Sobre refugees, imigrantes e crises

por Nina Lemos

O que você faz quando você é imigrante em um país em crise imigratória? Você entra em crise, claro! Chora. Surta. E grita: ”Refugee are welcomed here. We will stay here!” Ok, vamos ficar pelo menos por enquanto

"Não é com você, é com um outro tipo de imigrante, relaxa". Eu sei que todos que me dizem isso só querem meu bem. Mas quando eu vejo gente morrendo congelada em caminhão, a Hungria erguendo um muro, os navios no mediterrâneo naufragando e milhares de pessoas sendo mortas tentando entrar na Europa, eu, imigrante legal, acho que é comigo sim. Não é o papel no meu passaporte que diz que eu tenho o direito de ficar por três anos e (veja só!) trabalhar que me faz sentir melhor. Me sinto um lixo. Acho que todos querem que eu vá embora. E surto. Eu poderia não achar que é comigo mas eu não consigo.

Vamos lá, sobre imigrantes. Se eu saí do meu país e moro há um ano na Alemanha, onde tenho um registro na prefeitura como moradora, conta em um banco e uma certidão de casamento local eu sou o que?  Eu posso falar que eu sou expat porque é mais chique.  Expat é um tipo de imigrante diferenciado, trabalha com internet muitas vezes, é escritor, jornalista, e vem de países que não são pobres. Eu poderia facilmente falar que eu sou expat. Vai ver eu sou. Mas porque tentar criar uma casta de imigrantes?

E não, não existe crise de expat na Europa. Contrário. Existem centenas de empresas de internet contratando gente mundo afora (ei, amigos desempregados no Brasil!). Se eu falar que eu sou Expat vou me sentir menos atingida ainda. "Tenho nada com essa merda". Mas a real é que eu me sinto refugee. Não estou comparando a minha dor e a minha situação com as dos refugiados, não estou comparando o Brasil com a Siria, pelo amor. Mas na alma eu sinto que de certa forma eu sou refugiada, sim. No livro "Berlim, city of exile", o jornalista australiano Stuart Braun fala sobre um tipo de exilado que eu acho que é onde eu me encaixo: os refugiados da alma. Aqueles que vêm para Berlim em busca de si mesmo. Eu! Então, desculpem, mas cada "não podemos receber eles". "Isso não é nosso problema". "Temos que proteger nosso trabalho".  "O que podemos fazer com eles?"  "Que fazem no meu país?", que ouço na televisão um cidadão de bem falando eu acho que é comigo, desculpem.

Uma piada interna entre imigrantes em Berlim. Os alemães têm mania de fazer duas perguntas para a gente aqui: quando você vai embora? A outra é: o que você veio ficar aqui?

Eu ensaio várias respostas para essas perguntas. E agora decidi que se alguém me perguntar minha resposta vai ser: "eu vim aqui para tirar o seu trabalho."

Eu moro em um bairro que tem muito imigrante (mas esse tipo de imigrante diferenciado que podem chamar de expat porque ele tem um Mac). Mas eu tenho certeza que eu vivo em uma vizinhança pró refugee. Faz mais de um ano que alguém pixou na porta do meu predio "refugee welcome" e isso nunca foi apagado. Tá, eu sei que eu não sou refugiada de guerra, mas quando vejo aquilo na porta sempre me sinto bem. É como se eu fosse bem vinda em minha própria casa.  E sorrio em cada refugee welcome que eu vejo.

Como eu vou sobreviver à crise de imigração na Europa? Entrando em crise, claro. É a vida. Fazer o quê?

Ah, informativo rápido. Não é de hoje que muitos prédios de Berlim são pixados com "Refugee Welcome". Essa luta é antiga. Existem milhares de refugiados africanos ilegais em Berlim há anos. E existe um monte de gente, com muito alemão junto, muito mesmo, lutando para que eles fiquem. Para que eles não sejam deportados. Esse problema não é novidade.  Mas, graças a deus, as pessoas que gritam que nenhum homem é ilegal também não são novidade! Refugee, welcome! We will stay here! (Bem vindo, refugge, nós vamos ficar aqui) Quer dizer, no meu caso, pelo menos por enquanto. :-)

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