A linguagem da depressão

Algoritmos reconhecem perfis de pessoas em risco no Twitter e ainda oferecem ajuda

"Apesar de tudo de bom que vem acontecendo comigo, com tudo que já conquistei, eu me sinto há alguns anos triste”, escreveu Whindersson Nunes, o maior youtuber do Brasil, em abril de 2019. Em uma sequência de 16 postagens, ele revelou sofrer de depressão aos mais de 11 milhões de seguidores que mantém no Twitter, surpreendendo quem se acostumou a vê-lo sorrindo e contando piada nas redes sociais. “Eu tenho tanto medo, tanto medo de decepcionar, que fico preso em mim mesmo. Foda-se o dinheiro, os números, eu não sinto tanta vontade de viver”, escreveu.

Seu relato, que poderia ser uma confissão íntima, dessas feitas no divã do analista ou a amigos e familiares muito próximos, é apenas um dos milhares de desabafos públicos compartilhados na internet, com cada vez mais frequência, por pessoas que sofrem de doenças mentais. Segundo dados do Ministério da Saúde divulgados em 2018, o suicídio – desfecho trágico de quem enfrenta quadros mais severos – cresceu 18% de 2007 a 2016 e já é a quarta causa mais frequente de morte entre brasileiros de 15 a 29 anos.

Na tentativa de entender melhor o problema, especialistas têm se dedicado a decifrar a linguagem da depressão, um padrão de discursos que aparece na comunicação de quem enfrenta a doença. Além de adjetivos e advérbios negativos, o que mais denota o vocabulário dos deprimidos é o alto uso de pronomes na primeira pessoa do singular (“eu”) e a predileção por palavras com conotação absoluta, como “sempre”, “nunca”, “nada” e “completamente”, que revelam um universo maniqueísta e sem nuances, em que é extremamente difícil enxergar soluções.

Tal padrão pode ser identificado em registros muito anteriores à invenção do Twitter. Em um texto publicado em Diários de Sylvia Plath:1950-1962, um calhamaço de mais de mil páginas que pautou o estudo da linguagem da depressão no mundo inteiro e revela um pouco do que se passava na cabeça da poeta americana que se matou aos 30 anos, ela escreve: “Desanimada, incompetente, despreparada. Entrei na banheira quente, fiquei de molho sentindo o calor revigorante, eliminando as dores do meu sistema. Vivo pela metade? Ando tão cansada. Sempre a ideia de que poderia fazer tudo melhor, e eu poderia mesmo”. Salvo pela sofisticação literária, é fácil notar a semelhança de seu desabafo, escrito há quase 70 anos, e o relato de Whindersson, postado em 2019.

Eu, robô

Se antes as análises linguísticas desse campo de estudo eram feitas manualmente, hoje isso pode ser feito por meio de algoritmos que não só reconhecem padrões como também oferecem ajuda a quem está em risco.

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Desenvolvido por psiquiatras e programadores brasileiros e lançado em fevereiro deste ano, o Algoritmo da Vida é um deles e age exclusivamente no Twitter. Funciona da seguinte forma: primeiro, a ferramenta rastreia sequências de palavras e expressões para identificar os padrões. Depois, é realizada uma checagem cuidadosa por uma equipe treinada, que considera contexto, ironias, recorrência de termos e periodicidade. Quando confirmados os indícios da doença, um perfil criado especificamente para a ação e administrado por um time formado com o auxílio de psiquiatras entra em contato com o usuário por meio de uma mensagem privada e indica a ajuda do CVV (Centro de Valorização da Vida). Desde que foi lançada, a iniciativa da empresa brasileira de tecnologia Byzsys já detectou quase 300 mil menções e contatou 20% dos usuários responsáveis por elas. Desses, 40% acessaram o link do site do CVV enviado – ou seja, 24 mil pessoas já foram impactadas pelo serviço. “O algoritmo está focado em ajudar pessoas em risco e o discurso de quem pensa em tirar a própria vida costuma ser ambíguo, mas sempre denota desesperança”, afirma Daniel Barros, consultor do projeto e professor da Faculdade de Medicina da USP.

“Foi uma sensação de liberdade explosiva, enfim, deixar de esconder uma parte tão significativa da minha trajetória”
Maria Clara Drummond

Whindersson está entre os que, potencialmente, seriam identificados. A pedido da Tpm, o Algoritmo da Vida analisou uma série de tweets postados pelo youtuber e detectou o padrão da linguagem da depressão, com destaque para trechos como “não sinto tanta vontade de viver”, “tirar minha vida”, “decepcionar minha família” e “é tão ruim ficar assim”. “Como o Whindersson nunca tinha postado esse tipo de conteúdo, a pontuação em potencial dele é avaliada como baixa. Se continuasse escrevendo mensagens com esse padrão com frequência, sua pontuação aumentaria e ele entraria no radar de alerta do algoritmo”, explica Fábio Palma, CEO da Bizsys.

No dia 4 de junho, Whindersson voltou a usar o Twitter para falar de depressão, desta vez, para anunciar que está desenvolvendo um app para ajudar pessoas que enfrentam a doença. Sem dar mais detalhes, ele contou que o objetivo é conectar quem está em risco e precisa de acompanhamento, com terapeutas e psicólogos dispostos a atender de forma gratuita. “Eu recebi tanto carinho nas ruas, tanto apoio, tantas palavras bonitas. Esse app é minha forma de agradecer”, escreveu.

Primeira pessoa

Como alguém que tem depressão há duas décadas, consigo, de certa forma, entender um pouco o que motivou os desabafos de Whindersson. Não lembro exatamente a primeira vez que escrevi sobre depressão na internet. Desde a pré-adolescência, quando fui diagnosticada pela primeira vez, meus pais me aconselharam a não contar para ninguém que eu frequentava um psiquiatra, pois temiam que meus colegas de escola não me entendessem e me julgassem de forma cruel. É provável que essa exposição tenha acontecido aos poucos: uma menção aqui, outra acolá, até que, de repente, eu havia perdido o medo de me abrir e estava discorrendo sobre tentativas de suicídio, clínicas psiquiátricas e todo meu histórico medicamentoso.

Foi uma sensação de liberdade explosiva, enfim, deixar de esconder uma parte tão significativa da minha trajetória. Eu não sou normal, eu nunca vou viver uma vida normal e isso é, ao mesmo tempo, uma maldição e uma benção.

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Alguns dos textos que postei não foram escritos no calor do momento e sim como resultado organizado de muitos anos de psicanálise. Estes eram mais testes para saber o que tinha de potencial literário para ser reaproveitado dentro de um material fictício. Outros, que talvez pudessem ter expressões captadas por um algoritmo, se aproximavam mais do desabafo, em que eu desejava ardentemente uma resposta, um elogio.

“Os heróis de hoje são pessoas comuns e é positivo que formas de sofrimento deixem de ser um tabu estigmatizante ”
Pedro de Santi

No Facebook, onde os comentários são públicos, vinha de tudo: conselhos que não eram bem-vindos, análises equivocadas e declarações de admiração. Em resumo, era uma roleta-russa. O mais gratificante ocorria longe da arena central. Não raro, pessoas insuspeitas vinham até mim quando me encontravam pessoalmente, ou me escreviam via mensagem privada, e contavam sobre suas aflições pessoais e suas trajetórias conturbadas com antidepressivos. É sempre satisfatório quando isso acontece, afinal, há uma espécie esquisita de narcisismo que é intrínseco à depressão.

Não por acaso, Whindersson não foi o único famoso a expor sua condição. O também youtuber Felipe Neto e a atriz Bruna Marquezine, para citar dois exemplos apenas, também resolveram dividir a situação com seus seguidores. “Durante uma época, me importava muito com a opinião alheia, tinha questões de autoestima, não me achava bonita nem boa o suficiente, tomava laxante todos os dias e, junto com tudo isso, veio a depressão”, revelou Bruna em um vídeo publicado no Instagram.

Quebrando o tabu

Embora exista muita superficialidade nas redes, acredito que esses relatos ajudem inúmeras pessoas que achavam, como eu achei um dia, que precisavam sofrer em silêncio. “Os heróis de hoje são pessoas comuns e é positivo que formas de sofrimento deixem de ser um tabu estigmatizante e não sejam mais tratadas como estranheza ou loucura”, avalia o psicanalista e professor da ESPM Pedro de Santi.

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Mas o maior benefício é de quem tem coragem de expor sua história. Concordo com Andrew Solomon, jornalista americano que escreve sobre doenças mentais desde 2001 e autor de O demônio do meio-dia: Uma anatomia da depressão, quando diz que é importante ter o controle da narrativa para que as fases tristes saiam da gratuidade e ganhem um sentido maior. Seu lema, “forjar um significado e criar uma identidade”, tem como objetivo reescrever a própria história, ressignificando os pontos baixos, para que eles não se tornem motivo de vergonha, e, sim, de orgulho. “Eu passei a me sentir grato por uma vida que antes eu teria feito tudo para mudar”, disse durante uma palestra do TED.

Hoje, se estou me sentindo triste, e percebo que já estourei a cota semestral de #textão, posto um meme mezzo engraçado, mezzo deprimente. E, então, presto atenção no número de curtidas, sempre surpresa ao ver que determinadas pessoas que eu julgava com uma vida emocional impecável se identificam com aquele sentimento. São pequenos alívios superficiais, como uma pequena dose de dopamina, que, embora jamais vá suprir o vazio existencial, vale para o dia. Para mim, não há estratégia de defesa mais clássica que o humor autodepreciativo.

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Junto com as postagens com narrativas cada vez mais racionais, crio uma forma de controle psicológico que se dá online. Assim, ninguém criticará aspectos meus que eu não tenha confessado antes. De quebra, elimino meus pontos cegos, criando um maior autoconhecimento. Se, porventura, durante uma discussão, alguém diz qualquer coisa me desvalorizando, posso responder com segurança: sou isso mesmo, e daí? Ou então responder que não, firme e segura.

Por ora, é o possível para segurar a barra. Não mexe com nada estrutural, como acredito que faz a psicanálise e o contato constante com alguma literatura embasada e, por isso, os problemas continuam exatamente os mesmos. Mas ajuda a atravessar o dia, o que pode ser muito, diante de certas circunstâncias. Eu estou nessa estrada faz muitos anos. Para os desavisados, é bem importante ter em mente uma coisa: por mais conforto que traga, Twitter não é terapia.   

 

*Maria Clara Drummond, 32 anos,  é jornalista e escritora, mora em Lisboa e é autora do romance A Realidade devia ser proibida (2015)

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