Desafiando crenças gordofóbicas

por Giuliana Mesquita

Conheça a história de cinco mulheres que subverteram clichês gordofóbicos da sociedade e mostram que a mulher gorda pode usar, amar, trabalhar e fazer o que quiser

Você com certeza já ouviu – talvez até já falou – frases que oprimem mulheres gordas, colocando-as em caixinhas, negando seu direito de existir e tirando sua humanidade. A gordofobia é uma palavra que vem ganhando força apenas nos últimos anos, mesmo que seu conceito já exista na sociedade desde que os padrões de beleza vigentes colocaram as mulheres em uma prisão de insatisfação pessoal. A prática de falar o que a mulher gorda pode ou não fazer, que roupas ela pode usar, em que áreas ela pode trabalhar e até quem ela pode amar é antiga – mas há quem já tenha percebido que não é preciso viver a vida sob regras alheias, desafiando as “verdades absolutas” que há muito são repetidas exaustivamente. 

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“Não confio em nutricionista gorda” 

“Quando comecei a fazer faculdade de nutrição, eu era magra. Gostava da área esportiva, mas, quando entrei no curso, vi que era totalmente diferente do que eu imaginava”, conta Milena Soares, nutricionista de Recife que, para esta reportagem, foi uma das poucas profissionais do ramo que encontramos que falam sobre seu corpo e seu peso de forma clara e sem preconceitos. Logo no início da faculdade, conta a médica, ela começou a tomar anticoncepcional e, junto a um quadro de ovário policístico, engordou sem perceber. Desde então, é uma mulher gorda e, apesar de já estar formada há dois anos, só agora entrou no mercado de trabalho. “Por um período, pensei em desistir exatamente por conta desse preconceito. As pessoas não olhavam pra mim”, lembra.

Por morar em uma cidade pequena como Recife, Soares conta que se sentia desconfortável, já que todos a conheciam. “Acabava me escondendo por trás da minha vergonha. Postava coisas no Instagram que não tinham a ver comigo e todos me cobravam por isso. Quando resolvi mostrar minha verdade, as pessoas começaram a chegar em mim falando que estavam amando esse meu novo lado. Desde que me aceitei, os pacientes começaram a aparecer”, explica. Hoje, a nutricionista tem plena consciência de que a sociedade impõe um padrão de beleza inatingível e que não tem nada a ver com saúde. Suas pacientes se enxergam nela, admiram suas imperfeições e entendem que cada um tem seu próprio corpo e que é preciso aceitá-lo e amá-lo.

A medicina também é uma das áreas mais afetadas pela gordofobia tão latente na nossa sociedade. O cálculo do IMC, que faz uma relação entre altura e peso, não é régua definitiva no consultório de Milena Soares. Por conta disso, ela sempre pergunta aos pacientes qual é seu desejo, para que o emagrecimento não seja visto como ‘a única saída’. “Claro que o excesso de peso causa certas doenças, mas, para saber se esse é o caso, você precisa analisar todo o histórico. Eu tinha problemas no joelho desde os 10 anos, quando ainda era magra. Fui no ortopedista e ele disse que eu precisava emagrecer. A cura da minha doença não foi a perda de peso”, conta. Na sua prática, ela acha mais importante entender o que o paciente pretende do que seguir uma medida absoluta, além de também criar cardápios específicos e personalizados para cada um. “Muitos nutricionistas impõem o peso que cada pessoa precisa perder", diz. "Para mim, estando com saúde, a pessoa pode ter o peso que ela quiser.”

“Gordos não praticam esportes”

Desde que se conhece por gente, Ellen Valias é uma pessoa gorda. Na escola particular em que estudou, por ser uma criança preta e gorda, ficava evidente que era diferente. Aos nove anos de idade, começou a jogar basquete e a aula de Educação Física era o único momento em que era respeitada. Apesar disso, foi nessa mesma aula que ela recebeu os primeiros sinais de que seu corpo não era aceito, que ela não era capaz e que seria ridicularizada. “Os professores de Educação Física não estão preparados para lidar com um corpo gordo, mas meu amor pelo esporte era tão grande que eu ignorava”, lembra. Ellen jogou basquete até os 17 anos, quando passou por todos os tipos de dificuldades que uma pessoa gorda poderia ter em um time de basquete – os uniformes não serviam, tinha que usar dois tops e até uma legging, caso seus shorts rasgassem. “O meio esportivo não acolhe a pessoa gorda”, completa. 

Ellen começou a trabalhar, mas nunca parou de praticar atividades físicas. Muay Thai, academia e futebol americano foram alguns dos esportes que ela fez. “Minha experiência no esporte me fez enfrentar esses ambientes. Chegar e permanecer ali”, explica. Ela conta ainda que essa falta de acolhimento em espaços esportivos afasta as pessoas gordas. “Durante toda a minha vivência, eu sempre tive que provar mais. Falavam: ‘A gente até te aceita, mas você vai ter que ser boa’. Quando você tem o corpo magro, você tem o privilégio de ser ruim porque foi esforçado”.

Em 2015, em um passeio pelo Parque Villa-Lobos, em São Paulo, viu algumas pessoas jogando basquete e se reconectou com a prática. Desde então, não parou mais. Criou o Rachão Basquete Feminino, coletivo de cerca de 60 mulheres que ocupa quadras públicas uma vez por mês. “Além da mulher não ter o mesmo espaço que o homem, eu, como gorda e preta, tenho menos ainda. Sempre estive sozinha nesse rolê”, conta. O acesso das pessoas gordas ao esporte e à atividade física é a pauta principal da luta de Ellen Valias – vivência que ela compartilha em seu Instagram, hoje com mais 30 mil seguidores. “Eu preciso falar para as pessoas gordas por que elas não estão nesses ambientes, o que a gordofobia faz ao tirar seu acesso, ao te desumanizar. Quando você é uma criança gorda, você já começa a receber essa mensagem de que seu corpo não é capaz”, completa. Para Ellen, o governo deveria assegurar o direito de todo mundo de fazer atividade física sem a finalidade de emagrecer. “Precisamos construir uma nova relação com a atividade física para que as pessoas entendam de uma vez por todas que pessoas gordas também praticam e continuam gordas.”

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“Mulheres gordas não deveriam namorar homens magros”

Para Luana Carvalho, sempre foi bastante difícil entender o preconceito sofrido fora de casa, já que, da porta pra dentro, foi tratada com amor e carinho de sobra. “Minha família nunca me obrigou a emagrecer nem restringiu minha alimentação. Minha mãe sempre reforçou que eu era linda e inteligente e que não tinha nada de errado comigo, então eu não entendia porque era tratada de maneira diferente das minhas amigas magras”, lembra. “Quando estava na pré-escola, fui pular na piscina e um coleguinha disse que eu ia quebrar o braço de alguém e eu só pensava: ‘Ué, mas eu faço natação desde muito pequena, eu sei nadar’. Não captava direito”. Ainda na escola, sofria humilhações e tratamento diferente. Quando entrou na adolescência, entendeu que era gorda e começou a sentir essa inadequação.

“Além do ‘problema’ de ser gorda, havia o agravante de ser preta e a única preta e gorda. Eu morava em Porto Alegre, então sempre houve, ao lado da gordofobia, um racismo muito forte presente na minha vida”, diz Luana, que lembra que, quando começou a querer encontrar um namoradinho ou beijar na boca, entendeu a maneira como o afeto é negado à pessoas gordas: “Quando alguém pedia para ficar comigo era sempre escondido, não era na frente de todo mundo.”

Com 16 ou 17 anos, ela conheceu o debate da gordofobia, entrou no movimento negro e criou o Coletivo Vozes Negras, que combatia o racismo na internet. “Ao mesmo tempo, eu sentia um buraco muito grande dentro de mim, porque eu não via a outra parte de mim sendo debatida. Sofri silenciamento porque eu não era adequada. Me vi de encontro com outro problema: se para o movimento negro eu era gorda, no movimento gordo eu era negra. Era como se as coisas não se encaixassem”, conta. Decidiu, assim, virar a referência que sempre buscou em outra pessoa. E, em meio a essa vivência de militância, conheceu Gabriel Andrezo, quando ainda tinha 17 anos. 

Alguns anos se passaram até que Luana finalmente encontrou o namorado pessoalmente. “Quando conheci o Gabriel, estava no meu momento de raiva, já era militante. Então, decidi chegar para ele e explicar que, para namorar comigo, ele teria que tentar entender minha história, ler Naomi Wolf, Angela Davis, entender o que eu falo, consumir as coisas que eu indico… Porque só assim eu teria um relacionamento”, conta. Determinada, Luana lembra de tudo que sofreu para decidir, enfim, não se submeter a essa situação novamente. “Não dava para eu me relacionar com uma pessoa que, além de ter sido criada numa sociedade completamente diferente da minha, não quisesse aprender. Gabriel é um homem magro e branco. Quando andamos juntos, é o festival do ‘vira-pescoço’. As pessoas não estão acostumadas a verem mulheres gordas recebendo carinho e afeto.”

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“Biquínis e lingeries não ficam bonitos em corpos gordos”

“Sempre falei que ser gorda era o carma da minha família”, brinca Raíssa Galvão, mais conhecida como Ray Neon no Instagram. A produtora de conteúdo conta que, para começar a entender sua história com o peso é preciso, antes, saber que sua mãe dançava balé no Theatro Municipal e seu pai acorda cinco da manhã para ir a academia. “Foi difícil para eles verem que eu estava engordando. Cresci no balé clássico. Com 10 anos, meu irmão, que também era bailarino, foi chamado para competir. Na época, ouvi alguns dançarinos falando no vestiário que eles vomitavam e desenvolvi bulimia”, lembra Ray, que conviveu com o transtorno alimentar até os 17 anos. 

Ao entrar no Ensino Médio, sua ex-namorada a apresentou ao feminismo e ao movimento body positive. “Comecei a mudar meus pensamentos, mas ainda queria emagrecer. Ao entrar na faculdade e completar 18 anos, eu achei que tudo estava ótimo. Não vomitava mais, não ficava mais dias sem comer. Mas resolvi que queria fazer uma cirurgia bariátrica”, conta. Após passar por todas as etapas, os exames e o acompanhamento psicológico por um ano, desistiu. “Resolvi me dar mais uma chance. Mas não uma chance de emagrecer e, sim, uma chance de me amar. Fico feliz por não ter feito a cirurgia. Hoje entendo e amo meu corpo de verdade”, diz. “Quando comecei a me tatuar, sempre pensava: não vou tatuar certos lugares porque quando eu emagrecer vai ficar estranho. Tudo na minha vida era pra depois que eu emagrecesse. Até que eu cansei de esperar e decidi viver”. 

Ao entrar na faculdade de moda, Ray ainda era criticada por suas escolhas fashion. “Se você é gorda e usa um cropped, uma roupa marcando, um biquíni, você não está vestindo moda, você está fazendo um ato político”, explica. Por muito tempo, no entanto, ela não mostrava suas pernas por causa da celulite ou seus braços porque eles eram gordos. O processo de desconstrução foi tirando, uma a uma, essas restrições da vida da carioca, até que, em uma viagem a Cabo Frio com um grupo de amigos, ficou de biquíni pela primeira vez na frente de todos. Em seu Instagram, que hoje conta com mais de 285 mil seguidores, ela divide esses medos e processos, sua relação com cada parte de seu corpo vista como ‘problemática’ e, claro, sua visão sobre moda. “A função da moda não é me emagrecer, não é me deixar mais magra ou mais alta. Sua função é mostrar quem eu sou", diz. "Desde nova, sempre me permiti ser muito estranha, mas passei minha adolescência inteira sem usar shorts. Passei grande parte da minha vida abdicando disso e, hoje em dia, percebi que é o que eu mais gosto de usar.”

“Mulheres gordas não podem trabalhar com moda”

A indústria da moda é uma das mais excludentes quando falamos de corpos diferentes. Se a inserção de modelos fora do padrão acontece há pouco tempo em desfiles e campanhas, mulheres gordas são minoria dentro do mecanismo interno da indústria. Isso não impediu que Chiara Rodello sonhasse em trabalhar no meio. “Comecei a gostar de moda super pequena, via minha avó costurando e fingia ser a vendedora da loja dela”, lembra. Anos depois, entrou na faculdade Santa Marcelina para estudar moda. Como a maioria das escolas de moda do Brasil, o foco ali era estilismo, não exatamente o que Chiara gostaria de fazer. “Logo comecei a trabalhar com o cabeleireiro Jacques Janine, emprego em que tive meu primeiro contato com produção de moda, já que organizava editoriais, concursos e desfiles”, conta ela, que, à época, não pensava muito no fato de ser uma mulher gorda trabalhando em um meio onde a magreza é reverenciada. “Sempre saí muito, tinha uma turma legal. Era da noite na época em que a noite era o rolê do pessoal da moda, então sempre conheci todo mundo.”

No começo dos anos 2000, foi morar em Milão e se inscreveu em um curso de produção de moda no Instituto Maringoni, um dos mais renomados no meio. Voltou ao Brasil após cinco meses, com uma bagagem enorme. Por algum tempo, trabalhou como assistente do estilista André Lima e continuou trilhando seu caminho na produção de moda na MktMix. “Quando entrei na assessoria, me bateu o sentimento de quem eu sou, o corpo que eu tenho, de precisar ser uma mulher que mostra pulso dentro do mercado da moda. Comecei a me relacionar com corpo e moda. As pessoas falaram que eu tinha que usar as marcas que eu atendia, mas essas marcas não faziam roupas pra mim”, diz. Apesar de ser um meio extremamente preconceituoso, Chiara lembra de poucas vezes em que sofreu um preconceito direto por causa do seu corpo. “Eu comecei a fazer terapia e entender que meu valor não estava no meu corpo, mas no trabalho que eu faço. Os estilistas queriam fazer roupas para mim. Vim de uma época que as editoras das revistas não falavam umas com a outras e, de repente, todo mundo saía da SPFW e ia jantar junto. Sempre tive esse dom de conectar as pessoas”, explica.

Chiara trabalhou na produção de grande parte dos eventos mais importantes de moda nos últimos anos, coordenando fila A, backstage e passarela da maior semana de moda da América Latina, a SPFW, e outras tantas. Após quase sete anos frente à coordenação de moda da assessoria, Chiara pediu as contas e foi trabalhar na Mynd, agência onde conseguia fazer casting inclusivos, sempre selecionando corpos gordos para as ações que criava. Ocupar esses espaços e convidar pessoas como ela a estarem junto é, hoje, sua maior vitória. “Foi emocionante ver a primeira modelo gorda a desfilar a C&A e saber que eu fiz parte desse processo”, finaliza.

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