por Gabriela Sá Pessoa
Tpm #135

Como evitar que a nossa relação com a alimentação esteja sempre cercada de remorso?

Quarenta por cento das brasileiras estão constantemente tentando perder peso. Quase todas as outras já fizeram (e vão continuar fazendo) algum tipo de dieta na vida. Como chegar a um equilíbrio e evitar que a relação com a alimentação esteja sempre cercada de remorso?

Você estava de dieta, pela enésima vez. Mas chegou a sexta-feira e não deu pra resistir: sucumbiu ao chope com os amigos e a um hambúrguer pós-festa na madrugada. O que lhe resta? Muita culpa. E a promessa à la Scarlett O’Hara às avessas para a segunda-feira: “Nunca mais comerei carboidrato”.

Não é só você que age assim. Uma pesquisa realizada pelo Ibope em 2012 nas principais regiões metropolitanas do país aponta que 40% das brasileiras estão constantemente tentando perder peso (enquanto 29% dos homens fazem a mesma afirmação). No mesmo ano, a empresa inglesa Diet Chef constatou que, em média, as britânicas passam 17 anos da vida controlando o que colocam no prato. Britânicas, brasileiras ou de qualquer nacionalidade, as dietas são uma espécie de obsessão entre as mulheres ocidentais. É o que garante a historiadora inglesa Louise Foxcroft, autora do best-seller A Tirania das Dietas – Dois mil anos de luta contra o peso, a ser lançado aqui no final de setembro. O livro disseca a história das dietas desde a Antiguidade. “A maioria de nós já fez dieta ou está pensando em começar alguma. Na nossa sociedade, o ideal de corpo feminino é magro, com seios grandes. Ainda é a figura da Barbie, inatingível para a maioria das mulheres sem sofrimento, cirurgia ou ambos.” (Leia mais da entrevista em box no final da matéria).

“As mulheres não querem emagrecer. Elas querem ser emagrecidas”, critica a médica intensivista Mariana Perroni, a quem a rotina diária em um hospital de São Paulo permitiu constatar até onde as pessoas chegam por causa de dietas que restringem o ato de comer e suprimem nutrientes fundamentais à saúde.

Um dos regimes do momento é a polêmica dieta 5:2, a do jejum, que virou febre na Inglaterra, nos Estados Unidos e aqui também. Ela corta 75% das calorias que normalmente uma pessoa precisa ingerir ao dia. A promessa é perder 6 quilos por mês seguindo o programa – em que durante cinco dias da semana come-se normalmente, até sobremesa, mas, nos outros dois, limita-se o consumo a no máximo 500 calorias (o equivalente a um ovo cozido, uma fatia de presunto, uma tangerina e um sanduíche com uma fatia de mussarela light e alguns legumes picados).

“As pessoas me dizem que o melhor do jejum é que, por mais que elas não tenham a determinação de recusar chocolate para sempre, conseguem dizer não nos dias de restrição, porque sabem que poderão comê-lo no dia seguinte”, defende o médico Michael Mosley, criador do programa alimentar.

Sob controle

Outra dieta em alta é a Dukan, criada pelo pelo médico e nutricionista francês Pierre Dukan e popularizada por celebridades como Kate Middleton e Beyoncé. Tem milhões de seguidores no mundo – só no Brasil são 25 mil inscritos no site oficial da dieta (90% deles, mulheres). Espécie de releitura da famosa dieta Atkins, que fez sucesso entre os anos 1990 e 2000 pregando o alto consumo de proteínas, inclusive embutidos e carnes gordurosas, a versão de Dukan se proclama mais saudável por incentivar a ingestão de proteínas mais magras. “Minha dieta faz o fígado descansar, pois é uma das mais pobres em gorduras. No que tange aos rins, são os açúcares e os carboidratos que são tóxicos para esses órgãos”, diz o francês. Mas há controvérsia: Adriana Kachani é uma das muitas nutricionistas que declaram que proteína demais sobrecarrega, sim, o sistema renal: “Os rins excretam a parte tóxica da proteína, então pode haver uma sobrecarga nesse órgão se você consumir tal nutriente em excesso”.

Adepta há duas décadas de um cardápio rigoroso, a jornalista Glória Maria costuma jejuar durante dez dias, duas vezes por ano. Geralmente no Carnaval e em outubro. Para ela, se feito com responsabilidade, o regime traz benefícios. “Faço para purificar o organismo. Nesse tempo tomo um xarope de berries e umas pílulas.” Glória considera bem resolvida sua relação com a alimentação e diz que só come o que sabe que lhe traz energia. “Acho que você é o que come. Meu cardápio é resultado de anos de observação. Viajo há 35 anos pelo mundo e preciso me sentir disposta. Então não dá pra comer feijoada e não conseguir levantar da cadeira.” Estão fora de sua alimentação pratos cremosos, refrigerante, álcool, fritura e chocolate, por exemplo. Uma olhada nas imagens de suas refeições fotografadas por ela mesma para a Tpm, mostram que Glória come bem pouco. Mas já teve momentos mais espartanos: ela assume já ter recorrido a dietas milagrosas algumas vezes. “Olha, acreditar em algumas, acredito. Mas por um período.”

 

"O que funciona não é dieta, mas mudança de comportamento” 

 

É comum experimentar dietas rápidas, como já fez Glória Maria. Adriana Kachani diz que elas até funcionam. “O problema é: qual é o custo dessas dietas? Como a pessoa vai viver depois que acabam?” Para a nutricionista, regimes “milagrosos” desregulam o metabolismo, pois privam o corpo de nutrientes essenciais. Louise Foxcroft pensa o mesmo. “Esses regimes são cíclicos, feitos para durar o tempo que prometem. Então você vai ter sucesso por aquelas duas semanas. De fato vai emagrecer, mas cria deficiências nutricionais – o que depois devolve todos os quilos que você perdeu e mais outro tanto. E faz com que recorra a uma próxima nova dieta.”

Depois de 15 anos de brigas dramáticas com a balança, experimentando todas as dietas do momento, Michele Franzoni, 35 anos, entendeu que o caminho mais eficiente é a reeducação alimentar. Com 36 quilos a menos, hoje ela é especialista em “emagrecimento saudável” e divide sua experiência em sua página na internet, o Blog da Mimis, com dezenas de milhares de seguidores. É o caminho mais eficaz, mas ela admite que está longe de ser o mais fácil. “Precisa ter paciência, dedicação e objetivo.”

Presidente do Departamento de Obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, Mario Kedhi também não acredita em método milagroso. “Para começar, o que funciona não é dieta, mas mudança de comportamento.” Ele concorda com Mimis: é o caminho mais trabalhoso. “Mas é para sempre, diferente das dietas que você recomeça inúmeras vezes.”

Cinco quilos em uma semana?

Encarar uma reeducação alimentar não é apenas difícil pela falta de brigadeiro – mas porque estamos familiarizados com o sentimento de gratificação instantânea: resultados a longo prazo são bem menos atraentes do que o regime que promete secar 5 quilos em uma semana. O problema é que perder peso muito rapidamente é contraindicado pelos médicos. A Organização Mundial da Saúde estabelece que o limite máximo para emagrecimento saudável é a perda de 1,5 quilos por semana. E esse limite não é aplicável para todos. Adriana Kachani aconselha que uma mulher comum, com boa saúde, perca até meio quilo por semana. “Mais que isso, você está basicamente desidratando e perdendo vitaminas – 70% do nosso organismo é água, você acha que sai de onde esse volume todo? A gordura é uma das últimas coisas a queimar.”

Ainda mais porque a mulher tem mais facilidade para ganhar peso e mais dificuldade de perdê-lo: “A constituição e a memória do corpo feminino são propensas a estocar gordura, principalmente em regiões como barriga, quadril e membros inferiores”, esclarece Kedhi. Outra “desvantagem” do corpo feminino em relação ao masculino no quesito perda de gordura é que nossos hormônios vão dificultando essa perda conforme envelhecemos – e ainda nos estimulam a ingerir mais açúcar. “Mulheres estão mais sujeitas à variação de humor que os homens, devido à montanha-russa hormonal que ocorre periodicamente. O açúcar e o carboidrato agem como reconfortantes imediatos”, diz Kedhi.

Trocar o pacote de biscoitos por uma fruta também é difícil por mais um fator: chocolates, salgadinhos e outras guloseimas são feitos para ser viciantes. “A indústria de alimentos cria produtos tão sedutores às papilas gustativas que é difícil não exagerar”, critica o jornalista americano Michael Moss, vencedor do prêmio Pulitzer pelo livro Salt Sugar Fat: How the food giants hooked us (algo como Sal açúcar gordura: como a indústria dos alimentos nos fisgou; Random House, 2013, ainda não lançado aqui). Ele denuncia que a combinação sal + açúcar + gordura faz produtos irresistíveis, desenvolvidos a partir de uma matemática perversa. Os consumidores participam de testes em laboratório e elegem as melhores características de cada protótipo (sabor, consistência, tempo que demora para se dissolver na boca), que viram comidas “perfeitas” e causadoras de dependência.

Da dieta à doença

“Mudanças no papel da mulher mexeram nas formas do corpo materno – de curvilíneo e voluptuoso para quase andrógino no século 20”, contextualiza Foxcroft. A epidemia de dietas gerada a partir dessa mudança de padrão é uma questão especialmente feminina – assim como a culpa de engordar (e, em última análise, de comer). “Pressão social, vergonha e humilhação sempre foram usadas para nos convencer de que somos culpadas pelo corpo que temos e, logo, pelo que comemos. Na maioria das vezes fazemos regimes por razões erradas, para alcançar padrões e expectativas de outros. Eles tendem a falhar e causam frustração.”

Fábio Salzano, psiquiatra e vice-coordenador do Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, atenta que os problemas com o peso podem ser apenas a ponta do iceberg. “Na dieta, a paciente pratica o controle de sua alimentação – o que nem sempre consegue exercer em outras áreas da vida. Existe um nível de satisfação a cada quilo perdido. Isso a convence de algum sucesso e ilusão de controle, mesmo que outras questões – emocionais, profissionais, sociais – continuem não resolvidas.” Para Salzano, dietas cada vez mais radicais são o principal gatilho para desenvolver transtornos alimentares – que atingem nove brasileiras para cada brasileiro.

 

“Na dieta, a paciente pratica o controle de sua alimentação – o que nem sempre consegue exercer em outras áreas da vida. Existe um nível de satisfação a cada quilo perdido. Isso a convence de algum sucesso e ilusão de controle, mesmo que outras questões – emocionais, profissionais, sociais – continuem não resolvidas.” 

 

Foi para emagrecer “mais rápido” que a produtora paulistana Nicole Balestro, 27 anos, tomou por conta própria duas pílulas de sibutramina de uma só vez e quase morreu. Para atender às expectativas de um namorado que insinuava que ela deveria emagrecer, ela tomou as pílulas originalmente receitadas para uma amiga (que pesava três vezes mais que ela). Horas depois da ingestão, passou mal no trabalho, teve uma convulsão e foi parar em uma UTI. O diagnóstico era de sensibilidade à taurina, um dos compostos do remédio.

Entre os amigos, a produtora tem fama de autoestima “no céu”. Ela mesma admite: “Sempre gostei de mim. Não sei o que me deu pra ficar tão insegura e recorrer a uma atitude de risco. Olho pra trás e parece um absurdo, muito distante da mulher forte que sou”. Hoje, ela está 8 quilos acima do peso que tinha na época, mas leva o assunto com tranquilidade. Se planeja perder o peso a mais? “Sim, quando der, se der. Não é minha prioridade”, diz.

Prazer em comer

A doutora em biotecnologia Ana Carolina de Carvalho, 37, não aceitou o corpo voluptuoso que ganhou depois da quarta gravidez. Há dois anos a balança apontava 89 quilos, 36 a mais que seu peso de solteira. Ela diz que nunca sentiu pressão, nem da sociedade nem do marido. “Simplesmente me sinto melhor magra”, conta. Ana decidiu que faria dieta só uma vez na vida. Começou um programa de reeducação alimentar autônomo, inspirado em buscas no Google e perfis de alimentação saudável no Instagram. Em sete meses recuperou o peso de solteira, mas não só: passou a ter prazer em comer e preparar a própria comida. “Acredito em mudança de hábito, não em dietas – elas não reeducam, levam quem faz a sempre recorrer a novas.”

Adriana Kachani ressalta: é importante que um cardápio para emagrecer seja saboroso. “O melhor caminho é comer de tudo um pouco. Na minha opinião, uma dieta que não te deixa sair para comer com os amigos não é legal. Falamos de privação alimentar, mas e a social?” Fábio Salzano concorda: “Comer não é só necessidade, envolve prazer e socialização”.

 

“Muitos de nós só fazem para mudar para algo que nos foi dito que é melhor ser ou parecer. Isso está errado. Felicidade e beleza não são assim tão superficiais como somos levados a pensar”

 

Glória Maria permite-se concessões. “Adoro comida japonesa. Quando saio pra jantar, não fico de duplinha de salmão. Peço logo dez de salmão, dez de atum, dez de namorado. Sem crise.” Mimis também aprendeu que, melhor do que rejeitar a sobremesa, é valorizá-la. “Pra mim, brigadeiro é das coisas maravilhosas da vida. É como viajar ou comprar algo muito caro. É de vez em quando, especial.”

O caminho de Glória e Mimis é o de ressignificar a comida e a relação com ela. Qualquer que seja o caminho que você escolha, Foxcroft aconselha “uma ênfase diferente, que se distancie das noções arraigadas de culpa e fracasso”. Para ela, se feita por motivos de saúde, a dieta é sempre bem-vinda: “Muitos de nós só fazem para mudar para algo que nos foi dito que é melhor ser ou parecer. Isso está errado. Felicidade e beleza não são assim tão superficiais como somos levados a pensar”.

Antes de encarar qualquer mudança, ou o próximo regime absurdo, a recomendação da especialista é se perguntar: por que e para quem quero emagrecer? Mais do que riscar alimentos do cardápio ou morrer de culpa por ter comido uma fatia de bolo na hora do café, talvez o melhor seja riscar palavras como “milagre”, “fracasso” e, por favor, “secar”.

Ministério da Saúde adverte: Gordofobia faz mal pra alma 

Por Lola Aronovich*

Se já tem gente que não acredita na existência da homofobia, do machismo e do racismo, imagine o que pensam sobre gordofobia. “Ah, isso é gorda querendo se vitimizar”, já me disseram. Não é, não, tolinhos. Preconceito e discriminação contra gordos e, principalmente, gordas, são muito comuns na nossa sociedade.

Sim, contra gordas é pior. Num mundo que ainda exige que as mulheres sejam acima de tudo decorativas, a cobrança para que o sexo feminino se encaixe num padrão de beleza irreal é muito maior que pro masculino. Então gordos são zoados, mas, acredite, gordas sofrem muito mais. E tenho provas.

Pra começar, psicólogos de Yale descobriram que jurados homens são mais propensos a condenar mulheres gordas que magras. Pra homens gordos, não há discriminação. Mas os jurados associam as gordas à ganância e à falta de controle. Ou seja, um bando de criminosas em potencial!

O mercado de trabalho também é cruel com as gordas. Ser obeso é prejudicial pra carreira tanto de homens quanto de mulheres, mas ter apenas sobrepeso só é ruim pras mulheres, revela uma pesquisa de uma universidade em Michigan. Gordinhas ganham menos que magras, e a diferença não é pequena: são US$ 9 mil a menos por ano. Já as obesas recebem US$ 19 mil a menos! Se ser gorda faz mal ao bolso, é graças à gordofobia.

Vamos jogar esses preconceitos bestas pra escanteio? Até porque a gordofobia não é maléfica apenas para as gordas, como também para as mulheres com o peso “ideal” (ideal pra quem, cara-pálida?). Há vários estudos revelando que a maior parte das mulheres renunciaria ao sexo em troca da magreza. Muitas dariam um braço pra ser magras!

Eu prefiro aproveitar a vida e aceitar a mim mesma e às outras pessoas como elas são. Isso sim é mais saudável.

*Lola Aronovich é professora da UFC e autora do blog Escreva Lola escreva

 

Cirurgia bariátrica: fazer ou não?

O dilema de quem está acima do peso

Por Flávia Durante*

Não fui uma criança nem uma adolescente gorda. Bastou me formar na faculdade, em Santos, mudar para São Paulo e trabalhar sentada, comendo mal e rápido, para engordar. Nunca deixei de fazer nada por estar gorda: transar de luz acesa, usar biquínis e roupas coloridas, dançar em shows e boates, mesmo recebendo olhares debochados e xingamentos por essas atitudes. Meu engajamento no universo plus size não é apologia à obesidade. É questão de mostrar que todas as mulheres têm sua beleza e podem vestir ou fazer o que quiserem. E que elas não têm que virar motivo de chacota por isso. 

Gosto de mim mais magra e cheguei a ensaiar algumas dietas e exercícios, mas nunca tive a perda de peso como prioridade. Aí tomei um susto: havia chegado aos 130 quilos, com hipertensão, pré-diabetes e esteatose (gordura no fígado). E tudo que vem junto: dor nas costas, falta de fôlego, apneia noturna e dificuldades até para amarrar um tênis.

O cardiologista indicou a cirurgia bariátrica: eu precisaria perder com urgência pelo menos 30% do peso para a hipertensão não ocasionar um enfarto ou AVC. Fiquei assustada. Mas, apesar da tentação do resultado rápido, tenho medo da cirurgia, que não deixa de ser uma mutilação. E do pós: eu, que sempre gostei de comer bem, conseguirei comer só um montinho de cada alimento pro resto da vida?

Pesquisando na internet, recebo mensagens gentis de mulheres que já fizeram a cirurgia, dando dicas e indicando grupos no Facebook. Ver o antes e depois de homens e mulheres felizes com suas novas formas me deixa tentada, mas apreensiva: vou me tornar uma ex-gorda metida a besta? Ficarei magra, mas esquisita? Terei que chupar churrasco? (Li o relato de uma menina que fazia isso.)

Confessei à minha psicóloga: para mim, no fundo, fazer a bariátrica seria uma prova de que não tenho competência para emagrecer por conta própria. Ela diz que o mais importante é a minha saúde. Enquanto não decido, continuo nas pesquisas e na terapia, além de recorrer à homeopatia e à hidroginástica. Meu maior desafio é fazer isso rápido, pois o tempo vai correndo, mas ninguém pode resolver nada por mim. 

*Flávia Durante, 36, é editora dos sites da Trip e da Tpm 

 

Sobre culpa e escolhas sensatas

A historiadora inglesa Louise Foxcroft escreveu um livro sobre a História das dietas ao longo de 2 mil anos. E reforça: o que funciona é fazer escolhas sensatas

Por Natacha Cortêz*

Tpm. Historicamente, as mulheres são mais vulneráveis às dietas que os homens?

Louise Foxcroft. Pressão social, vergonha e humilhação sempre foram usadas para manter as mulheres “no seu lugar”. No passado, o valor de uma mulher e a possibilidade de ela conseguir um casamento eram baseados na beleza. Ainda não escapamos totalmente dessa opressão. A história da dieta mostra que as mulheres foram primeiro incentivadas e depois acusadas de emagrecer por razões de vaidade.

E elas têm uma relação mais culpada com a comida? 

Sim. E é um círculo vicioso: dietas podem fazer você se sentir pior, porque você provavelmente vai falhar. O fracasso embutido na maioria das dietas significa que você se proíbe de comer até que a comida vire muito mais importante do que sempre foi. E o efeito sanfona traz danos incalculáveis para a saúde. 

Analisando as dietas na história, você acredita que fazemos regimes mais ou menos saudáveis hoje?

 Muito menos. É um momento mau e preocupante. Basicamente porque estamos na maioria das vezes fazendo regimes por razões erradas – como para alcançar padrões vendidos pela mídia. Também compramos remédios fortes e perigosos para emagrecer, muitas vezes ilegalmente ou sem prescrição, além de produtos diet inúteis. Como os shakes, que não saciam nem ajudam ninguém.

No seu livro, você compara fazer dieta com estar apaixonado... 

Fazer dieta e estar apaixonado provocam sentimentos similares de ansiedade, fome e desejo. Existe uma mistura de sensações físicas e tortura mental nas duas situações. Na paixão, você fica remoendo obsessivamente o objeto do seu amor, discutindo sem parar sobre ele, fantasiando e se preocupando a respeito dele. É igual com seu apetite.

Você já fez alguma dieta absurda? Como é sua relação com a alimentação? 

Eu nunca precisei ou senti necessidade de fazer dieta, mas tentei uma de baixo carboidrato e alta quantidade de proteína. Foi bastante desagradável e difícil de manter... À medida que fui envelhecendo, percebi meu corpo mudando e pensei que tudo bem, que assim é natural. Gosto de comer bem, especialmente comida fresca. E eu sempre cozinho, nunca como fast-food nem muito açúcar ou pão.

Existe alguma dieta que você acredita ser a melhor? 

Acredito que devemos voltar à noção grega de Diatia: um regime de longa vida, com alimentos simples, de forma moderada e regular, dormindo e se exercitando o suficiente. A indústria da dieta está crescendo, e muito, sobre nossos corpos com sobrepeso e a vergonha que temos deles. Ela valoriza dietas que prometem resultados rápidos, mas geralmente você volta a ganhar esse peso e mais um tanto. Precisamos ignorar todas as dietas da moda. Elas apenas distraem a mente do que é necessário e inevitável: você tem que fazer escolhas sensatas e cumpri-las.

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