por Letícia González
Tpm #131

Quem são os caras que encontram prazer nas atividades domésticas?

O fim da mulher prendada é o início de um novo tipo de homem? Quem são os caras que não só encaram cuidar da casa e da família, mas encontram prazer nessas atividades


“Eu sou a Dita” 

Ninguém diria, mas o ator Milhem Cortaz guarda as toalhas enroladas, recebe orgânicos e é detalhista com a decoração

Uma coisa anda irritando Milhem Cortaz, 40 anos, na casa onde mora, numa rua tranquila do bairro do Sumaré, em São Paulo. A reforma que ele decidiu fazer acabou, mas deixou manchas de tinta – quase imperceptíveis – no vidro da sala e no chão do pátio. “Como é que o cara me faz uma coisa dessas?!”, bufa Milhem, ou melhor, Dita, como a mulher e os amigos preferem chamá-lo quando seus genes domésticos afloram.

Na casa, o armário com porta de vidro por onde se veem as toalhas enroladinhas é coisa dele, e a disposição da sala, idem – sem falar na reforma, cuja necessidade só ele via. “A casa não é nem minha, mas já gastei uma fortuna nela”, entrega. O apego por detalhes é tanto que, ainda bem, tem a carreira de ator para distraí-lo (ele tem pelo menos três estreias previstas no cinema para este ano, incluindo Trinta, sobre o carnavalesco Joãozinho Trinta). “Se ficasse só em casa, virava o showroom da Casa Cor. Sou perfeccionista.” Também é eficiente no supermercado e, antes de optar por receber orgânicos em casa, ia à feira, onde exercitava o sangue árabe e exigia pechinchas em todas as frutas.

“A mãe é uma coisa muito maior. Por mais que eu faça tudo, e faço, vou estar atrás”

Nos últimos anos, passou a se interessar por design e a investir em algumas peças. Tem uma mesa de canto assinada por Paulo Alves e, como não achou lugar para uma poltrona Mole, de Sergio Rodrigues, vai comprar um banco de papelão de Domingos Tórora. Milhem diz que o gosto é influência da mãe, uma mulher caprichosa.

Mas a mulher que o deixou ainda mais caseiro foi Helena, 5 anos, sua filha. “Mudou absolutamente tudo. Não consigo nem lembrar da minha vida antes dela”, garante. Na criação da pequena, “ajudar” não é um verbo que se encaixe. “Limpar a bunda, botar pra dormir e levar na escola é básico. Eu tenho que saber fazer. É meu, cazzo!” (Mesmo que, no início, tenha perdido a conta das ânsias de vômito na hora de trocar as fraldas.)

Hoje, ele e a mulher, Ziza Brisola, arrumam Helena para a escola de manhã e, das 13h20 às 17 horas, Milhem faz “o resto”: lê, estuda, medita. “É tudo nesse intervalo ou depois que ela dormir.” Ele encara bem a mudança de vida, de dedicar a maior parte de seu tempo à menina, mesmo que, na sua visão, tenha um papel menor. “A mãe é uma coisa muito maior. Por mais que eu faça tudo, e faço, vou estar atrás. Igual à ligação do cordão umbilical, não tem”, acredita.

Bebê conforto

O diretor de arte Fabricio Kassick aprendeu a costurar para levar a filha no sling, e é ele quem a coloca para dormir

Sabe a cena em que a mãe chega ao escritório em prantos no primeiro dia após a licença-maternidade? Aconteceu com o publicitário e diretor de arte Fabricio Kassick, 35 anos. “Vim chorando até o trabalho”, lembra. Foi o fim de um mês (férias) e uma semana (a licença) em que viveu para atender a filha recém-nascida, Maya, e ajudar a mulher, a arquiteta paisagista Tuca Petlik, 33 anos. Mesmo com uma boa preparação antes do parto, eles viveram momentos difíceis por causa da amamentação. “A Tuca ficava triste porque não conseguia, e eu ficava triste porque ela estava triste. Foi tão pesado que perdi 6 quilos em um mês. Pensava: ‘O que fiz com a minha namorada?!’.”

No olho do furacão, ele assumiu muitas tarefas. “Precisava ajudar a Tuca e ficar com a Maya. No início, só

eu sabia dar banho. Aprendi a fazer isso no chuveiro e dá certo até hoje.” Também se especializou em acalmar o bebê e, de volta ao trabalho, corria para casa às 18h30. “A Tuca me ligava e dizia: ‘Tu tá vindo? Faz uma hora que ela está chorando e não sei o que fazer’. Teve um período em que eu era o cara que fazia a Maya dormir. Chegava, arrancava a roupa e entrava no quarto escuro com ela. Saía de lá uma hora e meia, duas horas depois. Era como um gladiador que entrava com a fera na arena e saía. Eu me sentia assim, vitorioso.”

“A Tuca me ligava e dizia: ‘Tu tá vindo? Faz uma hora que ela está chorando e não sei o que fazer’”

Por causa da filha, Fabricio está aprendendo a costurar. Ele conta que usava o sling – pano circular em que o bebê fica deitado junto ao corpo do adulto – da mulher, mas o acessório era pequeno para ele. “Até que um dia a gente falou: ‘Vamos fazer um do meu tamanho’. Desmanchamos, aumentamos uns centímetros e fizemos. Ficou ótimo!” Não demorou, estavam costurando slings para os amigos. “A paternidade é tão envolvente que você fica o tempo todo pensando em como deixar as coisas melhores, abarca a tua vida toda”, diz. Tanto é que, agora, os dois lançaram uma marca, a Petlik Sling.

Hoje Maya tem 8 meses e o pai se ocupa da filha antes do trabalho e no sábado de manhã, para que a mulher possa dormir um pouco mais ou fazer algo sozinha. Ela deve voltar ao trabalho quando a pausa de um ano que eles combinaram acabar (“ou depois, é uma decisão dela”). O dia a dia nas palavras dele: “Acordo, troco a fralda e vamos pra cozinha. Na quinta, a Tuca vai ao pilates e, quando volta, normalmente a Maya já está dormindo de novo”. Fabricio sabe que se entrega mais do que a maioria dos pais, mas não vê outro jeito. “A Tuca teve uma barriga deste tamanho [imita uma barriga enorme com as mãos], ela pariu a nossa filha, amamenta. Se você vê de perto todo o processo que a mulher vive pra dar à luz o teu filho, cara, não tem como dizer que não vai dar uma mamadeira de madrugada.”

O tomate está caro

Na casa do músico Daniel Belleza, a roupa lavada, o jantar e a marmita da mulher são por conta dele

As manchetes sobre a alta do tomate renderam muita conversa de boteco e piada na internet no mês de abril. Mas, para um grupo de pessoas, a notícia era velha. “Faz um ano e meio que o tomate está caro. Subiu, baixou no fim do ano e agora estourou de novo”, diz o músico Daniel Belleza, 39 anos, morador da zona oeste de São Paulo. Daniel acompanha de perto a alta do preço do vegetal com pesquisas em diferentes lugares. Em outra palavras, ele é dono de casa. Faz compras quase todo dia e sabe o que é mais caro na feira e no supermercado.

Num dia típico, acorda às 14 horas, depois de uma noite de trabalho discotecando ou tocando com sua banda, Daniel Belleza & Os Corações em Fúria, e sai para comprar o que for cozinhar. “Às vezes leva a tarde toda mesmo. Panqueca, por exemplo, dá mais trabalho”, diz, e explica que, além do jantar, prepara também a marmita da mulher, a veterinária Marcella do Carmo, 
28 anos. “Fico fazendo inveja no povo”, confirma ela.

E sempre foi assim. Daniel já foi casado antes, morou sozinho e com amigos. Em todas as ocasiões, cuidou da casa com os truques ensinados pela avó mineira, que morava com a família quando ele era menino. “Eu ficava ajudando ela e fui pegando gosto pela culinária.” Até hoje, usa o caderninho de receitas da avó. “O nhoque e o pão de forma são dela”, diz Daniel, que, como bom dono de casa, não tem só uma especialidade, mas várias. Gosta do camarão na moranga que faz e, se quiser agradar Marcella, sabe que pode apostar em qualquer prato com carne-seca.

“Às vezes leva a tarde toda mesmo. panqueca, por exemplo, dá mais trabalho”

Agradar, aliás, é parte da rotina. Mais de uma vez por semana, quando acorda cedo, chama os amigos que moram no bairro para almoçar. “Gosto de cozinhar pra comer com mais gente. Fazer pouco dá mais trabalho e, além disso, é bom ter alguém pra elogiar”, admite. “É pra isso que cozinho. É um incentivo.”

O horário flexível também permite que ele cuide de outras coisas, como lavar a roupa. Imagina que o esquema continue assim quando a família aumentar. “Acho que, se a gente tivesse um filho hoje, a Marcella teria a licença de cinco dias e eu a de seis meses”, ri Daniel. Quando está junto, o casal, que não tem diarista, divide a limpeza mais pesada – o único afazer exclusivamente dela é varrer, porque ele é ruim nisso. “Esse negócio de fazer tarefas domésticas tem uma grande vantagem, que é você estar fazendo coisas para você”, afirma.

Com exceção da força física, não existem diferenças que separem homens e mulheres na questão, defende Daniel. E pontua: “Adoro minha vida de dono de casa. Talvez uma mulher gostar faça sentido”.

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