Ricardo Galvão: Um governo negacionista ameaça nosso futuro

por Redação

Caio Blat conversa com o ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais que se tornou um símbolo da luta em defesa da ciência

O físico e engenheiro Ricardo Galvão virou notícia da noite para o dia quando o presidente Jair Bolsonaro questionou a veracidade dos dados que apontavam um aumento no desmatamento da Amazônia divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o INPE. Sabendo que isso lhe custaria o cargo de diretor da instituição, Galvão resolveu reagir e aproveitar os holofotes para chamar atenção para os contínuos ataques do governo ao instituto e à ciência brasileira. "Esse embate não era uma questão de dúvida sobre os números do desmatamento, mas sim uma política pensada para desconstruir os dados científicos porque eles de certa forma atrapalhavam as políticas predatórias do governo com relação ao meio ambiente", diz. "Quando nós temos um governo que incentiva essas ideias negacionistas, não só a comunidade científica, mas toda a sociedade tem que ficar muito preocupada".

Homenageado pelo prêmio Trip Transformadores 20/21, ele foi eleito um dos dez cientistas de 2019 pela revista Nature, uma das mais prestigiadas na área da ciência. "Se quisermos um desenvolvimento sustentável, equânime e socialmente justo, não haverá maneira de fazer isso sem políticas públicas com base nos avanços científicos", diz. No programa Prêmio Trip Transformadores, Ricardo Galvão bateu um papo com o ator Caio Blat sobre a ameaça do negacionismo ao futuro do país. A série vai ao ar todo sábado, às 22h, na TV Cultura. 

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Caio Blat. Há dois anos começamos a receber notícias que as pesquisas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), onde você foi diretor por três anos, apontavam um aumento enorme no desmatamento da Amazônia. O que isso representa para nós e como ele nos afeta nas cidades?

Ricardo Galvão. Toda a chuva que nós recebemos no país, importante para as nossas usinas hidrelétricas, para a agricultura, depende da Amazônia. Estudos feitos nas últimas duas ou três décadas indicam que, se a Amazônia for desmatada mais de 25 a 30%, ela vai se tornar uma savana. O Brasil já desmatou na ordem de 20%, então nós estamos muito próximos desse ponto de não-retorno, de perder a floresta. E vai afetar a vida de todos nós. Vai afetar a agricultura, as hidrelétricas, mas também nossa biodiversidade e também vai aumentar violentamente o efeito de gases do efeito estufa na atmosfera.

A sua atuação à frente do INPE acabou de forma repentina por causa de uma intervenção do presidente Jair Bolsonaro. Ele começou a questionar os dados das pesquisas do INPE e até mesmo sua motivação, dizendo que você estaria à serviço de ONGs e que os dados estavam sendo manipulados. Como você recebeu a notícia de que a maior autoridade do país estava questionando o seu trabalho, suas motivações e as pesquisas do INPE? Os ataques ao trabalho do INPE começaram já em janeiro de 2019, logo após a posse do governo. No dia 15 de janeiro, o ministro Ricardo Salles deu uma entrevista à Folha de S. Paulo acusando os dados do INPE de não serem suficientemente precisos para que eles tomassem ações para evitar o desmatamento na Amazônia. O que é uma grande inverdade porque o governo federal, entre 2004 a 2012, foi capaz de reduzir o desmatamento da Amazônia em mais de 80% usando os mesmos dados do INPE. Em 2 de junho, o general Augusto Heleno disse em uma entrevista à BBC que os dados eram manipulados. Eu imediatamente mandei um ofício ao ministro Ricardo Salles oferecendo uma discussão que abrisse um canal de diálogo com o Ministério do Meio Ambiente, como sempre houve em governos passados. Nunca tive resposta. Quando o presidente Bolsonaro acusou os dados do INPE de serem mentirosos, foi como um soco direto na minha alma de cientista. O que esse governo não percebe, porque não tem a cultura necessária para ser governo, é que o INPE é uma instituição brasileira das mais respeitadas, então atacar esses dados têm uma repercussão internacional enorme. 

Em tantas décadas de serviço público e de dedicação à ciência, em algum momento você viu esse tipo de embate entre a comunidade científica e o governo? Em 2008, o INPE detectou um aumento muito grande do desmatamento, principalmente no estado de Mato Grosso. O então governador, Blairo Maggi, acusou o instituto da mesma forma, dizendo que os dados estavam errados. Mas a situação era muito diferente. A ministra do Meio Ambiente, que era Marina Silva, convocou uma reunião em Brasília e propôs que se fizesse um sobrevoo nas regiões que o INPE dizia que estava desmatada e o governador dizia que não. Fizeram o sobrevoo e acabou toda a crítica. Desta vez, eu propus que se fizesse isso e nem me ouviram. Então eu tenho certeza que esse embate não era uma questão de dúvida sobre os dados do INPE, era uma política bem pensada para desconstruir os dados científicos porque eles de certa forma atrapalhavam as políticas predatórias do governo com relação ao meio ambiente. 

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Com a pandemia, vimos os ataques do governo à ciência se repetirem muitas vezes. Negando a pandemia, recomendando tratamentos comprovadamente ineficazes, questionando a eficácia das vacinas... De que forma esses ataques contínuos afetam a comunidade científica e os institutos de pesquisa? Se quisermos um desenvolvimento sustentável, equânime e socialmente justo, não haverá maneira de fazer isso sem políticas públicas com base nos avanços científicos. Então quando nós temos um governo negacionista – mais que negacionista, ignorante –, isso traz grande preocupação à comunidade científica. Talvez os leigos não saibam, mas do final da década de 80 até 2010, 2012, o crescimento da ciência brasileira foi espetacular e reconhecido internacionalmente. Um dos maiores defensores da Amazônia, o pesquisador brasileiro Carlos Nobre, coordena uma ação da ONU para o desenvolvimento sustentável. E o nosso governo faz um conselho da Amazônia que tem na ordem de 16 militares, entre generais, coronéis, etc, mas não tem nenhum cientista. O novo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, quando assumiu a primeira coisa que fez foi um conselho científico de altíssimo nível. O avanço não vai ser feito sem a participação muito forte do que um país tem de bom em sua comunidade científica. E esse governo não vê isso. Então a comunidade científica se preocupa não somente por aquilo que pode afetá-la diretamente, no corte de recursos etc., mas também com o futuro do país.

Uma coisa muito grave é que esse comportamento negacionista do governo acaba influenciando muito a população. Como você vê esse cenário em que as pessoas começam a negar a ciência? O negacionismo que nós temos hoje em dia é diferente do obscurantismo que tínhamos no passado, que era motivado principalmente por posições religiosas extremistas. Agora temos esse negacionismo que é na verdade uma pseudociência. Infelizmente eles encontraram uma ferramenta muito forte. Nas mídias sociais, a população aprendeu a ter acesso rápido às informações, mas elas são sempre muito superficiais e fáceis de serem distorcidas. Às vezes, para nós darmos uma resposta científica que seja correta e válida, nós dependemos de uma certa profundidade. E a população infelizmente acabou se acostumando com respostas rápidas, sem uma explicação muito elaborada. E acostumaram, principalmente, com as respostas que vão ao encontro do que eles queriam ouvir. Porque os resultados científicos às vezes abalam a situação de conforto de algumas pessoas. A comunidade científica tem que aprender a atuar melhor nas redes sociais para contra-atacar toda essa pseudociência feita pelo negacionismo. 

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Esse negacionismo não é um caso isolado do Brasil. Acontecia no governo Trump, nos Estados Unidos, acontece em outras partes do mundo. Como a comunidade científica internacional está lidando com essa onda? Infelizmente esse negacionismo moderno tem se espalhado pelo mundo. Durante três anos, até 2016, eu fiz parte do conselho científico da Sociedade Europeia de Física e já via uma grande preocupação desse negacionismo. No caso do Brasil, somos muito afetados porque o nosso nível educacional é muito baixo. Quando nós temos um governo que se abstém, e inclusive incentiva, essas ideias negacionistas, nós todos, não só a comunidade científica, mas a sociedade, tem que ficar muito preocupada. 

A Covid-19 despertou um enorme interesse da população pelas pesquisas científicas. Até que ponto a epidemia é positiva no sentido de trazer de volta a confiança do brasileiro na ciência, na pesquisa científica? A valorização da ciência pela população brasileira sem dúvida aumentou muitíssimo com essa resposta rápida da vacina. A vacina da Pfizer é uma pesquisa que tem sido feita há mais de 20 anos. A população está percebendo que o cientista não é um Professor Pardal, que você leva um problema e ele resolve na hora. O cientista é alguém que vem trabalhando em certa área há muito tempo e, quando tem um problema que se encaixa no que ele faz, tem a capacidade de reagir rapidamente. Isso é a importância da ciência. A ciência é um conhecimento estratégico que um país deve ter e que pode responder quando necessidades como essa aparecem. 

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Além de tudo, na pandemia a gente viu a Amazônia queimar como nunca. Os dados do INPE apontaram para a maior devastação da década. Por que esse aumento tão grande no último ano e qual seria a forma correta de lidar com isso? Existem duas razões distintas. As queimadas na Amazônia são sempre feitas após o corte de árvores. Quando eu ainda era diretor do INPE, em 2019, os alertas de desmatamento eram contínuos e até enviei ofícios ao Ministério de Ciência e Tecnologia dizendo que haveria um grande aumento das queimadas. Porque no final do período das chuvas eles desmatam bastante, deixam a madeira lá e depois queimam para ajudar a extrair e limpar. Então as queimadas da Amazônia são uma consequência direta do desmatamento. A Amazônia não pega fogo fácil porque é uma floresta muito úmida. 

Depois que você foi exonerado no INPE, você voltou a dar aulas. Como tem sido essa experiência formando a nova geração de cientistas do Brasil? Eu voltei a dar aula na Universidade de São Paulo, mas tenho mais de cinquenta anos de carreira acadêmica. E pra mim a maior alegria de todas é formar novos cientistas, já formei mais de vinte doutores no país. E isso eu considero minha maior missão. Eu não sou um grande cientista, mas espero ser um grande e lembrado professor. 

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