Mulheres que trabalham para o Brasil andar na pandemia

por Carol Ito

Tpm ouviu seis profissionais que não estão em quarentena sobre como é lidar com o estresse, o medo e o anseio de superar a crise, em meio à nova rotina

Enquanto quem pode está em casa, há muita gente se arriscando na rua para garantir o abastecimento, a saúde, a segurança, a informação, entre outros serviços essenciais. Muitas mulheres estão na linha de frente, convivendo com o estresse, o medo da doença e com a vontade de ajudar o país a superar a crise.

Para entender o que mudou na vida de algumas dessas trabalhadoras e como é lidar diariamente com o turbilhão de sentimentos gerados pela pandemia, convidamos uma médica, uma entregadora, uma delegada, uma enfermeira, uma jornalista e uma voluntária para falarem sobre a nova rotina.

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Aline Calixto, 32 anos, médica ginecologista obstetra, mora em São Paulo

"Trabalho com parto humanizado, atendendo de forma particular. Hoje, tenho pacientes grávidas de dois extremos: as gestantes que querem fazer consulta presencial e 200 exames, mesmo sem precisar, e as que não querem sair de casa para absolutamente nada. Nesse último caso, algumas cogitam fazer parto domiciliar, com parteiras, mesmo não estando seguras. 

Eu acredito na assistência domiciliar por parteiras, mas só para as pacientes, para o casal, para a família que acreditam absolutamente nisso, porque, se algo der errado e for preciso ir até o hospital, a frustração pode ser muito grande. Acho que o meu trabalho contribui para acalmar as pessoas, dar orientações com firmeza, ser um vetor de informação, de credibilidade. 

“A gente aprende que para tudo na vida existe o que é ideal e o que é possível fazer”
Aline Calixto, médica obstetra

Faço de tudo para não ser um veículo do vírus, do ponto de vista objetivo. Quando acabo um parto, tomo um banho no hospital e outro quando chego em casa. Lavo o nariz com soro fisiológico para impedir que o vírus entre na mucosa, uso máscara e luva sempre. Do ponto de vista da profissão, o risco é inerente, mas eu nunca me questionei sobre isso, nunca pensei em não trabalhar, porque essa é a minha função na vida.

Quando não estou no consultório ou no hospital, estou em casa com meu marido e minha filha de 2 anos. A gente faz malabarismo para entreter a criança, limpa a casa, faz comida, então, é meio caótico. Eu estava num momento da vida de priorizar minha família, mas agora preciso ir para a linha de frente, trabalhando. É entender a minha função social, que pode ser transitória, mas que é isso, aqui e agora.

Também trabalho na [organização humanitária internacional] Médico sem Fronteiras. Hoje, estou no setor administrativo, mas já fiz duas missões no Afeganistão: uma em 2015, em que trabalhei com urgência em maternidade, e a outra em 2017, quando trabalhei com violência sexual. Em uma missão, a gente lida com o sofrimento, a morte, a perda, o tempo todo. Tudo pode ser fugaz e temos que ter tranquilidade para ajudar ao máximo. A gente aprende que para tudo na vida existe o que é ideal e o que é possível fazer."

Carol Gomes, 23 anos, entregadora de comida por aplicativo, mora em Taubaté (SP)

"Faço graduação em análise e desenvolvimento de sistemas e estou tendo aulas on-line. Fora isso, trabalho de moto com entregas de comida pelo iFood, desde novembro do ano passado. Com essa pandemia, ao mesmo tempo que sinto que estou ajudando as pessoas, sinto que posso ser um problema. É complicado. 

“Com essa pandemia, ao mesmo tempo que sinto que estou ajudando as pessoas, sinto que posso ser um problema, é complicado”
Carol Gomes, entregadora

Nos primeiros dias [de quarentena], eu não saí para fazer entregas, porque fiquei com medo. Mas, como esse serviço não foi proibido e eu não posso parar de trabalhar, continuei. O bom é que eu moro sozinha e não corro risco de contaminar ninguém da minha casa. Não estou nem indo visitar minha mãe, que mora num bairro próximo, porque ela é do grupo de risco. 

Eu fico paranoica às vezes porque têm pessoas que não estão levando a coisa muito a sério, querem se aproximar da gente, tocar na mão, tanto no momento em que o funcionário do restaurante vem me entregar o pedido, quanto na abordagem com o cliente. Faço higienização das malas, uso máscara, o cliente é quem pega a comida, não coloco a mão no pedido. O aplicativo manda orientações pelo WhatsApp e SMS o tempo todo. 

Acho que o serviço de delivery está sendo muito importante, porque, além de comida, dá para entregar uma série de outras mercadorias das pessoas que não estão podendo abrir suas lojas. É essencial." 

 Fernanda Herbella, 42, delegada-chefe da unidade do aeroporto de Congonhas, mora em São Paulo

"Na delegacia do aeroporto, a gente lida muito com furto de bagagem, fraude na compra de passagens aéreas, brigas entre taxistas, passageiros e companhias aéreas. Os casos seguem os mesmos, mas diminuíram, por conta do cancelamento da maioria dos voos e da ampliação dos crimes que podem ser registrados pela internet. Mas a polícia não para, a gente continua investigando os casos, atendendo ao público.

“Até virou uma brincadeira: 'Agora tem que carregar álcool em gel na cintura'”
Fernanda Herbella, delegada

No começo, o medo da contaminação era muito grande. O número de passageiros de diferentes estados que circulavam chegava a 60 mil por dia. Hoje, o aeroporto está com as luzes parcialmente apagadas, as escadas rolantes desligadas. Isso dá um pouco de tristeza, é um clima bem difícil, de incerteza do que vai ser. 

Numa operação policial, é preciso revistar, ter contato contato físico, não tem como não haver. Mas a gente respira fundo e vai. Além dos equipamentos policiais de proteção, como colete à prova de balas, eu e minha equipe temos que usar luva, máscara, portar álcool em gel. Até virou uma brincadeira: 'Agora tem que carregar álcool em gel na cintura'. Quando chego em casa, tenho que higienizar a arma também. 

Moro com meu marido e meu filho, fico chateada às vezes de não poder ficar com eles e me preocupo com o risco de contaminação. Mas policial tem muito aquilo de 'tenho que seguir na minha missão, quero ajudar a população'. Foi esse o juramento que eu fiz, é isso que eu quero."

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 Luciana Rodrigues, 43, enfermeira no hospital municipal de São Vicente (SP), mora entre São Vicente e São Caetano (SP)

"Morava só em São Caetano e recentemente aluguei um apartamento em São Vicente [litoral de SP], onde fico a maior parte da semana, trabalhando. Já tinha me programado para morar na cidade em que eu trabalho para o caso de alguma emergência, como as chuvas e enchentes. Mas, com a pandemia, resolvi mudar de vez para me distanciar do meu pai e dos meus filhos, que têm 19 e 11 anos, já que eu trabalho na linha de frente, na emergência. Essa distância me entristece um pouco, mas como sei que é para o bem deles, prefiro me manter longe e só voltar aos fins de semana. 

“Quando a gente vai trabalhar, vai para enfrentar uma guerra”
Luciana Rodrigues, enfermeira

Meu pensamento agora é de enfrentar a situação, suprir a falta de funcionários que estão afastados, com suspeita ou doentes por coronavírus, mostrar que a gente é mais forte e vai sair dessa guerra. Tive colegas que faleceram, é uma coisa que dói. Também dói presenciar uma pessoa com falta de ar, tentando puxar um fôlego que não existe. Mesmo com o cateter de oxigênio no nariz, tentando ajudar, é como se você visse a pessoa se afogando. 

Procuro não pensar na situação toda enquanto vou para o trabalho. Estou cumprindo os meus afazeres, a minha rotina diária. Durante meu horário de almoço, vejo bastante gente na rua, pessoas circulando livremente na praia. Isso me entristece, elas não sabem o poder que esse vírus tem, é realmente mortal. Em casa, não assisto ao telejornal, só a algumas novelas antigas que estão passando. Deito e durmo, procuro não pensar em nada disso.

Tudo o que a gente faz, é por amor, não por dinheiro. Senão, não estaria trabalhando na enfermagem. Quando a gente vai trabalhar, vai para enfrentar uma guerra."

Marcela Rahal, 35 anos, repórter de televisão, mora em São Paulo

"Minha estreia como repórter da CNN foi durante a pandemia, no dia 15 de março. Estou praticamente todos os dias cobrindo o que acontece no Palácio dos Bandeirantes, as ações do governador de São Paulo e participando das coletivas de imprensa, em que são anunciadas medidas de combate à doença. 

“Somos porta-vozes das autoridades e da população, mostramos o que está acontecendo no mundo para as pessoas que estão enclausuradas”
Marcela Rahal, jornalista

As coletivas estão sendo feitas num espaço maior e mais ventilado do que antes, colocaram mais espaço entre as cadeiras usadas pelos jornalistas. A emissora está tomando medidas: eu não preciso ir, por exemplo, até a redação, estamos tomando o cuidado de usar dois microfones, um para mim e outro para o entrevistado. Mas têm limitações. Na TV, você tem que se aproximar da fonte, é assustador.

Entrevistei o [médico infectologista] David Uip, que é o coordenador do Centro de Contingência do Estado contra a doença e, no dia seguinte, ele testou positivo para coronavírus. Fiquei bem preocupada, comecei a achar que estava com sintomas da doença, porque o psicológico fala muito alto nessa hora.

Mesmo em casa, onde moro com meu marido e minha filha de 6 anos, fico completamente conectada, acompanhando canais de notícia, vendo quais as últimas medidas anunciadas. Isso gera uma ansiedade muito grande, mas procuro me cuidar, fazendo meditação. Comecei a fazer ioga por aplicativo junto com a minha filha, é bem gostoso. Penso que o impacto do nosso trabalho nesta hora é gigantesco, somos porta-vozes das autoridades e da população, mostramos o que está acontecendo no mundo para as pessoas que estão enclausuradas dentro de casa."

Renata Trajano, 40 anos, cofundadora do Coletivo Papo Reto, que atua no Complexo do Alemão (RJ)

"O Papo Reto é um coletivo focado em direitos humanos que existe desde 2014 e atende principalmente o Alemão. Com a pandemia, a gente criou um gabinete de crise junto com outras comunidades, começamos a espalhar cartazes pela favela, captar doações financeiras, distribuir água, sabão, alimentos, produtos de limpeza.

Ser mulher preta na linha de frente já não é novidade, é o cotidiano na favela. A maioria das mulheres são chefes das suas famílias, assumem a responsabilidade de manter a casa sozinhas. Como linha de frente, a gente se coloca bastante no lugar de outras mulheres, de outras famílias. 

“Ser mulher preta em linha de frente já não é novidade, é o cotidiano na favela”
Renata Trajano, voluntária

Eu e os voluntários vamos para a rua com toda a proteção, mas muita coisa tem que ser feita diretamente com as pessoas. A gente está trabalhando incansavelmente, acho que só consegui ficar um dia em casa nos últimos 30. Moro com a minha filha, de 20 anos, e minha mãe tem casa perto. A gente tem que se cumprimentar de longe. Eu queria muito estar em quarentena, mas temos 180 mil moradores no Alemão e imagino que metade vai passar necessidade. 

Tentamos fazer o mínimo, mas não dá para atender todo mundo, a gente não é o Estado. Essa ausência do poder público é o que às vezes me deixa desestabilizada. O que tem salvado minha saúde mental é fazer terapia on-line. É hora de se acolher e seguir de pé."

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