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Milly Lacombe: Sobre perder o controle numa tarde qualquer

Não briguei no trânsito nem me estapeei com ninguém numa fila. Foi um reles brigadeiro de maconha que me tirou do meu próprio corpo

Milly Lacombe: Sobre perder o controle numa tarde qualquer

Créditos: Estela Miazzi


Por Milly Lacombe TPM #164

em 13 de junho de 2016

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Minha mãe me convidou para jantar na casa dela, mas me arrependi logo depois de aceitar porque lembrei da tatuagem nova no braço e de como há dias evitava que ela visse os rabiscos. Aquela era uma noite de calor surpreendente para março, então o recurso de usar manga comprida estava descartado, mas por sorte achei no armário uma blusinha leve e de manga três quartos que deveria dar conta de esconder o desenho.

Minha mãe, 79 anos, superou quase tudo a meu respeito: a lesbiandade, o corintianismo, o carequismo e o marxismo, mas ainda não lida bem com as tatuagens e como essa era a maior delas achei prudente seguir omitindo. A ideia era omitir para sempre, contando com a sorte de num futuro próximo a visão dela ficar um pouco prejudicada, ainda que nada dê sinais de que isso vá acontecer.

Estávamos na cozinha preparando o macarrão e tomando umas taças de vinho quando ela me pediu para pegar o azeite e, ao tentar alcançá-lo, a manga da blusa subiu e expôs os riscos novos no braço.

“O que é isso no seu braço?”, ela perguntou com um timbre de voz que me remeteu à infância e me fez tremer. Diante do inevitável fiz a única coisa que uma mulher madura e de mais de 40 anos poderia fazer diante da opressão materna.

“O Antonio comeu cogumelo, sabia?”

Aqui é preciso fazer uma pausa.

Antonio é o sobrinho de 20 anos que, numa balada de música eletrônica em Barcelona, provou cogumelo e me contou a experiência em detalhes – e em confidência. Não me orgulho do que fiz, nem mesmo tendo que revelar que não fosse o desvio moral essa teria sido uma estratégia perfeita porque minha mãe mordeu a isca e quis saber tudo sobre o tal do cogumelo.

Tenho com Antonio uma das relações mais maduras e honestas que já consegui estabelecer na vida. Nos falamos todos os dias, conversamos sobre a dureza da vida, que envolve as dores do coração, bolamos mil estratégias para parar de sofrer por mulheres que parecem não nos querer, escuto e ofereço conselhos amorosos, rimos muito e bebemos algumas cervejas juntos.

Numa sexta-feira à tarde, pouco depois de eu entregá-lo de forma covarde para a matriarca, Antonio foi me buscar para darmos uma passada na livraria, comer um açaí e fazer uma visita a minha mãe. Lembrei que uma amiga tinha deixado em casa um brigadeiro de maconha porque eu nunca tinha experimentado um e ela estava curiosa para saber o que eu acharia, e quando Antonio ligou para dizer que tinha chegado para me buscar desci com o brigadeiro imaginando que poderíamos dividi-lo. Ele recusou o brigadeiro e riu quando viu que eu ia comer assim mesmo. Que mal poderia fazer, pensei? Era apenas um brigadeiro que, eu saberia depois, continha o dobro da quantidade de maconha prevista na receita.

Lembro de tudo a respeito da parada na livraria, lembro dos livros que compramos e de quanto tempo passamos lá, mas a partir daí nada mais está registrado em minha memória. Tenho uns flashes de Antonio me pedindo para ler alguma coisa em seu celular enquanto íamos para o lugar do açaí, e de como ler me parecia uma tarefa impossível. Fiquei algum tempo olhando a tela, as letras, mas elas não faziam sentido. “Quem passa uma tarde dirigindo a tia loucona pela cidade?”, ele quis saber, e eu não consegui nem rir nem responder. Falar era agora um esforço enorme.

Chegamos ao lugar do açaí e Paola ligou para dizer que ia dar um pulo por lá. Não lembro de vê-la chegando nem de quanto tempo ela ficou com a gente na mesa. Paola é minha amiga há muitos anos e sabe que eu não fumo maconha, então estava achando aquela minha persona uma coisa muito estranha e interessante. Devo ter tentado participar da conversa entre eles porque lembro quando Paola me disse: “Chega! Para de tentar falar, pelo amor de Deus. Fica aí olhando a parede e não tenta mais falar nada!”. Todos riram e eu voltei ao meu estado catatônico.

Faltava ainda a ida à casa da nonna, e Antonio decidiu que iríamos, mas que eu ficaria dentro do carro porque não havia a menor condição de minha mãe me ver daquele jeito. Esse é o tanto de elegância que existe nele, porque tratava-se da grande chance da vingança, de exibir minha alucinação à matriarca e ficar quite comigo, e ele escolheu não se vingar. Fiquei sozinha trancada no carro, sabendo que se alguém batesse no vidro e tentasse falar alguma coisa eu não teria condição de responder nada. Tive a impressão de que Antonio passou três dias com minha mãe, mas ele diz que ficou o tempo de tomar um cafezinho com ela.

Eram 7 horas quando ele me deixou em casa, subindo para ter certeza de que eu estava bem e me pedindo para beber muita água. Lembro que ele ria da situação e que naquela noite ficou me mandando mensagens para saber se eu estava bem. No dia seguinte perguntei a ele o que tinha acontecido e ele respondeu: “O mais engraçado é que não aconteceu nada”.

Perder o controle é se livrar da atuação da mente, essa que existe com o único propósito de complicar a realidade e que só funciona na dualidade. Mas o espírito, nossa melhor versão, não precisa da dualidade porque ele se faz gigante na unidade. E se a dualidade está na cabeça, a unidade está no coração. Se a opressão está na cabeça, a liberdade está no coração. Há, claro, muitas formas de perder o controle – ou a ilusão do controle, porque a verdade é que não temos controle sobre nada a não ser sobre uma coisa: nossa capacidade de amar. Perto de Antonio essa capacidade fica cristalinamente clara em mim. Perto dele eu me transformo em amor e entendo que não existe nada mais poderoso ou libertador; e que não precisamos de cogumelos ou de brigadeiros de maconha para cair na enorme aventura que é perder o controle. Para isso basta amar.

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