por Priscila Akemi Beltrame

A revolução trabalhista que levou as mulheres buscarem autonomia por meio de uma vida economicamente ativa ocorreu pela metade

Nunca a realidade teórica e prática dos direitos se apartou tanto como com relação aos direitos da mulher no que diz respeito a autorrealização no trabalho. A teoria da absoluta igualdade de direitos entre mulheres e homens se revela como flagrante desigualdade no exercício profissional. A verdade é que a revolução que levou as mulheres a deixarem de se dedicar exclusivamente aos assuntos domésticos e familiares, mas também buscarem sua autonomia por meio de uma vida economicamente ativa, ocorreu pela metade. Sem abandonar a casa, também exercem uma profissão, mas em ambiente claramemte desigual.

"A revolução que levou as mulheres a deixarem de se dedicar exclusivamente aos assuntos domésticos e familiares, mas também buscarem sua autonomia por meio de uma vida economicamente ativa, ocorreu pela metade"

E vários discursos são produzidos para justificar essa realidade: “a mulher consegue desempenhar várias tarefas”, “a prioridade é a carreira do marido”, “é natural que a mulher se preocupe com o dia a dia da casa”, “pagar as contas é coisa de homem”, ou “para você ter ultrapassado sua meta, você não pôde ter falado com a babá dos seus filhos”. E nada é mais poderoso para consolidar percepções erradas, enganosas e conformistas do que travar num discurso os valores mais arraigados da nossa sociedade. Os valores machistas.

Se as mulheres são maioria entre aprovados em concursos públicos, são maioria nos vestibulares mais concorridos do país, por que são esmagadora minoria em conselhos de administração de empresas ou entre cargos gerenciais?

Na América Latina, a situação é particularmente alarmante. Apenas 6,3% dos assentos em conselhos de administração das 100 maiores empresas são ocupados por mulheres. 47 destas 100 não possui sequer uma mulher em seu conselho de administração, segundo relatório da CWDI – Corporate Women Directors International. Ainda que a situação também chame a atenção em outros pontos do globo, ela nos mostra o quanto nossa região está defasada em termos de participação das mulheres em instâncias máximas empresariais (19,2% na América do Norte, 20% na Europa e 9,2% na região Ásia-Pacífico).

Ter ou não ter uma carreira pode ser uma opção. Em todo caso, o direito de desenvolvê-la com amplitude de possibilidades, igualdade de condições, e livre de assédio moral e sexual não é uma opção para mulheres. Aos mesmo tempo, é uma obrigação de uma sociedade que sobrecarrega as mulheres destravar suas possibilidades de desenvolvimento, promover suas competências e protegê-las do assédio.

"Ter ou não ter uma carreira pode ser uma opção. Em todo caso, o direito de desenvolvê-la com amplitude de possibilidades, igualdade de condições, e livre de assédio moral e sexual não é uma opção para mulheres"

Métricas criadas para promoções de juízes, por exemplo, citadas em um treinamento regional realizado pelo CLADEM – Comitê Latino Americano e do Caribe de Defesa dos Direitos das Mulheres, como trabalhos realizados no contra-turno de funções (artigos científicos publicados, aulas em faculdade), não levam em conta as dificuldades das mulheres para atingi-las. Não levam em conta que vivemos em uma sociedade na qual a mulher é a principal responsável por cuidar não apenas dos filhos, da casa, mas também dos pais, idosos, familiares com necessidades especiais, entre outros. O abismo de gênero está nos detalhes, e para as mulheres é sentido na pele diariamente.

"A mudança que levará a uma maior participação das mulheres em instâncias de decisão tem sido lenta, com pouca crítica e muito preconceito"

Chegamos, assim, ao nosso ponto: quando o plano de poder é gerenciado pelo homem, as possibilidades de acesso e desenvolvimento das mulheres diminuem. A mudança que levará a uma maior participação das mulheres em instâncias de decisão tem sido lenta, com pouca crítica e muito preconceito. A meritocracia da nossa sociedade está viciada. Já passamos do tempo em que a mulher precisava pedir permissão ao marido para trabalhar, mas enquanto tivermos que pedir permissão de outros homens para conseguirmos trabalho, nos mantermos nele e ascendermos profissionalmente, a lógica persistirá.

*Priscila é advogada, mestre em direitos humanos e doutora em direito penal pela Faculdade de Direito da USP. Também é membro do CLADEM – Comitê Latino Americano e do Caribe de Defesa dos Direitos das Mulheres e associada do IBCCRIM – Instituto Brasileiro de Ciências Criminais.

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