por Carolina Ito

Pesquisadora argentina usa as histórias em quadrinhos para discutir temas como aborto, prostituição, violência sexual, sexismo e padrão de beleza opressor

Para muita gente, o simples fato de dizer a palavra "clitóris" em público pode ser constrangedor. Foi justamente para fazer com que as pessoas falassem e escutassem com mais frequência o nome do órgão máximo de prazer das mulheres que, em 2010, a argentina Mariela Acevedo batizou a revista de história em quadrinhos que estava criando de Clítoris (em espanhol, o acento fica no i).

Militante feminista e pesquisadora da área de comunicação e gênero da UBA (Universidad de Buenos Aires), Mariela tinha como objetivo dar visibilidade para o trabalho de quadrinistas mulheres, além de publicar artigos e quadrinhos sobre feminismo (independentemente do gênero dos autores, contanto que não houvesse nenhum vestígio de sexismo). Em suas quatro edições impressas, a revista trouxe HQs e os textos que discutem problemáticas sociais como a interrupção voluntária da gravidez, a prostituição, a violência, o sexismo, o heterossexismo, o padrão de beleza opressor e a justa divisão de tarefas domésticas. A revista teve a participação de quadrinistas de vários países da América Latina, inclusive do Brasil. Em 2014, já sem verba para continuar imprimindo a revista, Mariela se uniu a uma editora independente e lançou o livro Clítoris - Sex(t)ualidades en viñetas, que reúne textos e HQs sobre o direito ao aborto, a exclusão das diversidades sexuais, o padrão de beleza hegemônico e a exploração sexual. 

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Em julho, ela esteve no Brasil para participar do 2º Encontro Lady’s Comics, em Belo Horizonte. À Tpm, ela contou sobre a cena dos quadrinhos em seu país e a história é muito semelhante ao que acontece por aqui: poucas mulheres publicando em grandes jornais e revistas, e muitas produzindo de modo independente. “O que acontece é que as autoras se autoeditam, gerenciam seus próprios espaços de divulgação ou publicam em blogs e no Facebook”, explica.

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Rir é subverter

A revista Clítoris se tornou uma referência no debate sobre igualdade de gênero na Argentina e América Latina. Mariela deixa claro que não há problemas em usar o humor para falar de tudo isso: “o feminismo pode ser comunicado por meio de muitas linguagens. Pode ser uma história de uma página, que dialoga com uma menina de 12 anos de forma divertida e não só por meio da denúncia". Ela acredita que os quadrinhos permitem discutir e brincar com “os feminismos”, já que, ela lembra, não existe uma forma única de ser feminista.

O próximo projeto da Clítoris envolve a publicação de uma antologia de quadrinhos que discutem a autonomia da mulher sobre o próprio corpo e a descriminalização do aborto, temas que Mariela considera prioritários diante do atual cenário político argentino.

Muito além de Maitena... veja uma lista com 10 artistas argentinas, indicadas por Mariela Acevedo, que as brasileiras precisam conhecer:

Sole Otero – tem quadrinhos online publicados em série como La pelusa de los días e Sólo le pasa a Sole

Clara Lagos – faz quadrinhos autobiográficos sobre maternidade

Gato Fernández – publica quadrinhos e ilustrações em sua página no Facebook

Muriel Frega – autora da série Silencio em la Costa

Nacha Vollenweider – publica quadrinhos e ilustrações em sua página no Facebook

Elioh Kortzars – criadora da personagem Supercake, que possui o poder de neutralizar do patriarcado

Patricia Breccia – um dos nomes mais importantes dos quadrinhos argentinos, publica HQs, ilustrações e gifs em seu blog Salvajeando

Alejandra Lunik – publica quadrinhos de humor no jornal La Nación

Mariana Salina – autora do livro infantil Cartas a una hormiguita

Erica Villar – publica na internet e é autora do livro Contratiempos

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