refletindo sobre isso cheguei a uma conclusão sobre o que considero o maior problema de cada um de nós: os outros. Esse é um problema que necessitamos. E necessitamos absolutamente. Nós, praticamente, vivemos para os outros. Nos vestimos com belas roupas para que os outros nos admirem (as vezes até queremos que morram de inveja!) e aceitem. E não é pôr outro motivo, desde que não sejamos narcisistas, que nos cuidamos fisicamente.
Nos ilustramos, coletamos informações e nos educamos para a relação com os outros. Claro que há curiosidade, a vontade de saber inata também. Mas o outro é sempre o alvo. É no sucesso ou no insucesso de nossa relação com ele, que se estrutura nossa sanidade ou insanidade. O outro influencia nossa vida pôr dentro e pôr fora de nós.
Começo, meio e fim; nascemos, somos cuidados e educados pôr outras duas pessoas. Elas continuam em nós para o resto da vida, porque é delas que assimilamos o mundo. Somos ilhas cercadas de pessoas. Depois morremos aos cuidados dos outros.
Vivemos e morremos frustrados. Nos digladiamos para reter pessoas conosco e não conseguimos. Elas não são nossas. O outro é uma liberdade a se realizar, como queria J.P.Sartre. Não é palpável. É volátil. Esta, mas não esta para nós. Esta somente em si mesmo. Só o temos quando deixamos de querer para nós e o aceitamos conosco.
O outro é um estranho. Impenetrável a nós, só ele pode se dar a conhecer. É dono de um mistério só seu. Na verdade, somos estranhos até a nós mesmos. Vivemos a nos surpreender. O outro é também esse espelho convexo no qual nos enxergamos.
O outro pode também ser nosso anjo ou demônio. Trás em si, na relação conosco, o céu ou o inferno. Pôr outro lado, todo mal não é mal realmente. Apenas problemas que carecem de respostas. Solucionando, crescemos.
O maior medo é a solidão. Parece buraco mais fundo que a própria sepultura. É a distancia do outro. Esse mesmo outro que dá sentido à nossa vida. Nos falta coragem para existir com os outros, então nos prendemos aos outros. Porque estamos presos em nós mesmos. Presos ao medo de sair do conhecido e controlado. Temos medo de derrubar as muralhas da segurança com as quais nos cercamos.
O outro é o companheiro, filho, pai, familiar e amigo. Pessoas às quais nos prendemos, aterrorizados diante da perspectiva da solidão. Imunizamos-nos contra nossos mais ricos sentimentos pelo medo, essa névoa fria das madrugadas.
Não estamos seguros quando nos julgamos seguros. Não se consegue fugir das coisas que se quer fugir. Melhor arriscar e buscar controlar o medo. Necessário se faz aceitarmos o desafio de existir profundamente com os outros, aceitando sua diferença de nós.
Nas ruas congestionadas, conduções superlotadas, no trabalho, no lazer, o outro é a pujança da vida em festa. Resistir ao medo da solidão é tornar livre para amar. Encontramos nos outros o que os outros encontram em nós. As pessoas vão errar conosco. E nós com eles. Errando, estamos próximos aos outros: todos erramos, e muito. Decepcionaremos e sermos decepcionados, mas isso não é desculpa para ficarmos em nós. Somos destinados aos outros.
O outro é alguém que não sabemos se devemos confiar. Gostaríamos de evitá-lo e somos convocados a procurá-lo. Seremos feridos e magoados e vamos ferir e magoar, essa é nossa vida. É aquela semente que deu origem à árvore. A mágoa e a dor fazem parte da imensa paixão que é viver. Se o outro traz mágoa e dor; só ele pode trazer também a alegria e a felicidade. Essas são as flores e os frutos de nossa existência. A possibilidade do bom e do belo.
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Luiz Mendes
18/06/2010.
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