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A VINGANÇA DE ORLANDO

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Eles se conheceram no apartamento dela apresentados por amigos comuns.
Levado àquela reunião meio de surpresa, ele não teve nem tempo de vestir uma roupa melhor. Foi mesmo com a roupa que vestia, uma camiseta com aquelas stampas que não querem dizer absolutamente nada e uma bermuda de surf verde. De longe, lembrava o uniforme 2 do Palmeiras. Nos pés, meias brancas e uma tênis sem novidade. Ela usava um vestido preto da G, elegante, e que não fazia força para esconder os ombros largos e a barriga seca e, às vezes, os contornos da calcinha branca. Ela havia cortado Channel há dois dias. Ele estava meio envergonhado. Não se barbeava há dois dias e se imaginava com aquela mancha escura do rosto igual à dos irmãos metralhas.
No apartamento, cenário digno de comercial de cigarro light, algumas peças de designers famosos, espaços vazios para respiro, paredes patuadas e um terraço com vista para a cidade e para boa parte do Ibirapuera. Poucos quadros na parede. Não diziam muito a ele, mas deveriam ser caras, como a chaise longi de pele de vaca, molhada e o tapete imitando (ou seria de verdade) pele de zebra.
Ele pediu uma cerveza. Não tinha. Aceitou um copo de whiski, só pra não ficar sem um bom uso para as mãos. A conversa começou agradável mas, por mais que se controlassem, os convidados disparavam a contar sobre suas vidas, viagens, amores e outras coisas. Ele preferiu a segurança uterina do silêncio. Tinha, na verdade, um pouco de vergonha. Não tinha feito faculdade. Na verdade chegou a começar mas trancou. Com a chave dentro. Resolveu trabalhar com o pai, dono de papelarias.
Ele tinha passado boa parte da adolescência andando de skate e ultimamente caíra de paixão pelo mar e pensava muito em surf. Ele mesmo se convenceu. ‘Um ex-eskatista, atual surfista, eu devo ser um burro. É melhor não abrir a boca.’
Ela tinha a sua idade, 27, mas parecia ter vivido muito mais. Contava com fluência e sem cerimônia seus dois casamentos desfeitos, safáris na África, aventuras exóticas pelo Caribe, temporadas de esqui nos Alpes italianos. Ele já tinha viajado cinco vezes. Quatro foram para Punta Hermosa, em lugarejos onde se come um bom frango assado e as ondas são muito bonitas. A quinta foi uma viagem para Europa, quando ainda era moleque. Não se lembra de muita coisa. Ela contava, enquanto isso, a entrevista que dera na véspera à revista Mulher Internacional, onde o assunto era a questão da mulher no trabalho. Soava bonito o título. Quase tão chic quanto o porta-CD de ferro envelhecido onde estavam espetados clássicos do cool como Chet Baker e Miles. Ele pensava em silêncio: ‘Eu, no máximo posso me considerar um collzão’.
Jamais se atreveria a dizer que gosta mesmo é de ouvir Black Flagg, Nine Inch Nails e o novo do NOFX. Seria ainda mais ignorado. Afinal de contas, quem tem um sofá fofão de veludo vermelho da Forma na sala jamais iria achar graça em filhotes de Ramones.
De vez em quando, enquanto ouvia desatento as conversas, ele tentava remexer na memória, trechos de ‘Eduardo e Mônica’, do Legião, que ouvia nas primeiras vezes em que foi para o litoral pegar ondas.
A música vinha fácil. A letra não. Só o significado. Havia uma passagem que dizia que Mônica pintava os cabelos e ia à festas muito loucas enquanto Eduardo ficava em casa com o avô vendo os filmes na TV.
Realmente era melhor não abrir a boca. A não ser para comer. Afinal, essa era uma necessidade medíocre, porém, ele tinha certeza, comum a todos. Um bolo com cara boa repousava na copa Kitchen toda branca do apartamento. Num dos raros momentos em que tirou o olho do bolo, deu de cara com um poster enorme que pegava a parede de alto a baixo. Era a reprodução de uma pintura com um logotipo do MOMA de NY no rodapé.
Na pintura, uma ponte com homens orientais correndo em ambas as direções buscando abrigo da chuva que cai forte. Ele sabia já ter visto em algum lugar aquela imagem que, de tão simples, ficara gravada em seu hard disc de massa cinzenta. Resolveu arriscar. Enquanto ela cravava uma faca laser na massa do bolo, ele disparou num misto de orgulho e insegurança. ‘Isto é uma reprodução de Van Gogh!’.
Toda ação produz reação contrária de igual intensidade. Só na física. Naquela copa, a reação foi duas vezes mais intensa. ‘O que? Cara, você não tá vendo as letras japonesas em volta do quadro? Não viaja, isto é outra escola! Por favor não me decepciona.’
Ele pensou em defender sua convicção até a morte, mas aquele calção verde mostrando as canelas finas não lhe emprestavam nenhuma autoridade. Além disso, estava muito constrangido. Foi, trocando em miúdos, ‘tirado de jegue’. Mastigou o bolo com saliva e fel. Passou o resto da noite calado, ouvindo as conversas, olhando as mobílias e as calcinhas que insistiam em aparecer, revelando volumes e formas dignas de Van Gogh. As duas e meia da manhã, pediu licença e foi embora calado, pensando em chegar na casa dos pais onde mora, ali perto do Ceasa.
No dia seguinte, ela chega vitoriosa, num vestido lindo com decote, ao 3º piso do Shopping. A uns vinte metros da vitrine de sua loja, percebe um volume diferente perto do balcão. Um quadro coberto com vidro, moldura de madeira preta, um plástico celofane e quatro cantoneiras de isopor para proteção. No canto do pôster, em letras miúdas, estava: JAPONAISERIE: THE BRIGDE IN THE RAIN – PARIS 1887 – OIL ON CANVAS – VINCENT VAN GOGH *1853 – 1890 +.
No centro do quadro, um laço de fita vermelho e um pequeno envelope com o nome dela do lado de fora e as letras e.m.. Constrangida, envergonhada, ansiosa, ela abriu o envelope. Encontrou um cartão totalmente branco, sem nada escrito. Ele até tentou escrever. Mas jamais seria capaz de contar a ela o tempo que passou olhando para aquele quadro no museu em Amsterdã e como teve que insistir com seu pai para que comprasse aquele pôster na loja do museu. O velho dizia que reprodução de quadro importante era brega e, depois, quem iria carregar aquele canudo o resto da viagem?

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