por Noor Shakouj

’’Se eu não ligar em uma hora, me procura!’’

O terceiro dia de caminhada, após uma boa noite de sono, começou promissor, mas por pouco tempo. A violenta polícia turca pegou Noor e seus amigos ainda em Edirne. Eles foram separados. Noor ficou sozinha. Foi obrigada a entrar em um ônibus sem dinheiro e sem saber para onde estava sendo levada. Entre ligações desesperadas, pediu: "Se eu não ligar em uma hora, me procura". Ela retornou a ligação pouco depois. Cercada pela polícia, estava a caminho de algum lugar desconhecido. Com a esperança e a bateria do celular quase no fim.

17 de setembro, 2015. Terceiro dia. 

"A gente saiu do hotel ao meio dia e pegou um ônibus para chegar à rodoviária de Edirne, onde estava o principal ponto de protesto. Um pouco antes dali, havia um posto de fiscalização. Quiseram ver todos os documentos. Por sermos sírios, mais uma vez nos fizeram descer. Esperamos na beira da estrada por uns dez minutos, até que veio um carro de polícia. Fomos forçados a entrar no carro. Seguimos para um posto policial. Éramos nove. Os primeiros nove a chegar lá.

Depois disso, a cada hora o número de pessoas aumentava. Eu estava ajudando a comunicação entre a polícia e os detidos. Como falo turco e árabe, traduzia quando alguém estava se sentindo mal, se alguém precisava de comida, se os bebês precisavam de leite. 

Eu estava registrando tudo. Tirava fotos das pessoas, da polícia, do lugar. Ninguém se incomodou no começo. Um cara que estava no ponto de protesto veio conversar com a gente e se afastou por cerca de 10 metros para conseguir um pouco de água. A polícia deve ter achado que a gente estava planejando fugir. Pegou o cara desceu porrada. Quando perceberam que eu estava filmando tudo, ficaram loucos. Não dá nem pra descrever... O ambiente, que estava relativamente calmo, virou uma confusão. 

Confiscaram o celular da Diala, com o qual eu estava filmando. Checaram foto por foto, inclusive os arquivos pessoais dela. E começou um questionamento sem fim. Queriam saber se a gente era da imprensa, se estávamos trabalhando para alguém. Apenas negávamos. Os policiais turcos estão apavorados em relação à imprensa. Se alguém tira uma foto dali e publica, alguma organização poderia vir até nós. A verdade é que eles não têm o direito de nos manter lá, como se estivéssemos presos. Mas quem se importa.

Era começo da noite quando me forçaram a entrar num ônibus. Diala e Mulham ficaram para trás. Eu tentei de todas as formas ficar. Dizia que não tinha mais ninguém, que eles eram as únicas pessoas que eu tinha naquele momento. Não teve jeito, me puxaram pela mão e me forçaram a entrar nesse ônibus. Não conseguir pegar nem meu dinheiro, que estava com Diala.

Disseram que estávamos indo para Istambul, mas eles estavam mentindo. Muita coisa aconteceu nesse ônibus. As pessoas estavam loucas, queriam sair dali de qualquer maneira. Por um momento paramos, a polícia entrou, bateu sem nenhum motivo aparente em algumas pessoas. Teve gritaria, claro. Não podíamos mais reagir. Muitas vezes, fui tradutora para aquelas 40 pessoas. Fui eu que traduzi a notícia ruim de que estavam nos levando para um acampamento em Osmaniye, uma área entre Adana e Gaziantep, na fronteira com a Síria. Estavam me mandando de volta para casa.

Ficamos desesperados. Não sabíamos de nada, se sairíamos de lá, como, quando. Se fosse verdade, seriam 18 horas de viagem. Penso em fugir, mas há seis carros de polícia em volta do ônibus. Seis carros de polícia para um ônibus! Eles estão abrindo caminho na estrada no meio do trânsito que está parado em algumas partes. Minha bateria está acabando e eu preciso economizar esse pouco que resta. Mando notícias assim que possível."

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