por Pedro Carvalho

O relato do grupo de dez surfistas que desafiou a ondulação histórica registrada em Fernando de Noronha no dia 2 de março

Quando chegou à praia da Cacimba do Padre, por volta das 7h da manhã do dia 2 de março, uma sexta-feira, Armando Daltro não conseguiu calcular o tamanho das ondas. “Não dava para medir da areia, elas quebravam muito lá fora e uma onda encobria a outra”, conta o surfista baiano. “Eu nunca tinha visto um mar como aquele, em mais de dez temporadas em Fernando de Noronha”, diz o atleta de 44 anos.

Armando, então, parou para conversar com alguns locais que também tentavam entender o que se passava no mar. Ali se formava um grupo que faria história naquela Big Friday do arquipélago. A primeira avaliação deles foi de que seria viável atravessar a arrebentação por trás da pedra dos Dois Irmãos, cartão-postal que fica na ponta da praia da Cacimba, entrando na água pela praia vizinha, a Baia dos Porcos. Era assim que os locais faziam nos dias grandes.

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Ao chegarem, porém, os dez surfistas se depararam com um cenário de dar calafrios. Ondas enormes não paravam de explodir contra as pedras, sem deixar um intervalo que permitisse a entrada deles na água. Ficaram quase uma hora em uma ansiosa observação, mas o mar não dava trégua. Após reavaliar a situação, o time decidiu tentar algo que nenhum deles jamais tinha feito: atravessar a pé a Baia dos Porcos e entrar na água pela sua ponta norte, onde esse intervalo parecia maior.

Eram perto das 9h quando eles se jogaram na água. Mas o grupo acabou dividido. Na primeira investida, conseguiram entrar Buday e Uka (dois locais que tiveram as performances mais insanas naquele dia, segundo os relatos ouvidos pela Trip), Heron (um bodyboarder local), Armando Daltro, Piu (um surfista recifense), Cuca Souza e Raimar (outros dois locais). Logo em seguida, porém, mais séries começaram a estourar e outros três surfistas do grupo tiveram de recuar e esperar meia hora pela próxima oportunidade: o baiano Wilson Nora, Henrique Pistilli (o “homem-peixe” do Canal Off) e um surfista alagoano (se alguém souber seu nome, favor avisar a redação).

Os que tinham entrado primeiro, então, tomaram uma atitude que mostra a importância do companheirismo em dias de condições extremas. Após atravessar a primeira linha de arrebentação, eles permaneceram em frente ao ponto onde tinham entrado no mar para aguardar o grupo que ficou na areia. “A gente vinha falando desde cedo: se um pular, os dez pulam. Se um não conseguir, os dez voltam”, conta o local Buday Santos. “Porque a remada para contornar os Dois Irmãos e sair na praia da Cacimba é traiçoeira, tem uma corrente que joga você em cima das pedras. Aí nós sentamos e esperamos. E, quando eles chegaram, fomos juntos”, ele relata.

Enfim, no pico

Após atravessar a Baia dos Porcos – em alguns trechos Nora precisou rebocar o homem-peixe, que tinha dificuldades para nadar usando apenas sua pranchinha de bodysurfe – e cruzar os Dois Irmãos, o grupo se encontrava enfim na chamada terceira laje da Cacimba, onde as ondas só quebram quando o mar está realmente muito grande. As séries chegavam a 18 pés, segundo os relatos. Naquela hora, ninguém surfava na Cacimba. Os primeiros a chegar viram séries enormes, mas não tentaram surfá-las até que os outros terminassem a travessia. Quando todos se reuniram, eles deram as mãos em roda para evocar proteção – e só então o surfe começou. 

Buday tem 28 anos e é nascido e criado em Noronha. É o vencedor do prêmio Greenish, que, em 2013, elegeu uma onda surfada por ele naquele mesmo ponto como a maior já descida na remada no Brasil. Ele acredita que essa ondulação de 2013 estava um pouco maior que a de sexta-feira – por volta de 20 pés. “Mas, nesse swell de agora, o chocante era a força da maré. Isso eu nunca tinha visto. Porque juntou a maré de março, que é bem alta, com uma lua cheia e uma ondulação gigante, que fez quebrar de novo a terceira laje”, ele diz.

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“Para mim, foi o mar maior e mais constante que peguei em Noronha”, diz Nora, 39 anos, que desde 1995 vai ao arquipélago praticamente todo ano e afirma ser o atleta que mais venceu baterias em competições de surfe no local. “Nunca tinha visto aquela força d’água, acho que porque a ondulação coincidiu com a lua cheia”, ele avalia.

Os surfistas relatam que naquele momento havia um clima de preocupação expresso nos olhares que o grupo trocava. A maioria nunca tinha surfado Noronha naquelas condições. Eles se posicionaram entre a segunda e a terceira laje, um ponto onde ondas de 12 a 15 pés quebravam com mais qualidade do que na terceira laje. As maiores séries tinham entre 5 e 7 ondas e o intervalo entre elas era de 10 a 15 minutos. Buday esperou pela última onda de uma série para estrear o dia de surfe. “Às vezes é melhor pegar a última, para não tomar as outras na cabeça depois”, ele diz.

A onda pioneira de Buday quebrou o gelo e deixou a turma mais confiante. “Eu sabia que descontrair a galera era importante, porque eu conhecia bem a força daquela onda, era o único que tinha surfado o swell de 2013. Depois que peguei a primeira, voltei para o pico com um sorriso no rosto, para tranquilizar o grupo”, diz o local. “Acho que funcionou, porque todo mundo pegou onda para caramba”.

Glória e sufoco

“Quando enfim tentei remar em uma onda, vi que minha prancha 6’9’’ estava pequena demais, porque o mar estava muito volumoso”, conta Daltro. O experiente surfista baiano pegou boas ondas durante uma hora. Depois, em uma tentativa de chegar à terceira laje, ele foi pego por uma série enorme. “Levei um caldo que cheguei a ficar preocupado”, conta. “Quando vi a espuma chegando, subi na prancha e mergulhei fundo na água. A onda me pegou lá embaixo. Tentei subir ‘no braço’ e não rolou, então agarrei na cordinha da prancha e escalei de volta para a superfície”, ele diz. Pouco depois, Daltro foi pego por outra série que fez quebrar o “copinho” de sua prancha (onde a cordinha é amarrada), ficou sem o equipamento (que foi parar na areia) e se viu obrigado a sair do mar por volta das 11h30.

Mais para o final da manhã, o grupo ganhou a companhia de alguns surfistas que chegaram ali de barco. Como não precisaram atravessar a arrebentação na remada, puderam entrar na água com pranchas maiores. Assim, se posicionaram na terceira laje e desceram algumas bombas volumosas no outside da Cacimba. Ao longo do dia, outros atletas se juntariam ao grupo, como o carioca Pedro Scooby, que fretou um voo de última hora para Noronha assim que soube o quanto o mar tinha subido no final da tarde de quinta-feira – e entrou no mar na remada, também.

Nora ficou cinco horas na água (saiu às 14h) e pegou seis ondas. “Fiquei super satisfeito. Conversei depois com o pessoal que surfa Jaws e eles disseram que muitas vezes ficam o dia toda na água para pegar uma ou duas ondas”, ele conta. Buday só saiu do mar por volta das 15h40, após descer mais de uma dúzia de ondas que ainda serão comentadas por muito tempo entre os locais de Noronha. “Uma delas, acho que a oitava, vai ficar gravada na minha memória. Dei um drop bizarro e na sequência um lip gigante estourou atrás de mim. Levei um caldo insano, tive que escalar a cordinha para voltar, mas estava tranquilo. E se o caldo foi bom é porque a onda era boa também, né”, ele brinca. “O importante é que todo mundo pegou onda boa. Foi um swell que entrou para a história do arquipélago”.

Ruínas da guerra

Além de colocar alguns surfistas na história de Noronha, a ondulação de sexta-feira causou estragos no arquipélago. A maré alta, combinada com a força das ondas, fez o mar avançar pela costa de uma forma que muitos locais nunca tinham testemunhado.

Na Cacimba do Padre, a água cruzou a estrada e chegou à Barraca das Gêmeas. Na praia da Conceição, o bar do Duda Rei ficou totalmente destruído. Ao lado dele, as ondas dragaram a areia da praia e acabaram por revelar algo que revoltou os locais: canos (até então enterrados) levavam o esgoto da casa de um empresário para o oceano – o caso foi levado ao ICMBio. Outros encanamentos suspeitos surgiram perto do Bar do Meio. O mesmo fenômeno – a dragagem da areia – fez pedras enterradas ficarem expostas na Baia do Sancho, eleita a mais bonita do mundo pelo Trip Advisor: agora, todo o seu canto direito está tomado por pedras. Uma das escadas de acesso para essa praia também ficou destruída.

A consequência mais curiosa da tormenta, porém, aconteceu na Praia do Bode. Naquele balneário, as ondas que levaram a areia embora revelaram ruínas da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Fernando de Noronha, naquele período, serviu de base para as forças armadas brasileiras e norte-americanas. A estrutura que agora ficou à mostra na Praia do Bode era um antigo atracadouro soterrado, por onde navios desembarcavam canhões e outros petrechos militares na ilha.

Passada a tormenta, enquanto os donos de bar correm para reparar os estragos, os surfistas locais se preparam para mais momentos de adrenalina: um novo swell deve atingir Noronha na próxima quinta-feira, dia 8 de março. Provavelmente não terá a intensidade da ondulação da última sexta-feira, mas sem dúvida irá proporcionar novamente um bom cenário para um novo show de Buday, Uka e companhia.

Créditos

Imagem principal: Stella Furlan

Fotos de: Marcelo Freitas e Stella Furlan

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