por Ariane Abdallah
Tpm #114

Paola Di Cola tem 36 anos e apostou no congelamento de óvulos

 

"Nunca pensei que chegaria ao ponto de congelar meus óvulos. Ninguém sonha com isso. Deixei o emocional de lado e priorizei o fisiológico”, conta a arte-terapeuta paulistana Paola Di Cola, 36 anos, antes da primeira consulta em uma respeitada clínica de reprodução humana, nos Jardins, bairro nobre de São Paulo. “Quando ouvia falar em fertilização in vitro, achava que não era muito ‘humano’. Como assim, fecundar fora do corpo? As pessoas enlouqueceram?”, lembra. “Hoje fazer congelamento dos óvulos me parece um ato de sensatez.” Paola agora pensa assim porque seu caso tinha um agravante: endometriose, uma doença que muitas vezes impede a gravidez natural porque altera o microambiente das trompas, dificultando o encontro do espermatozoide com o óvulo. “Prefiro guardar meus óvulos enquanto ainda não estão tão velhos”, explica.

Enquanto Paola conversa com a ginecologista, dezenas de mulheres aguardam na sala de espera. A maioria aparenta ter mais de 35 anos e muitas, mais de 40. Entre cappuccinos, balas Toffee e fotos de bebês, as pacientes, com expressões sérias, conversam baixinho com seus acompanhantes: maridos e mães. A todo momento olham para as desconhecidas de rabo de olho. Uma TV sempre ligada (de manhã, no Mais você, da Globo) ameniza a tensão e o desconforto quase palpáveis do ambiente. “Quando entrei na sala de espera lotada, percebi as pessoas introspectivas. Parecia que eu tinha entrado num portal onde as coisas funcionavam de uma maneira própria”, descreve.

Assim como muitas mulheres de sua idade, ela não sabe quando vai encontrar alguém para chamar de “pai de seus filhos”. Chegou até a clínica por sugestão da mãe, que viu uma reportagem sobre medicina reprodutiva na TV. Paola ficou brava e desconversou na primeira vez que falaram sobre o assunto. Mas a informação permaneceu martelando na cabeça, afinal, estava com 35 anos, completos em 2010. Sabia que, ano a ano, progressivamente, seus óvulos começariam a diminuir em quantidade e qualidade. Resolveu, então, investir no tratamento.

Medo do quê?

Logo na primeira consulta, a ginecologista lista os principais efeitos colaterais dos hormônios que o corpo de Paola receberia para estimular o amadurecimento dos óvulos que seriam congelados: dor de cabeça, instabilidade emocional, inchaço, náusea e dor muscular. Sabendo disso, ela segue pelo corredor e para na farmácia da clínica: uma portinha daquelas que abrem somente a metade de cima e viram balcão. “Quando vi prateleiras com isopor e uma geladeira, tive a impressão de que estavam vendendo bebês, como se eu fosse chegar e dizer: ‘Por favor, me vê gêmeos?’”, descontrai.

Lá, ela ganha uma embalagem com os medicamentos e uma sacola com a frase “fertilização in vitro”. Sem pensar, vira a sacola contra o corpo escondendo a parte escrita. Minutos depois, analisa: “Será que é vergonha de mostrar que estou vivendo isso? Medo? Não querer falar? Mas por quê?”. Dias depois, confessa: “Tive medo de que não desse certo, de não conseguir coletar óvulos suficientes”.

O primeiro passo para o congelamento é o mesmo que o da fertilização in vitro: injeções de hormônios ajudam os óvulos a amadurecer para, então, serem coletados. Acontece que, na fertilização in vitro, o capítulo seguinte seria fecundar esse óvulo com um espermatozoide, que, finalmente, seria devolvido para o útero da mulher na forma de um embrião. Já no congelamento, os óvulos ficam guardados em contêineres com nitrogênio, na própria clínica, para que a dona os recupere quando quiser tentar uma gravidez.

No primeiro dia de tratamento, uma enfermeira ensina Paola a aplicar duas injeções de hormônios em sua barriga. A partir da manhã seguinte, ela mesma faria o serviço – e, dias depois, mais uma injeção seria incluída no kit. Como já foi instrumentadora cirúrgica, estava tranquila. Mas, quando se viu no espelho do banheiro de casa, com a blusa levantada e uma agulha apontada para seu corpo, travou.

O desconforto maior não era físico, e sim emocional. “Me sentia incapaz. Porque, para que serve um ser humano? Nascer, crescer, reproduzir e morrer. Não cumprir uma dessas etapas é como faltar uma parte”, reflete ela, que já havia tentado engravidar dos 25 aos 29 anos, período em que foi casada. Não conseguiu por causa da endometriose.

"Não é uma sensação agradável. Deveria ser natural, mas assim não vai acontecer. Por outro lado, é bom porque ainda dá tempo"

Mundo paralelo

Desde essa época o tema crianças já permeava também a vida profissional de Paola. Formada em artes plásticas, ela foi professora infantil, estudou psicanálise e arte-terapia, ambas com foco em crianças, e fez cursos de psicologia perinatal e massagem indiana shantala – esta última, ela aplica em bebês de um abrigo da prefeitura de São Paulo, como voluntária. Seu consultório, nos Jardins, é repleto de bonecos e brinquedos em geral. E, por causa do contato com as mães de seus pacientes, começou a atender algumas delas também. Paola tem ainda um blog direcionado para pais, em que escreve sobre temas que vão de infertilidade a dicas culturais para os pequenos.

Agora, ela pretende incluir entre suas pacientes mulheres que tenham vivido – ou pretendam viver – experiências com fertilização in vitro ou congelamento de óvulos. Paola acredita que expor sua história pode tanto desmistificar questões emocionais que muitas acabam vivendo sozinhas, em silêncio, quanto informar mulheres que nunca imaginaram ser possível aumentar desde já as chances de uma gravidez futura.

Ao longo do tratamento, Paola tem o humor oscilante, dores de cabeça e, por onde passa, percebe os homens mais atraídos a olhá-la. A médica explica o fenômeno: “Ela está tendo uma superovulação, fica com a pele mais viçosa, biologicamente se prepara para a gestação, então o corpo fica mais atraente para o macho”, resume. Só em duas ocasiões Paola saiu chorando da clínica. Da primeira vez porque os óvulos não estavam crescendo tanto quanto era esperado. “Achei que perderíamos aquele mês de tratamento”, admite. Mas, depois, a situação se reverteu. “Em outro momento, me senti muito só, apesar de eu mesma ter decidido fazer tudo sozinha. O processo é cansativo. Tomar injeções todos os dias não é fácil”, desabafa. Na maior parte do tempo, porém, preferiu rir de si mesma: “Vê lá onde vão guardar meus bebês, hein?”, brinca com a médica.

Tempo ao tempo

Dez dias depois do início do tratamento, chega a hora de os óvulos serem coletados e guardados. Era um domingo e Paola estava silenciosa. “Não é uma sensação agradável. Por um lado é ruim porque é algo que deveria ser natural, mas assim não vai acontecer. E, por outro, é bom porque ainda dá tempo”, conclui. O resultado foram nove óvulos – dentro da média sugerida pelos médicos para a tentativa de um único filho. Mas Paola resolve repetir a dose no mês seguinte, já que gostaria de ter dois. No fim de tudo, somam 13 os óvulos guardados na clínica.

Quando chegar a hora de engravidar, daqui a alguns anos, Paola precisa antes ir à clínica verificar se está no momento adequado do ciclo menstrual. A partir daí, com o óvulo descongelado e pronto para ser usado, leva de três a cinco dias até o espermatozoide fecundá-lo, formando um embrião, que, enfim, poderá crescer em seu ventre. Mas nada garante que isso vai acontecer. Todo esse investimento é um risco. “Não vou me arrepender por ter congelado os óvulos”, garante, com a tranquilidade de quem literalmente pagou pra ver.

Não é simples assim

No Brasil, há cerca de 200 clínicas de reprodução humana, e o congelamento de óvulos é cada vez mais procurado por mulheres saudáveis que querem adiar a gravidez – o médico Assumpto Iaconelli, sócio da respeitada clínica Fertility, de São Paulo, diz que o tratamento hoje corresponde a 10% do movimento do consultório. Porém, o método ainda é controverso se o intuito for simplesmente adiar a gravidez, como atesta um artigo publicado em agosto na revista científica inglesa Nature. De acordo com a reportagem, não há dados suficientes sobre o congelamento e o descongelamento de óvulos “mais velhos”, isto é, de mulheres a partir dos 38 anos, idade da maioria das pacientes que procura o tratamento com essa finalidade.

Segundo o urologista Jorge Hallak, coordenador da Unidade de Toxicologia Reprodutiva e Andrologia da Faculdade de Medicina da USP, congelar os óvulos é uma “indicação incorreta” para quem não tem doenças como endometriose grave, câncer ou outra que possa comprometer a gravidez natural. “Sou um crítico feroz dessa indicação. Em nenhum outro país vejo essa recomendação como tem sido dada no Brasil e na Espanha. É um exagero sugerir que uma mulher de 33 anos congele os óvulos sem um quadro médico que justifique.” Para Jorge, esse é um “pseudomercado criado em países em que ainda não há regulamentação”. Se a mulher tem menos de 35 anos, ele não vê razão para se preocupar. Se tem mais, os óvulos já não terão boa qualidade ao serem congelados. Além disso, as injeções de hormônio que induzem a superovulação podem criar problemas como hiperestímulo ovariano (que pode gerar um desconforto abdominal e até comprometer a função renal, o que é considerado grave) e deixar os receptores dos ovários menos sensíveis a hormônios produzidos pelo corpo.

O aumento da procura pelo congelamento aconteceu principalmente nos últimos dois anos e se deve à sugestão que médicos fazem às suas pacientes, baseados na mudança no método do congelamento (era feito a partir do contato do óvulo com o vapor do nitrogênio e com resfriamento gradativo; agora, o contato é direto entre óvulo e nitrogênio, e a diminuição da temperatura é instantânea). Segundo Artur Dzik, presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana, que defende a técnica como forma de preservar a fertilidade, essa mudança no método acarreta menos chance de lesionar o DNA do óvulo (o que pode causar até aborto natural do feto). “Atualmente, as chances de gravidez com óvulos congelados são as mesmas do que as com óvulos frescos. Embora não tenha uma idade mínima, se a mulher não tiver perspectiva de ter filhos a curto ou médio prazo, a partir dos 33 anos o congelamento pode ser uma opção”, opina ele. De acordo com o médico Jorge Hallak, não existe um período máximo para esses óvulos ficarem congelados nem uma idade-limite para as mulheres receberem o embrião. “As mudanças naturais do corpo feminino, decorrentes da passagem dos anos, não interferem na gestação”, garante.

Vale a pena?

Com ou sem indicação, o tratamento completo não sai por menos de R$ 10 mil por mês (Paola gastou, em dois meses, R$ 30 mil), além de uma média de R$ 100 ao mês para o armazenamento dos óvulos na clínica. Se a paciente fizer o congelamento, mas acabar não usando os óvulos, eles podem ser descartados ou doados. Seja qual for a decisão, fica registrada no “consentimento informado”, assinado antes do início do tratamento.

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