por Juliana Alves
Tpm #141

A atriz Juliana Alves, 32 anos, já foi integrante da ONG Criola e, neste Carnaval, encarnou a rainha de bateria da Unidos da Tijuca. Ela acredita que as mulheres negras são as mais vulneráveis da sociedade

“Eu poderia ser a contradição em pessoa. Já vivenciei muitos casos que quase me fizeram desistir de ser rainha de bateria no Carnaval, exemplos do universo machista cultuado no Brasil, mas acho importante que nossa cultura tenha identidade própria. Quando me coloco à frente de uma escola de samba, uma estrutura em que várias vezes a mulher é desvalorizada, eu vivencio minha cultura como um ato político. Procuro me posicionar como integrante da escola, mas, sobretudo, como mulher negra que merece respeito.

A dança foi meu primeiro canal de expressão, desde pequena. Meus pais sempre foram muito apreciadores das artes, além de serem socialmente engajados. Quando eu era criança, dois garotos ofenderam a mim e a minha irmã. Eles falavam que a gente era macaco enquanto o pai deles ria. Essa imagem me mostrou que aquilo, o racismo, era um problema daquela família. Quando vivo um episódio desses, sei que estou no lugar certo – quem está no lugar errado é o racista. Minha interpretação poderia ser diferente se não fosse o discurso dos meus pais.

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Ainda assim, o que mais me abala como ser humano é perceber como a sociedade, inclusive pessoas que nos amam, é capaz, diante de um ato de injustiça, de se deixar levar por uma referência arcaica de racismo e de machismo. Como conseguem pensar ‘Se você sofreu isso, alguma coisa você fez’? Elas se entregam a um pensamento mais confortável para não terem de se transformar também. Isso me entristece: pessoas que preferem acreditar na realidade machista e racista que construíram porque ela é mais confortável.

Há uns dois anos minhas sobrinhas e eu fomos a um restaurante e, na área de espera, havia um parquinho para as crianças se distraírem. As crianças estavam brincando e uma menina falou para elas: ‘Aqui não é lugar para menina morena, vai brincar pra lá!’. Quando uma delas veio correndo me contar o que aconteceu, eu disse: ‘Volte lá e continue brincando!’. Demorei um pouco para me recompor dessa situação, porque eu sabia o que elas estavam vivendo. São experiências que, quando a gente supera, precisa passar para as crianças. Procurar fazer com que elas reajam caso elas passem por isso também.

 

“Quando vivo um episódio de racismo, sei que estou no lugar certo”

 

Esses são exemplos de como, apesar do nosso povo guerreiro, competente e criativo, ainda existe gente ignorante que alimenta esse retrocesso. Acho o Brasil um país muito racista. O caso de Claudia Silva Ferreira, a mulher negra arrastada por um carro da PM do Rio de Janeiro, é racismo. O caso de Vinícius Romão de Souza, ator negro preso injustamente, é outro exemplo. Diante de fatos não existem argumentos. E, nesse quadro, as mulheres negras são as mais vulneráveis da sociedade.

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Por isso, é muito importante para o nosso movimento que tenhamos visibilidade. Eu presenciei minhas sobrinhas vendo a Taís Araújo protagonizando a novela das 8, Viver a vida (de 2009), e perguntando: ‘Quem é ela?’. A Taís aparecia e desfilava, era aplaudida, chorava. As meninas começaram a entender que essa personagem tinha importância. A Lara, minha sobrinha que aparece nesta reportagem, é a mais velha delas. Nessa época, ela estava vivendo uma crise de identidade, tinha acabado de entrar na escolinha e dizia que era feia, se sentia inferior. Num desses dias de crise, eu mostrei a personagem na novela e falei: ‘Olha como o cabelo dela é bonito! Olha o tom da pele, igual ao seu!’. Depois de alguns segundos, a Lara falou: ‘Titia, eu amo ela’. Quando você vê um grande engenheiro, um grande médico, você se vê ali e vai atrás. As oportunidades muitas vezes vêm, mas você tem que acreditar muito para conseguir alcançá-las.

Falo isso com vontade de mudar essa situação. Defendo medidas como as cotas para negros em universidades, pois elas quebram barreiras construídas por um erro histórico. Da mesma maneira, graças ao movimento negro, temos uma maior quantidade de negros na televisão e no cinema brasileiros. É importante que tenhamos visibilidade. Quando minhas sobrinhas pequenas veem personagens negras de sucesso na TV, elas se identificam. Como atriz, o sucesso e a repercussão do meu trabalho são instrumentos de transformação social. Sou, além de artista, uma cidadã.”

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