Não existe homem feio
O comercial de bebida trocou o machão bebaço por Márcio Garcia e Malvino Salvador
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Não sou rede social, mas também tenho meus momentos de #claricelispectorfeelings:
“E se lhe estavam brilhantes e duros os olhos, se seus gestos eram etapas difíceis até conseguir enfim atingir o paliteiro, em verdade por dentro estava-se até lá muito bem, era-se aquela nuvem plena a se transladar sem esforço. Os lábios engrossados e os dentes brancos, e o vinho a inchá-la. E aquela vaidade de estar embriagada a facilitar-lhe um tal desdém por tudo, a torná-la madura e redonda como uma grande vaca”.
É um trecho do inebriante Devaneio e embriaguez duma rapariga. Nesse primeiro conto de Laços de família, a tal rapariga encontra, entre uma taça e outra, um alívio na rotina. Em 1960, quando o livro saiu, mesa de bar ainda era um território quase exclusivamente masculino. De lá para cá, o ambiente se tornou mais feminino. E, na “vaidade de estar embriagada”, cada vez mais mulheres fazem o que não fariam com uma ou duas doses a menos – como você lê na reportagem “Lebmra quem tmoou toads?”, na página 52.
Até os comerciais de cerveja perceberam a mudança. Após décadas repetindo feito pinguço a ladainha da “gostosa-de-biquíni”, seus enredos de 30 segundos começam a incorporar outras personagens. De Ivete Sangalo a atores como Malvino Salvador, Márcio Garcia e Ricardo Tozzi, o novo elenco é praticamente uma política de ação afirmativa – para compensar os intervalos que você passou com o baixinho da Kaiser e todos aqueles caras mal-acabados que a cerveja tornava irresistíveis.
Se existe igualdade entre os sexos na hora de pedir mais uma rodada, a reação geral a uma mulher ou a um homem cambaleantes continua muito diferente. Quando ele exagera no goró e enrola publicamente os pés nos tapetes das etiquetas, melhor deixar quieto e cantar junto: “Eu bebo sim, estou vivendo, tem gente que não bebe e está morrendo”. Mas quando é ela quem tenta em vão fazer o 4, a tolerância desafina. Quantas vezes se repete por aí que “mulher bêbada é pior que homem bêbado”, como se fosse questão de gênero e não de teor alcoólico, como se houvesse um teste do bafômetro moral?
Bom, pelo menos você pode inverter a regra número 1 do machismo etílico e gritar para sua amiga no balcão: “Não existe homem feio, você é que não bebeu o bastante”. Só fica esperta porque amanhã você vai estar sóbria.
Fernando Luna, diretor editorial
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