por Jean Wyllys

Para o Deputado Federal Jean Wyllys, a música popular brasileira abriga um novo movimento estético e político que é capaz de quebrar estereótipos sobre gêneros e tabus

A música popular brasileira – e eu não me refiro apenas àquilo que se convencionou chamar de MPB como contraponto a outra música supostamente “popularesca”, “brega” ou “cafona” porque consumida pelas audiências das rádios comerciais e programas de auditório na TV aberta – abriga um novo movimento estético-político, que, embora tenha começado a emergir timidamente há alguns anos, apenas nos dois últimos ganhou contornos mais claros, ainda que não definitivos. Sem querer ter a pretensão de ser um novo Nelson Motta, que hoje se arvora de ter batizado de Tropicalismo o movimento musical liderado por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Gal Costa e Os Mutantes que sacudiu a cena brasileira nos anos 60-70 do século passado com sua mistura antropofágica de referências das culturas erudita, popular e de massa, herdeiros que eram das lições dos artistas modernistas da histórica Semana de 22; sem querer ter essa pretensão, vou chamar o novíssimo movimento de MPBTrans.

Assim como a bossa nova correspondeu, em termos de trilha sonora, às transformações socioculturais do pós-guerra, e o Tropicalismo foi a expressão musical da chamada contracultura dos anos 60-70, a MPBTrans é a música que resulta dos – e responde aos – impactos políticos, sociais e estéticos das novas tecnologias da comunicação e da informação (internet e redes sociais digitais) nessa segunda década do novo milênio; é o movimento que se contrapõe, em termos artísticos, ao retorno dos discursos conservadores, reacionários e fundamentalistas religiosos à hegemonia política no país.

Três características marcantes e relacionadas entre si distinguem a MPBTrans: a) suas estrelas pulverizam as fronteiras de gênero, adotando visual andrógino ou assumindo identidades de gênero policiadas; b) compõem e cantam letras de músicas que evocam a política do corpo e identitária, com referências mais ou menos explícitas às minorias sexuais, étnicas e religiosas; e c) têm relação umbilical com a internet e as redes sociais digitais (ou emergiram daí para abrir espaços nas mídias tradicionais ou trocaram escassos espaços nestas por lugares de destaque entre os internautas). Suas principais estrelas são Liniker (negro), Jaloo, Não Recomendados, Lineker (branco), As Bahias e a Cozinha Mineira, Johnny Hooker, Filipe Sampaio, Valeria Huston, Banda Uó, Deena Love, Rico Dalasam, Verônica Decide Morrer, MC Linn Da Quebrada e Almério. Claro que podem haver outras estrelas dessa constelação que as lentes de meu telescópio ainda não observaram – e cada uma dessas estrelas se espanta à própria explosão! Elas todas têm origem na mesma nebulosa que, pouco antes, produziu João Fênix e, mais anteriormente (pouco depois do Tropicalismo), Ney Matogrosso. Todas elas já lotam casas de shows nas cidades onde vivem e algumas já começam a atrair público considerável em outras.

Resultado de um mundo cada vez mais globalizado e interconectado por mercadorias, vírus e ideias que circulam em e por redes numa velocidade vertiginosa, a MPBTrans encontra, claro, ressonâncias em outras partes desse mundo, mas tem algo de específico ou de singular que tem a ver com a nossa poderosa e sui generis tradição musical. A estética e o discurso político evocados pela MPBTrans tampouco se limitam à cena musical: aparecem também no teatro e na literatura: o espetáculo BR Trans, de Silvero Pereira (ator que é ao mesmo tempo atriz), arrancou elogios do público e da crítica, e Amara Moira vem despertando paixões com seu testemunho literário E se eu fosse puta?. Nesse sentido, a MPBTrans repete algo que se deu também em relação ao Tropicalismo, que se expressou no teatro de Zé Celso Martinez Corrêa e na literatura de José Agrippino de Paula.

O prefixo trans se refere à condição de quem partiu, mas ainda não chegou; de quem se deslocou deliberadamente de um lugar em direção a outro, mas ainda está a caminho, em trânsito; de quem deixou uma casa, um ethos ou identidade para trás, mas ainda está sem abrigo e em construção de uma nova casa ou identidade ou de um novo ethos; de quem está em transformação. Além disso, é preferencialmente nas ruas de passagem, nas estradas, nas BRs da vida que travestis e transexuais brasileiras fazem o trottoir, “a pista”, ou seja, a prostituição itinerante. Sendo assim, o prefixo trans cabe perfeitamente ao movimento que renova a música popular brasileira.

A MPBTrans demorou a ser identificada como um movimento; em parte porque a indústria da música que pautava as rádios, os críticos e os segundos cadernos de jornais está combalida diante das novas tecnologias da comunicação e da informação que possibilitam às pessoas ter um estúdio no celular e divulgar sua música sem intermediários nem jabá; em parte porque os críticos musicais de “cadernos culturais” – com as honrosas exceções dos talentosos e autocríticos Mauro Ferreira, Leonardo Lichote, Lauro Lisboa e Pedro Alexandre Sanches – não têm muita sensibilidade para os fenômenos não ditados pela força da grana das gravadoras que ainda conseguem transformam em “celebridades” da música talentos genuínos como Anitta, Ludmillah e Karol Concá (as três, curiosamente, têm afinidades com a MPBTrans).

Se o Tropicalismo era mais musical e menos estético, a MPBTrans é o contrário, embora a qualidade musical dos Não Recomendados (Daniel Chaudon, Caio Prado e Diego Moraes), de Liniker, Jaloo e de Fenix não deva nada à dos tropicalistas quando de seu início. A dimensão estética, entretanto, sobretudo no que diz respeito à borragem ou ao embaralhamento das fronteiras de gênero, é a característica mais forte do movimento. Produtores de shows em todo o Brasil já começam a reuni-los em programações culturais; e as próprias estrelas já trocam colaborações entre si. Liniker e Lineker, apesar da semelhança de nome e proposta musical, já fotografaram juntos para delírio das redes sociais.

A música é em essência libertária. A música popular brasileira sempre permitiu a emergência de artistas – compositores e intérpretes – que cantam as liberdades individuais e a justiça social, sobretudo quando estas estão ameaçadas. Sendo assim, num momento em que as nuvens escuras do fundamentalismo religioso homofóbico e contrário aos direitos das mulheres se concentram no céu do Brasil e que a fascismo arrepia o corpo social, nada mais normal e esperado que um movimento musical como a MPBTrans venha nos salvar dessas trevas. Evoé!

Jean Wyllys foi homenageado pelo Trip Transformadores de 2013. Assista aqui a sua história.
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Créditos

Imagem principal: Nelson Mello

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