Transformadores 2013: Paula Dib
A mania de questionar tudo transformou a vida da designer
Paula Dib revela belezas de onde menos se espera. Onde a maioria de nós enxergaria apenas escassez e problemas, ela reconhece as sementes de uma riqueza que, com seu apoio, germinam, desenvolvem-se e desabrocham, espalhando transformações ao seu redor.
Sua trajetória pessoal ajuda a entender como foi forjado esse olhar sensível e curioso sobre o mundo. Nascida em São Paulo e educada, em casa e na escola de formação humanista, para reconhecer e valorizar o outro, Paula conviveu com aborígines na Austrália e pescadores no Brasil antes de iniciar sua trajetória profissional.
Com o tempo, num mundo cada vez mais abarrotado de coisas e objetos, decidiu encarar seu papel como designer numa perspectiva ampliada: foi assim que passou a valorizar os processos para além dos produtos. Criando novas relações, novas interações, novos ambientes, novas realidades, tornou-se designer social.
Seus projetos percorrem contextos e lugares muito diferentes entre si. No sertão do Ceará, Paula mistura inovação e tradição, diminuindo a distância entre a arte dos sapateiros locais e o mercado europeu. Na África, em parceria com educadores moçambicanos, encontrou em pedaços de bambu e palha de milho os recursos para a criação de brinquedos pedagógicos. Em Londres, através de uma intervenção artística no pátio de um colégio público, mobilizou a comunidade escolar a repensar seus conflitos e valorizar a diversidade cultural presente entre os estudantes. Seja onde for, as pessoas são a sua principal matéria-prima.
Vencedora do prêmio International Young Design Entrepreneurs of the Year de 2006, agora ela se dedica a registrar algumas das histórias que conheceu em suas andanças. Recentemente, co-dirigiu um documentário sobre os mestres do couro da região do Cariri. É o que se revela através de sua trajetória e de seus filmes: a lente atenta e generosa com que Paula enxerga o mundo.
Perguntadeira
Mas de onde vem esse olhar tão apurado? Paula Dib considera alguns motivos que determinaram ela a ser como é hoje: inquieta, curiosa e perguntadeira.
“A história do meu braço é muito natural, todo mundo nasce com as suas ferramentas e vai usando. Eu nasci assim e não saberia ser diferente disso. A gente vai envelhecendo e vai pensando se isso fez alguma coisa, se convidou a olhar as coisas de um jeito diferente. Isso é recente, nunca pensei nisso de uma forma aberta”, diz Paula. A tal “história do braço” é que Paula nasceu sem parte do braço esquerdo e isso pode ser uma das explicações para o modo como ela olha a vida.
Por ter nascido numa época de recursos ainda escassos, seus pais não esperavam por aquilo. Foi um choque. Uma prótese foi considerada, mas nunca se concretizou. Um médico amigo da família foi determinante para isso. Observando Paula bricar com dois anos de idade ele disse para o pai dela que uma prótese seria mais para a família do que para Paula, que se virava muito bem com o problema. O conselho pesou. Eles começaram a observar mais ela do que tentar suprir as dificuldades.
E assim Paula foi estimulada desde cedo a explorar possibilidades. Ela não podia simplesmente copiar o que via igual outras crianças costuma fazem. Ela tinha que dar o seu jeito, o seu toque, fosse para pintar, trabalhar com uma massinha ou carregar algo. “Tudo eu achava minha maneira de fazer”.
E mesmo assim, Paula nunca joga esse peso em seu problema. Aliás, quase nunca fala sobre ele. “A diferença é para quem olha e não para mim. Isso é um detalhe. É como eu sou, mas não me define”.
“Me dão intitulam muito como designer social, designer sustentável. Sustentabilidade não é um fim, é uma proposta. Proposta de dar sentido para tudo, dar condição e coerência. Eu diria que minha ocupação é dar sentido”
Antes mesmo de ir para a faculdade ela já fazia seus questionamento mudarem seu destino. Estudando inglês na Austrália ela reclamou com um professor que aquilo não era o que ela queria da Austrália. O ambiente era asséptico. Não tinha natureza. O professor deu um jeito e Paula conseguiu autorização para ir para uma aldeia de aborígenes. Então com 18 anos lá estava ela ajudando o pessoal da tribo a lidar com uma questão nova para eles: o lixo. Já que o governo australiano na época começava a inserir produtos industrializados na aldeia, era preciso apresentar aquilo como algo que não poderia ser descartado no chão de qualquer forma.
Ali caiu por terra o desejo de Paula de ser uma artista plástica. Por que ela se concentraria em algo tão solitário se aprendeu que gostava de trabalhar com pessoas? O desenho industrial foi à opção que ela encontrou para ter um futuro onde pudesse trabalhar com pessoas e arte ao mesmo tempo.
Quando chegou à faculdade era complicado seguir ordens e ela seguia inquieta e perguntadeira, como gosta de dizer. “Era tudo pré-estabelecido: ‘vamos fazer isso e isso e isso!’. Por que tem que direcionar sempre o rio para esse lugar”, ela questiona. Estudar conceitos estrangeiros era ótimo, mas Paula achava inútil tentar copiar os outros. Por que não trabalhar nas próprias ideias? Desconfiar do pré-estabelecido era obrigatório. Seguir o caminho dos outros nem pensar.
Não que ela se ache diferente, pelo contrário. “Apesar que de vez em quando a postura inquieta incomoda. Nessas hora que percebo que não estou exatamente em um padrão”.
Sobre seu trabalho ela comenta: “Me dão intitulam muito como designer social, designer sustentável. Sustentabilidade não é um fim, é uma proposta. Proposta de dar sentido para tudo, dar condição e coerência. Eu diria que minha ocupação é dar sentido”.
Nisso ela lembra muito de seu trabalho em Moçambique. Para desenvolver brinquedos pedagógicos melhores para as escolas novas de uma região tão pobre, ela buscou conhecer a história do lugar, falar com os professores que cresceram ali. Ter construído brinquedos com matéria prima local fez mais sentido que importar o que existe de melhor em brinquedos pedagógicos da Europa ou qualquer outro lugar. “No fim dá muito mais certo. O brinquedo diz algo para aquelas pessoas. Vemos as crianças brincando”
Obviamente, Paula é boa de dar conselhos. Comentando sobre sua própria trajetória acaba dando uma bela dica: “A partir do que sou a vida vai se construindo, as possibilidades vão surgindo. Tudo que você faz é se soltar nesse riozão e aproveitar”.
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