por Carol Sganzerla
Tpm #128

Há algo muito além do sociológico na questão da nudez

Lá se vão 13 anos desde o janeiro que marcou “o verão do topless” nas praias cariocas. Depois que uma comerciante decidiu enfrentar os policiais que a reprimiram por tomar sol sem a parte de cima do biquíni – e a revolução, neste caso, foi amplamente televisionada –, os protestos foram tantos que até o secretário de Segurança na época decretou que não era o caso de arrastar para a delegacia moças que quisessem seus bronzeados sem marcas. O recado do secretário soou como um “liberou geral”, mas o fenômeno passou rápido. Inclusive porque o Código Penal, que data de 1940 (quando os maiôs cobriam muito mais), não mudou até hoje. Embora não faça referência direta ao topless, uma garota mais desencanada na praia ainda pode ser autuada com base no artigo 233, que proíbe a “prática de ato obsceno em lugar público”.

Mas, espera aí, peito de fora na praia é ato obsceno? E na Sapucaí tudo bem? Em fevereiro, mês do Carnaval, o público das passarelas do samba Brasil afora não parece exatamente escandalizado com a profusão de seios à mostra. Quando a festa termina, vestem-se as roupas e o pudor.

Há algo muito além do sociológico na questão da nudez. Mesmo nos lugares onde isso é tão inevitável quanto natural – o vestiário da academia, o provador de roupas coletivo, o consultório médico –, ficar pelada em geral é desconfortável para a maioria das mulheres, o que diz muito sobre nossa relação com o corpo, independentemente do país em que estamos. A própria Luana Piovani, capa desta edição, acostumada a posar sem roupa em ensaios sensuais, conta que, quando teve a chance de fazer topless num lago da Suíça (isso no tempo em que ela não era seguida pelos paparazzi), se sentiu estranha: sem perceber, se viu cobrindo os seios com as mãos.

O nu ainda é tabu. Tanto que é notícia: basta alguém tirar a roupa em público que prontamente ganha as manchetes de jornais, sites e revistas. Tem sido assim com as ativistas do Femen (no Brasil e no mundo), aconteceu aqui na Marcha das Vadias no ano passado e, no momento em que escrevia este texto, um portal da internet noticiava que um atleta brasileiro tinha sido fotografado nu para um calendário beneficente. Outro veículo avisava da nova mania virtual, iniciada por duas britânicas: postar fotos de nus, feitas na neve. Nenhum dos casos seria publicado se os personagens estivessem vestidos. As feministas em protesto, o atleta do calendário e os anônimos em seus retratos banais conseguem atenção porque ficar pelado é algo, no mínimo, digno de nota – isso quando não é caso de polícia. 

Carol Sganzerla, diretora de redação.

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