Um companheiro de prisão me procurou. Rapaz novo, seus olhos brilhavam sobre um fundo vermelho. Parecia brilho antes da chama. Havia algo nele, senti. Afirmou que escrevia. Queria orientação acerca de como montar e publicar um livro. Descansava. Meus olhos ardiam de tanto escrever. Luzes se quebravam pelos degraus em que eu enxergava o mundo. Seu nome era Andy. Estava com apenas 27 anos. Escrevia poesias, havia parado de rascunhar uma autobiografia. Mais um, pensei. Estava cansado de companheiros de prisão que queriam escrever mas não tinham vitalidade, força de vontade. Mas como nada vale senão no que vale para os outros, dispensei-lhe a atenção que solicitava. Vivo pedaços quebrados de esperança de encontrar companheiros que escrevam. Nossa experiência, aqui enquanto presos, é única. Somos clandestinos. Um corpo ardente oculto por saias superpostas que esconde um sol a incendiá-lo. Somos a caça e os caçadores. Ninguém sabe o que vivemos e o que nos faz ser o que somos. De fora, é impossível saber. De dentro sabíamos e não podíamos expressar. Hoje o espaço esta conquistado. Somos capazes, as editoras nos aceitam e o público se interessa. Podemos e sabemos, só nos falta dizer. Por conta da falta de ciência, nosso sofrimento, nossa vida dolorosa de presidiários não é valorizada. Estamos de asas quebradas, ossos expostos e nosso sangue vaza rubro das veias. Ninguém sabe disso. Estamos à mercê de levianos que, sem nada saber, nos fazem vidraça. As pedras chovem sobre nós e não temos como nos defender. Lancetei a mente e passei a explicar ao rapaz o que achava necessário para escrever e publicar um livro. Antes seria preciso intimidade com os mares interiores. Necessário se faz uma longa e profunda reflexão. O que desejamos é realmente escrever? Se respondido positivamente, então podemos seguir para a próxima fase. Escrever. Escrever só se aprende escrevendo. Suor, dores na cabeça e nos olhos é o melhor e talvez o único método. Muita leitura, não mais como leitor diletante. É preciso prazer de ler, mas observar o autor é fundamental. Entrar na mente do escritor é fogo que permeia o ar que vamos respirar. Silencioso e furtivo nosso olhar se desloca por entre seus segredos e mistérios. Buscamos as entrelinhas. Engolimos em silêncio o brilho do encantamento. Somos escritores, agora. Determinação fecundara nosso cotidiano. Um livro é fruto de anos de tenacidade. Cada uma das trocentas palavras de cada linha ou página deve ser pensada, repensada e avaliada criteriosamente. À vontade, essa grandeza atrevida grita no coração e respiramos forte. Às vezes até a cor das pedras que cobrem o chão tornam-se importantes. Deslizamos em óleos escorregadios, espessos, no fio dos sentidos. Contei ao jovem que meu primeiro livro, Memórias de um Sobrevivente, reescrevi, palavra por palavra, três vezes. Tem 478 páginas, mas já teve mais que o dobro. As palavras pareciam me apalpar, sensíveis. Em cada reescrita, revisei mais de uma vez. Da primeira escrita à publicação, demoraram treze anos. O livro ficou dez anos engavetado, aguardando interesse de publicação. É preciso inocular no coração gigabytes de paciência. Publicar um livro é sonho, pão que alimenta, noite alta e dia frio. Meu terceiro livro, ainda sem nome, já foi três vezes para a editora e voltou. Retornou pela terceira vez para estudo e sugestões da editora. Já passou por várias revisões. Depois virão três revisões sistemáticas da editora, as provas e ainda volta para minhas vistas. Só depois será filmado e rodado nas prensas. Demorará três anos (cálculo otimista) para sair a público, da concepção à livraria. Anos de trabalho duro. Às vezes dá até raiva do livro, passo por fases de rejeição e estresse total. Não consigo nem falar dele. Vivo de dicionários, gramáticas, canetas, papéis e outras armas negras. Meus olhos queimam no computador, vermelhos; fico branco por falta de sol; e já me chamaram de louco pela minha obstinação. Mas já publiquei um, estou lançando outro e um terceiro logo também sairá. Em meus olhos ardia a paixão pela arte de escrever. Havia aberto o livro que mastigara minhas horas como flores. Mostrara a resistência do coração como lâmpada acesa sob pesado céu cinzento. O jovem me olhava assim perplexo. Seus olhos me perguntavam: ‘tudo isso?’ Eu lhe dera como presente a luta, espessa como mel mais saboroso, e ele se apavorara. Chegara todo pássaro e asas, saia podado, rastejando, inseto. Ele conhecia o valor, mas não sabia do preço.
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